Aplicativo que torna passageiro mais atuante nos transportes vence Hackatona EMTU/Metra

Irmãos Sales irão para o Canadá. EMTU e Metra vão incubar ideia

Pela proposta, por meio de ferramenta de celular, usuário registra reclamações e compartilha informações sobre problemas no sistema em tempo real com outros passageiros. Também é possível formar banco de dados para intervenções de médio e longo prazo

ADAMO BAZANI

Registrar reclamações sobre os serviços de ônibus em tempo real para que as gerenciadoras públicas e as empresas operadoras de transporte tenham acesso imediato e possam fazer intervenções rápidas. Compartilhar os problemas de momento com outros usuários, para que eles se programem a tempo de mudar de rotas ou mesmo esperar outra condução.

Essas são algumas das propostas do aplicativo colaborativo desenvolvido pelos irmãos Gustavo Sales e Matheus Sales, da equipe Sales Soluções, e que surgiu na primeira Hackatona EMTU/Metra de tecnologia para mobilidade urbana

O julgamento final ocorreu na tarde desta quinta-feira, 23 de março de 2017, na semana de mobilidade da UITP – União Internacional de Transporte Público para a América Latina em São Paulo.

A proposta foi a vencedora entre três finalistas. Os irmãos, que estudam na Fatec, além de contarem com o apoio da EMTU e Metra, que serão incubadoras do projeto, irão participar da Hackatona Mundial, durante o Congresso Mundial da UITP, entre 15 e 17 de maio em Montreal, no Canadá.

O passageiro pode, por exemplo, informar pelo aplicativo que seu ônibus está muito lotado e os demais usuários que estão esperando, podem se programar e, se possível, esperar um mais vazio.

Também há possibilidade de relatar desvios de rotas, atrasos e acidentes. E não é só isso. É possível informar os motivos dos problemas. Por exemplo, quando ônibus não passou em determinado ponto, pode ter havido um acidente, uma manifestação ou uma obra. Com isso, os passageiros trocam informações entre eles.

O usuário do sistema de transportes também se torna um fiscal, como sempre foi, porém, com a ferramenta, pode ter a possibilidade de anotar de fato que está acontecendo e ter seu registro visto pelas autoridades de transportes e empresas operadoras. Além de atrasos e superlotação, é possível relatar estado de conservação dos veículos, limpeza e até conduta dos motoristas e cobradores.

Os relatos dos passageiros ficam armazenados. Se estes relatos forem reincidentes em determinados dias e horários, pode haver a indicação problemas crônicos que necessitam de uma atuação dosa setores de planejamento das empresas e gestoras. Às vezes alguns minutos que um ônibus saiu mais cedo do ponto final, por exemplo, pode livrar os passageiros de perda de tempo em congestionamentos, um detalhe que pode passar desapercebido da gestão, mas que com relatos reincidentes dos passageiros pode começar vir à tona.

O Diário do Transporte acompanhou o evento e conversou com a equipe vencedora

“É preciso melhorar a comunicação entre o usuário e as empresas de transporte público. Isso a tecnologia pode fornecer e de maneira relativamente barata. Às vezes, a gente vê São Paulo, por exemplo, que investe ‘toneladas’ de dinheiro e, mesmo assim, tem problemas. Os usuários precisam se expressar. E esse é o nosso objetivo”. explicou Matheus Sales

“A Hackatona que aconteceu no último sábado e domingo foi muito importante porque nós tínhamos as ideias amplas, mas faltava um contato com o mundo do transporte. A Metra nos ajudou muito, mostrando para a gente a realidade do que ocorre no dia a dia, o ponto de vista do operador e as necessidades de um sistema de transportes. Eles [técnicos da Metra] mostraram como que tem que ser o funcionamento de sistema de ônibus, a importância da satisfação dos passageiros, do planejamento. Isso nos subsidiou para desenvolvermos nosso aplicativo da forma mais adequada para realidade” – disse Gustavo Sales.

BUROCRACIA AINDA É ENTRAVE PARA TRANSPORTES MAIS INTELIGENTES:

Os especialistas que estiveram presentes no evento disseram que há ainda um abismo entre as novas gerações e profissionais que têm soluções simples, eficientes, rápidas e mais próximas das necessidades do dia a dia das pessoas e a grande burocracia que existe principalmente no setor público, o que impede avanços mais significativos na área dos transportes.

“Uma iniciativa como esta hackatona desenvolvida pela EMTU é Metra, com o apoio da UITP,  é importantíssimo para que empresas e gestoras tenham contato direto com as inovações tecnológicas, com os novos talentos, ideias, que muitas vezes não ganharam ainda espaço necessário, principalmente no setor público. Além disso, ajuda a enfrentar hoje o grande problema institucional do setor público, inclusive na área de transportes. Temos muitos entraves legais e burocráticos que não permitiriam contratações mais facilitadas dessas ideias e soluções. Se fosse um processo normal pela legislação, de seleção de soluções tecnológicas, teria de ser aberto um procedimento no qual provavelmente só grandes empresas acabariam apresentando propostas caríssimas, nem sempre simples e eficientes como destes jovens. Pequenos desenvolvedores correriam o risco de ficar de fora. Hoje é difícil o poder público, e até mesmo as empresas, implantarem soluções inovadoras na área de transportes”, contou vice presidente honorário da UITP, Jurandir Fernandes, que já foi Secretário de Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo.

O QUE VAI ACONTECER COM PROJETOS ?

A EMTU e a Metra prometem que Hackatona não vai se limitar a pegar ideias e a dar a viagem como premiação.

O presidente da EMTU, Joaquim Lopes da Silva Júnior, disse ao Diário do Transporte que será desenvolvido um Laboratório de Mobilidade Metropolitana.

As três iniciativas que chegaram à final, contarão com uma incubadora e as ideias serão desenvolvidas para posterior aplicação.

Além disso, os projetos e os jovens ganham projeção no mercado de trabalho, que muitas vezes não teriam sem esse apoio.

Na própria Hackatona, empresas e tecnologias se interessaram pelas soluções

“Com certeza são ideias muito boas e nós já estamos pensando em incentivar muitos desses jovens que estiveram aqui”- disse João Ronco Júnior, diretor-presidente da Prodata, empresa de tecnologia na área de transportes.

Pelas normas do evento, apenas um membro da equipe vencedora viajaria para a Hackatona Mundial, no Canadá, mas como foram dois irmãos, a Prodata, de livre e espontânea vontade,  na hora decidiu financiar a outra passagem.

Ainda não há um prazo para que as soluções sejam implantadas, mas a intenção é disponibilizar o mais breve possível os aplicativos para os usuários.

“Todas as ideias nos chamaram muita a atenção e vemos que realmente o setor precisa estar atento a essa juventude. Em 34 horas de Hackatona, esses jovens fizeram muito mais, de uma maneira rápida e inteligente, do que muitas pessoas que prometem há anos soluções. Algumas ideias aqui apresentadas são rápidas e fáceis implantar, outras precisam de mais tempo, e algumas são bem conceituais e necessitam de mais desenvolvimento. Nós vamos inscrever todas essas propostas finalistas no prêmio Mário Covas de Gestão, um dos mais importantes do setor público de São Paulo. Um evento como esse, foi só o primeiro. Haverá outros. – disse Joaquim Lopes

OS OUTROS PROJETOS:

Outros dois projetos que foram finalistas e, agora contaram com apoio da EMTU e da Metra na incubação da ideia, auxiliam na gestão e geração de dados no sistema de ônibus e no serviço Ligado, da EMTU, que atende pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida severa, em especial crianças e adolescentes, que precisam ir para escola.

A equipe Computer Society Mostrou o aplicativo “Melhor Caminho”, para deixar mais eficiente o serviço Ligado. Pelo celular, o usuário pode saber a rota que será feita no dia, já que os itinerários são variáveis, saber o tempo de chegada da van à casa do beneficiário ou mesmo avisar de maneira mais rápida quando a criança vai faltar na escola, evitando trajetos desnecessários da van. O aplicativo também tem um espaço para o motorista obter informações do caminho adequado, informar quem já embarcou e saber da falta da criança na escola. As mudanças e informações são em tempo real.

Já a equipe Top Dow, apresentou uma solução chamada Milênio Bus que mescla software e hardware para compartilhar informações, como superlotação dos ônibus. Câmeras seriam instaladas nos veículos e gerariam imagens do interior do ônibus, preservando o rosto das pessoas, compartilhando em tempo real a situação do coletivo nos celulares dos passageiros. Haveria contadores de passageiros que identificariam os locais de maior demanda. A solução também prevê a instalação de leitores na entrada e na saída do veículo para que o passageiro possa pagar apenas pelo trajeto que percorreu e não a tarifa cheia da linha. O mesmo aplicativo também permitiria pagamento de tarifa por QR Code (código que pode ser lido pelos equipamentos da catraca) no celular, além de cargas e recargas de crédito pelo telefone.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes