HISTÓRIA / HOMENAGEM: O parceiro da Chapecoense

Ônibus que virou mascote e parceirão das conquistas da Chapecoense

Time que entrou para o coração de todo o mundo, teve um velho parceiro que ajudou na caminha vitoriosa ao longo da história da jovem agremiação

ADAMO BAZANI

Todo mundo foi acordado na terça-feira, 29 de novembro de 2016, com a notícia da tragédia.

O avião que levava jogadores da Chapecoense junto com jornalistas, comissão técnica e demais profissionais, havia caído na Colômbia.

Todos entraram em choque. As reações foram as mais diversas possíveis. Nos momentos de tristeza, o lado humano e a solidariedade mostram que são os mais fortes, apesar de os valores distorcidos no dia-a-dia.

O mundo teve apenas um time, uma torcida, uma agremiação, um só coração.

Para este que escreve, além da dor da tragédia de ver jovens jornalistas técnicos, profissionais e atletas, uma dor ainda maior: o amigo Deva Pascovicci, com quem trabalhei por vários anos na Rádio CBN, estava entre os mortos. Seu nome de batismo é Devair Paschoalon. Ele se foi aos 51 anos de idade. Além de excelente profissional, uma pessoa que teve muito a ensinar. Humilde, sabia reconhecer os méritos dos colegas. Elogiava, parabenizava e tinha um ótimo papo. Deva não era “busólogo”, mas ao saber que este repórter gosta de ônibus, sempre procurava tocar no assunto. Falava dos transportes de São José do Rio Preto, onde começou a crescer na carreira. Deva é natural da cidade de Monte Aprazível, também no interior de São Paulo.

Deva Pascovicci. Procurava fazer com que todosse sentissem bem e se tornou exemplo de coleguismo e superação
Deva Pascovicci. Procurava fazer com que todosse sentissem bem e se tornou exemplo de coleguismo e superação

Chamado de Pavarotti do Rádio, pelos amigos, como por outro irmão nosso, Paulo Massini, sua voz era marcante e seu jeito de narrar era inovador e emocionante. Deva era a pessoa que tentava agradar, mas não apenas para ter um bom ambiente no trabalho. Era porque ele vibrava com o sucesso e com sorriso dos outros. Venceu por duas vezes o câncer e se tornou um grande exemplo. Estava atuando pela Fox Sport quando ocorreu a tragédia.

A Associação Chapecoense de Futebol foi fundada em 10 de maio de 1973. Sua primeira diretoria era formada por Presidente: Lotário Immich; Vice-Presidente: Gomercindo L. Putti; Secretário: Jair Antunes de Silva; 2º Secretário: Altair Zanela; Tesoureiro: Alvadir Pelisser; 2º Tesoureiro: Paulo Spagnolo; Diretor Esportivo: Vicente Delai; ainda com a participação de Jorge Ribeiro (Lili) e Moacir Fredo. A primeira formação do time foi Odair Martinelli – Alemão (motorista da SAIC), Zeca (apelidado de “Calceteiro” por ser o responsável pela montagem das calçadas, funcionário da Prefeitura de Chapecó), Miguel (Cabo da PM/SC), Boca, Vilmar Grando, Caibi (Celso Ferronato), Pacassa (José Maria), Orlandinho, Tarzan, Ubirajara (PM/SC), Beiço, Airton, Agenor, Plínio (de Seara), Jair, Raul, Xaxim e Casquinha (funcionário do BESC).

O nome do estádio, Arena Condá, é em homenagem ao cacique Vitorino Condá, que, segundo o portal Kaingang, em 1856, era o principal líder estabelecido no aldeamento do “Xapecó”, e no ano seguinte aparece como principal cacique dali.

O Cacique Vitorino Condá foi um grande estrategista que defendeu o direito do povo indígena à terra contra as invasões de fazendeiros da época, sendo um  grande negociador. Condá “trabalhou a soldo do governo brasileiro, tendo se estabelecido no Toldo do Imbú, no passo do Rio Xapecó, decide ir a Curitiba requerer uma terra para sua gente”, diz a publicação.

“Vitorino Condá assim como a maioria das lideranças indígenas optaram entre a aliança, neutralidade, negociação, a dissimulação e o conflito (BRINGMANN, 2010). Acrescente-se para além de Sergio Buarque de Holanda, que a viabilidade da conquista não se tratava apenas pela presença indígena como uma experiência vivida do sertão, que em simbiose osmótica com o adventista invasor, permitia ao segundo melhor, dispor do meio que pretendia conquistar, mas também, porque em muitos casos fronteiriços, a maioria numérica das tropas indígenas colocava em dependênciaessa conquista, que só podia ser viabilizada por constantes alianças fundamentadas nesta supra e retro dependência.” – resume o pesquisador Almir Antonio de Souza , no trabalho A INVASÃO DAS TERRAS KAINGANG NOS CAMPOS DE PALMAS. O PROCESSO CONTRA A LIDERANÇA INDÍGENA VITORINO CONDÁ (1839-44)

PARCEIRÃO:

Onde estavam os torcedores, o velho San Remo também era presença infalível
Onde estavam os torcedores, o velho San Remo também era presença infalível

Um dos grandes companheiros da equipe, entretanto, que ficou para a e vencedora história da Chapecoense foi um simpático Marcopolo San Remo Intermunicipal com chassi Mercedes-Benz o OF 1313. Este modelo de ônibus foi produzido entre os anos de 1974 e 1983, com unidades para projetos especiais até 1985.

O ônibus circulou pela cidade e até mesmo em outros estados, levando as mais diferentes formações da equipe.

O veículo se tornou uma espécie de mascote. Com motor dianteiro, não muito confortável, ainda mais quando o caminho era para ser mais longo, porém bastante eficiente. Em viagens maiores, outros modelos eram fretados.  Pela Chapecó também passaram um Marcopolo Paradiso Geração 4 1400 Volvo B 10M e um Busscar Vissta Buss Volvo B 10 M.

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Time também usou outros modelos rodoviários
Time também usou outros modelos rodoviários

Uma matéria do Diário Catarinense, que chamou o modelo ano 1982 (1983) de parceiro da Chapecoense, mostra que o veículo era tão presente na rotina da Chape, que os jogadores brincavam com a fama do ônibus e do motorista considerado meio “roda presa”

MATÉRIA DO DIÁRIO CATARINENSE DE 03 DE MAIO DE 2007

Sujo de lama, parece que parceiro também entrava em campo com a equipe
Sujo de lama, parece que parceiro também entrava em campo com a equipe

Ônibus de 1983 é o parceiro da Chapecoense nos treinos

Antigo veículo transporta os jogadores em Chapecó

– Ele nunca nos deixou na mão.

Márcio Machado, atacante da Chapecoense, não está se referindo a algum outro jogador, ao técnico ou ao presidente do clube. Márcio está falando do ônibus da delegação que transporta os jogadores nos treinos dentro da cidade de Chapecó. O ônibus, ano 1983, era utilizado para levar funcionários da Embrapa de Concórdia. O interior não é nada luxuoso, mas cumpre bem a função.

O atacante reclama apenas de Jandir Marafon, o Mirafina, como é conhecido pelos jogadored do Verdão. O motorista recebe queixas de ser, algumas vezes, muito lento. Na semana passada, o time tinha treino tático marcado no período da manhã, em Coronel Freitas.

– Acho que vão chegar somente à tarde – brincou o jogador Almeida.

Independente das brincadeira, Marafon pode se orgulhar de ter transportado o time finalista e, quem sabe, campeão de 2007.

Pelo menos, Mirafina não errou o caminho, como ocorreu na viajem do confronto contra o Próspera, na décima rodada do returno. O time saiu às 13h de Chapecó, foi por Porto Alegre e chegaria às 24h em Orleans. Só que o motorista errou o caminho e foi parar em Tubarão.

– Chegamos às 3h no hotel – lembrou Nivaldo, indignado.
Muito ainda precisa ser esclarecido sobre o acidente. Todas as informações até agora apontam para negligência do dono e piloto da empresa LAMIA , Miguel Quiroga, morto também na tragédia, que teria tentado economizar combustível, não fez uma parada considerada por especialistas necessária e teria omitido informações no plano de voo e no pedido tardio de prioridade para o pouso.

A comoção não pode obscurecer a apuração, pelo contrário, deve ser a força não apenas para achar culpados, mas para esclarecer os fatos e evitar outras tragédias como esta.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes