HISTÓRIA: Passeio em monoblocos, uma viagem no tempo

Dois ícones dos transportes, monoblocos reuniram muita história e foram palco de encontro agradável

 

Além de contatos com ônibus históricos, evento representou encontro com profissionais cuja trajetória faz parte da memória dos transportes. Trens e até caminhões não ficaram de lado

ADAMO BAZANI

Passeio foi oportunidade para trocar experiências e relembrar fatos marcantes dos transportes

Passeio foi oportunidade para trocar experiências e relembrar fatos marcantes dos transportes

Transporte é vida, desenvolvimento e um direito que dá ao cidadão acesso ao que é fundamental para uma vida digna: saúde, educação, emprego, renda e lazer.

Assim, quando a memória do transporte é retratada, o que se desataca é o lado humano. Afinal, transporte não se resume a ônibus, trens e caminhões e, sim, a vidas.

Por isso, todo evento que é organizado em prol da memória do transporte tem como principal característica não exibição de veículos antigos, mas as conversas, as amizades e o aprendizado do passado com vistas para melhoria do futuro.

Foi assim o passeio de monoblocos organizado pelo grupo de colecionadores, admiradores, profissionais e estudiosos “Ônibus & Raridades”.

No último sábado, dia 19 de novembro de 2016, o grupo se encontrou nas proximidades do terminal rodoviário Tietê, na zona norte de São Paulo, e seguiu viagem num muito bem conservado Monobloco Mercedes-Benz O-370 ano 1985. Um dos modelos que mais marcaram a série dos ônibus integrais brasileiros da montadora.

O Diário do Transporte acompanhou tudo.

Apesar do excelente estado, o veículo ele não é utilizado apenas em acervos, eventos de transporte ou comerciais. O ônibus ainda presta serviços de fretamento, em especial, para comunidades religiosas.

O destino era Campinas, no interior de São Paulo.

A viagem na estrada foi marcada por muita conversa e recordações, num clima de descontração.

Apesar de Campinas ser o destino, o passeio só estava começando.

O grupo então foi para um monobloco urbano O-365, que era do Exército, e é mantido por um colecionador com a pintura da CCTC – Companhia Campineira de Transporte Coletivo, que foi empresa subsidiária da Viação Cometa e prestou serviços na cidade do interior paulista. A CCTC teve origem em 1961. A população crescia e os bondes não davam conta. A prefeitura então concedeu linhas municipais à Viação Cometa S.A. por 10 anos. A empresa, entretanto, não ficou apenas uma década na cidade. Os serviços da CCTC foram até o final de 1988. Oficialmente, a empresa foi convidada a deixar as operações pela prefeitura por ser contra a formação de uma Câmara de Compensação Tarifária. Mas na prática, o que ocorreu foi uma pressão da prefeitura porque Nicola Mariotini, gerente da CCTC, não concordou com o modelo de remuneração pelo qual toda a arrecadação era dividida de forma proporcional entre as empresas, beneficiando linhas deficitárias.

O passeio teve um destaque inesperado. Na troca de ônibus, o grupo encontrou outros três monoblocos da Mercedes-Benz: O-371, com pintura da Caprioli, empresa tradicional da cidade, um O-364 rodoviário branco e um O-362 urbano, este último ainda com a pintura antiga da Viação Bonavita de propriedade de um morador da cidade. A Bonavita também foi uma empresa que marcou a história dos transportes na região.

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Monobloco O-362 com pintura da tradicional Bonavita

Monobloco O-362 com pintura da tradicional Bonavita

O passeio foi oportunidade de encontrar pessoas que contribuíram para o crescimento dos transportes, como é o caso do instrutor Adilson Matos.

Ele conta que começou em 1977 a trabalhar em transportes na empresa Pássaro Marron.

Adilson Matos vendia biscoito em frente à garagem que ficava na Vila Maria, em São Paulo.

O gerente geral da Pássaro Marron,  Gentilino  Matos, conheceu Adilson e se admirou com o conhecimento e interesse que o jovem tinha sobre ônibus.

Uma visita dentro da garagem mudou a trajetória de Adilson. A Pássaro Marron pagou por dois anos e meio um curso de formação técnica no Senai sem que o jovem precisasse trabalhar.

Só depois Adilson começou atuar na garagem, onde ficou trabalhando por seis anos.

Outra experiência de Adilson foi na Viação Itapemirim. Lá o profissional teve contato direto com o fundador Camilo Cola, considerado um dos pioneiros e visionários dos transportes rodoviários.

Para se ter uma ideia, em 1966, Camilo Cola colocou em operação o primeiro ônibus de três eixos no Brasil. O veículo era adaptado pela Mercedes-Benz, um Monobloco O-326.

Adilson contou que os resultados não agradaram Camilo Cola. Então o próprio empresário contratou uma equipe de engenheiros e construiu cinco protótipos de três eixos que rodaram 10 milhões de quilômetros.

O projeto Tribus foi então aprovado pelo Conselho de Desenvolvimento Industrial, abrindo esta importante inovação para as estradas.

Adilson também lembra que em 1982, numa palestra em Cachoeira do Itapemirim, Camilo Cola falou sobre motores eletrônicos, algo considerado por muitos, impossível.

Camilo foi alvo de comentários e até sorrisos irônicos. Hoje os motores eletrônicos são realidade

Adilson Matos também lembra da inauguração de uma das maiores garagens de ônibus da Grande São Paulo na época. Era o Centro Operacional Edmundo Regis Bittencourt, da Viação Itapemirim, em Guarulhos. A cerimônia de inauguração em 1983 contou com a presença de autoridades.

O profissional se emociona ao lembrar das outras empresas onde atuou como a Companhia São Geraldo e a Sampaio.

Se os transportes devem ser integrados para oferecer a mobilidade urbana no dia a dia, também na história, os diferentes modais têm relação.

O passeio também contemplou uma visita à estação Anhumas, que foi inaugurada em 1926 pela Companhia Mogiana de Estradas de Ferro.

A estação Anhumas hoje é mantida pela ABPF – Associação Brasileira de Preservação Ferroviária e é o início da viagem turística de Maria Fumaça até Jaguariúna.

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Máquinas e carros de diversas tecnologias, épocas e sistemas podem ser apreciados de perto na estação Anhumas

Máquinas e carros de diversas tecnologias, épocas e sistemas podem ser apreciados de perto na estação Anhumas

No local a estrutura antiga da estação é mantida assim como objetos e diversas locomotivas e vagões da Mogiana e também de outros sistemas.

No meio do caminho, uma Scania histórica

No meio do caminho, uma Scania histórica

Caminhões antigos, como uma das pioneiras Scania de cara chata, deixaram o passeio ainda mais nostálgico.

Outro achado no meio do caminho foi a frota de ônibus da empresa Sambaíba que acabou de ser baixada e deixa a cidade de São Paulo. Os veículos estavam num grande pátio da Sambaíba representante da Mercedes-Benz, em Campinas.

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Ônibus que deixaram a Capital Paulista, mas que agora entram para a história dos transportes da cidade. Veículos serão vendidos para outros sistemas ou para serviços particulares

Ônibus que deixaram a Capital Paulista, mas que agora entram para a história dos transportes da cidade. Veículos serão vendidos para outros sistemas ou para serviços particulares

A Sambaíba é do empresário português Belarmino de Ascenção Marta que além de atuar na capital paulista, detém grande parte das linhas rodoviárias e urbanas de Campinas.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

1 comentário em HISTÓRIA: Passeio em monoblocos, uma viagem no tempo

  1. Amigos, bom dia.

    Os monoblocos MBB, são inesquecíveis; lembro da primeira vez que entrei num O-370 rodoviário,
    parecia que eu estava dentro de um avião.

    Adamo, fotos sensacionais e históricas.

    Obrigado por compartilhar o texto e as fotos, deu para fazer o passeio digital.

    Att,

    Paulo GIl

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