OPINIÃO: Cidade sob medida

Países que buscam uma boa posição no futuro dependem essencialmente daquilo que realizam em épocas de crise e escassez. A economia burra, aquela que vê no corte puro e simples de orçamentos e investimentos o foco essencial para a redução de custos, já deveria ter sido aposentada há muitos anos em países que sonham com uma situação perene e sustentável. Não é o que se vê no caso brasileiro.

Fazer mais com menos é uma lição que já deveríamos ter aprendido. Não tanto pela economia, mas pelo resultado. Um exemplo clássico está em oferecer a mais pessoas os benefícios de um transporte público coletivo de qualidade.

Já dizia o ditado caipira: com açúcar qualquer besouro faz mel. Produzir benefícios com receitas em queda é o desafio que bons gestores adoram enfrentar. E vencer.

Um recém-publicado relatório da ONU (Mobilizing Sustainable Transport for Development) delineia 10 diretrizes para que os países assegurem uma melhoria no setor de transportes. Sugere que os dirigentes devem começar “a mudar seus sistemas de transportes, adotando novos parâmetros que privilegiem mais o planejamento e o investimento em tecnologia e menos em grandes construções”. Em resumo: fazer mais com menos. Ou fazer mais com o que já se tem, aproveitando-se da tecnologia e da integração dos insumos existentes.

Matéria publicada no jornal Folha de SP destacando o relatório (ONU sugere mudanças em transportes para economizar até US$ 700 bilhões por ano), alinhava algumas das sugestões feitas pela ONU. Por exemplo: os financiamentos para investimentos devem se basear “numa visão holística da natureza complexa dos investimentos em transportes e suas consequências”. Mais: o relatório, produzido por especialistas de vários países, define que a utilização de tecnologias inovadoras e de combustíveis limpos tornou-se um imperativo num momento em que o mundo se compromete, após o Acordo de Paris, com a redução das emissões de gases do efeito estufa.

Usar racionalmente as fontes de energia produzindo soluções baratas e integradoras é o cerne do que propõe o documento. Agindo assim, por suposto, os países colaborariam com as metas definidas pelo Acordo de Paris. Os dados são conhecidos não é de hoje:  cerca de 1/4 das emissões do mundo são de responsabilidade do sistema de transporte.

Mas de que adianta um documento dessa natureza? Que, afinal das contas, repisa conceitos que são já velhos conhecidos da comunidade dos transportes? Nada e muito, por paradoxal que seja.

Passadas as eleições municipais ainda estamos às voltas com problemas que já foram superados há décadas nas principais cidades do planeta, e que se situam muito aquém das preocupações exaradas pelo documento global. Parece trágico, mas é real que ainda temos de repisar conceitos como o de que velocidade e segurança viária são funções inversas: se uma sobe, a outra despenca.  Em muitas cidades brasileiras a rejeição a qualquer medida que lance mão da redução da velocidade gera espanto e revolta, mesmo com dados técnicos nacionais e mundiais apontando sua efetividade. Bebida e volante? Fujamos da Lei Seca, parece ser a palavra de ordem da turma que adora criticar a indústria da multa… (Um estudo recente da USP aponta: 42% dos mortos no trânsito em SP haviam bebido)

Outra assustadora questão: o uso do carro para qualquer finalidade (ir à padaria na esquina, ou usá-lo como único meio de transporte em áreas urbanas) não ajuda, e sim piora a saúde das pessoas e o ambiente urbano e global (por falar nisso, leia dados do UNICEF: Air pollution kills 600,000 children yearly). Mas muita gente não aceita, em momento algum, qualquer restrição ao uso de um símbolo de status, por menor que esta restrição seja.

Isso decorre em boa parte de uma política de transporte que sempre se baseou em investimentos em grandes obras para aumentar a velocidade de deslocamento das pessoas, com foco principalmente na motorização e no transporte individual. Mais carros, mais ruas, mais viadutos, implicando em menos cidades amigáveis e saudáveis.

Um dado revelador de como as pessoas lidam com o que é público, e que portanto deveria ser cuidado para o bem de todos, está numa recente notícia provinda de uma região administrativa do Distrito Federal (‘Incomodada’ com pedestres, mulher cerca calçada em frente de casa no DF), onde as pessoas têm usado as áreas da calçada em frente de casa para fins pessoais.  “Uma mulher, por exemplo, cercou uma parte por se sentir incomodada com os pedestres. Já um homem decidiu usar o espaço para criar um ambiente de lazer”, relata a matéria.

Nada de novo. As calçadas são o exemplo inconteste de como o bem comum tornou-se de uso privado desde a proliferação dos automóveis nas cidades. O que deveria ser um bem cuidado por todos e para o uso de todos tornou-se propriedade de poucos em detrimento da maioria.

Afinal, que régua usamos para medir os espaços das cidades? A mentalidade que se percebe nas cidades brasileiras ainda é a de que é natural aceitar que as rodas dos carros e suas velocidades é que determinam as larguras e profundidades dos caminhos a percorrer, em contraposição aos pés que todos usamos para caminhar.

 

Verónica Mansilla, um arquiteta argentina da província de Tucuman, criou um jeito simples e fácil de detectar obstáculos nas calçadas (veja o vídeo). Numa caixa de fósforos vazia ela acondicionou um artefato criativo, composto de uma linha de barbante, um pedaço de giz e uma tampa de garrafa PET. Deu-lhe o nome de Kit Detector de Obstáculos. De posse dessa traquitana, e orientadas por seus professores, crianças saem às ruas avaliando as condições das calçadas que utilizam em seus caminhos para a escola.

Colocando a tampinha em desníveis, as crianças detectam obstáculos perigosos para cadeirantes e idosos. Com o uso da linha, ao qual um giz é preso num raio de 75 cm, traçam um círculo para descobrir se um cadeirante consegue realizar um giro para retornar em seu caminho sem a necessidade de sair da calçada. E com a linha (à qual está preso o giz), medem ainda a largura das passagens, definidas num comprimento mínimo de 90 cm. Uma prática que alia geografia, ciências, matemática e cidadania.

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Crianças de uma escola na periferia paulistana, em São Miguel Paulista (EMEF Arquiteto Luis Saia), fizeram esse exercício na calçada defronte à sua escola (*). Descobriram que as calçadas são não só perigosas para idosos, como impraticáveis para a passagem de cadeirantes e para o caminhar tranquilo delas, crianças, e de seus pais. E aprenderam, numa singela auditoria realizada com esse kit, que quem quer caminhar pela cidade não tem prioridade. Nem atenção das autoridades, que deveriam zelar pela segurança viária.

Não deveria ser por falta de legislação. Uma lei municipal (nº 14492, de autoria do vereador Eliseu Gabriel), decretada e promulgada em 2007 na cidade de São Paulo, determina, por exemplo, uma área escolar de segurança, correspondente a círculos de raio de 100 (cem) metros, com centro nos portões de entrada e saída das escolas. Nesse entorno, reza a lei (entre muitas recomendações), deverá ser feita manutenção de calçadas “para que fiquem em perfeitas condições de uso”.

Se todas as crianças de um bairro, ou até de uma cidade, saíssem às ruas com esse kit detector de obstáculos no entorno de suas escolas e aí realizassem uma auditoria da qualidade dos caminhos que percorrem todos os dias, os prefeitos teriam um mapa real e sincero dos danos que a ineficiência produz na vida das pessoas: pais e seus filhos.

Mais: descobririam que uma cidade em que as crianças são expulsas de espaços que deveriam ser naturalmente seus (um espaço para conviver e brincar), é uma cidade doente.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes, editor da ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos – originalmente em: http://www.antp.org.br/noticias/editorial-e-destaques-da-semana/cidade-sob-medida.html

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Comentários

Comentários

  1. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa tarde.

    Não subestimem a inteligência de nossas crianças, afinal qualquer uma já sabe como são as calçadas das ruas do Brasil; isso quando tem calçada.

    No Brasil não há cidades doentes há sim, UM “ESTADO MORTO”.

    Att,

    Paulo Gil

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