Vídeos, fotos e informações sobre a história da Mafersa como produtora de ônibus

O Mafersa M-210 Turbo trouxe inovações até então pouco vistas no mercado de ônibus urbanos brasileiros.

Empresa fez veículos considerados de qualidade, inclusive trólebus, articulados e rodoviários

ADAMO BAZANI

Quando se fala em Mafersa, a primeira lembrança que se tem é sobre produção de composições de metrô, trens e equipamentos ferroviários.

Realmente foi para isso que foi criada a Mafersa -Material Ferroviário S.A.

A empresa foi fundada em 31 de janeiro de 1944 e fabricava rodas e eixos para ferrovias no Brasil, sendo uma das principais fornecedoras para a São Paulo Railway, a primeira ferrovia paulista, fundada pelos ingleses, que ligava Santos a Jundiaí, passando pela Estação da Luz e Paranapiacaba.

E não foram poucos os marcos da Mafersa na indústria ferroviária. Logo em sua primeira fase, conseguiu um contrato de transferência de tecnologia com a The Budd Company. A Mafersa foi a primeira indústria da América Latina a produzir carros (vagões de passageiros) de aço inoxidável.

No entanto, nos anos de 1950, a indústria automobilística se instalava com mais força no Brasil e o transporte rodoviário ganhava incentivos do governo. Esta situação começou a ser sentida pelas companhias ferroviárias a partir dos anos de 1960. Os investimentos em trilhos caíram e a Mafersa, como outras empresas, enfrentavam dificuldades. Na época do golpe militar de 1964, a Mafersa foi estatizada. O Governo Federal era o principal cliente da companhia.

Nos anos de 1970, com investimentos no Metrô, a Mafersa começou a passar por um bom momento.  Com licenças internacionais e em consórcios forneceu composições e equipamentos para o metrô de São Paulo, metrô do Rio de Janeiro, RFFSA – Rede Ferroviária Federal S.A e Fepasa – Ferrovias Paulista S.A. .

OS ÔNIBUS PARA SOBREVIDA:

Mafersa e Cummins usavam como estratégia depoimentos de empresários satisfeitos com os veículos, como Alfredo Isaak, da Leblon, do Paraná.

Mas os anos de 1980 não foram tão promissores como a década anterior. Com a falência da The Budd Company, a empresa brasileira sofreu um impacto desastroso, já que fabricava utilizando, sob licença, os métodos de produção da americana.

Praticamente ninguém mais aplicava em ferrovia. A inflação e o desemprego nesta época não só afetavam o bolso dos trabalhadores, como do próprio governo, que ainda era o maior investidor em sistemas de trilhos.

Surgiu então a ideia de empresa começar a fabricar ônibus e trólebus. Movimento semelhante foi visto em outra companhia de materiais ferroviários, a Cobrasma.

Em 1985, entrava no mercado M 210 Turbo, o primeiro ônibus da Mafersa, que também começou a fabricar o trólebus M 210 Villares.

O ônibus M 210 era Monobloco, ou seja, a carroceria e o chassi formavam um mesmo conjunto. O motor era o Cummins 6CT8.3 210, o mesmo que equipava o caminhão Volkswagen 14.210 . A transmissão era ZF S 6-90  e o eixo de tração era feito pela Mafersa, com tecnologia licenciada da Europa.

A empresa foi uma das pioneiras na aplicação de freio ABS e controle de estabilidade em ônibus urbanos.

Posteriormente, outra versão mais sofisticada era o M 240 com opção de transmissão automática Alisson, com mais potência e conforto para motorista e passageiros.

Os ônibus e trólebus da Mafersa começaram a ganhar o mercado tanto pelo crescimento do setor de transportes urbanos e metropolitanos, como também pela credibilidade que tinham as marcas Mafersa e Cummins.

Ambas empresas que atuavam em parceria começaram a utilizar a reputação que tinham no mercado e a boa aceitação dos empresários como estratégia de negócios.

Uma propaganda da Cummins, por exemplo, trazia o depoimento do empresário Alfredo Willy Isaak, fundador da Leblon Transporte de Passageiros, que comprou 28 Mafersa e com os veículos ligava os municípios de Curitiba e Fazenda Rio Grande, no Paraná.

Na propaganda, a Cummins fazia questão de trazer o depoimento empresário dizendo que depois de 400 mil quilômetros rodados os motores dos ônibus não tiveram de ser abertos para passar por retífica.

No entanto, os ônibus da Mafersa começaram a apresentar alguns problemas, principalmente quando circulavam fora de corredores. De acordo com o site Caminhão Antigo Brasileiro, havia problemas com a ingestão de poeira por causa da inadequada tomada de ar de admissão e também o desgaste excessivo no mancal de encosto do virabrequim.

Os problemas começaram a ser corrigidos no início dos anos de 1990. Para se ter uma ideia, foram feitos testes na rodovia Mogi-Bertioga como relata um dos participantes do site, Evandro Fullin.

“À volta de 1992, no papel de engenheiro de aplicações da citada casa norte-americana de motores diesel, este que aqui escreve teve o prazer de trabalhar em vários desenvolvimentos do M210 e do M240, tendo inclusive participado de um memorável teste de “cooling” (arrefecimento) na serra da Rodovia Mogi-Bertioga, SP-098, ocasião em que dois Mafersa foram acoplados por um cambão, de modo a simular carga no veículo anterior do comboio.” http://caminhaoantigobrasil.com.br/category/catalogos-e-folhetos/onibus/mafersa/

Os ônibus começaram a dar uma sobrevida bem importante à Mafersa, tanto é que durante a produção destes veículos, a empresa foi privatizada em 11 de novembro de 1991: 90% de suas ações foram adquiridas pela Refer – Associação dos Funcionários da Rede Ferroviária Federal.

Diversos sistemas de São Paulo e de outros estados já contavam com ônibus da Mafersa, que marcaram, por exemplo, as operações do Corredor Metropolitano ABD, ligando o ABC Paulista às Zona Sul e Leste da capital.

A operação em corredores como o ABD deu ainda mais destaque aos produtos da empresa

A Mafersa também ganhou mercado em trólebus. Entre 1986 e 1988, em parceria com a Villares, a empresa, por exemplo, forneceu 78 trólebus para a CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos, a maior parte que operou na região de Santo Amaro, na zona Sul.

A Mafersa chegou a ser, junto com a Villares, uma das principais fornecedoras de trólebus em São Paulo.

Companhia pública de transportes de Santos adquiriu trólebus Mafersa no final dos anos de 1980

Em 1988, ainda forneceu seis trólebus para a CSTC, que era a Companhia Santista de Transporte Coletivo, empresa pública.

Os veículos operam pela Viação Piracicabana em uma linha histórica de Santos, mas a prefeitura já assinou decreto para que passem a integrar o patrimônio público.

O protótipo de trólebus articulado despertou à época atenção no mercado.

Em 1987, a Mafersa desenvolveu um protótipo de trólebus articulado, que chegou a ser testado no Corredor ABD, hoje operado pela Metra.

Nas versões trólebus ou diesel, em linhas comuns ou especiais, o sistema da capital paulista foi um dos que mais empregou os veículos

Linhas metropolitanas entre capital paulista e a região do ABC tiveram também o modelo, além do próprio Corredor ABD.

Modelo em testes no Rio de Janeiro

 A LINHA “S” E FÁBRICA EM CONTAGEM:

Mafersa Série S foi aposta da empresa para ampliar mercado.

No início dos anos de 1990, a Maferesa transferiu sua produção de ônibus diesel para a unidade de Contagem, em Minas Gerais, e lança a Série S de ônibus, com design mais moderno e algumas diferenciações na parte mecânica.

A produção inicial na unidade de Contagem era de 30 ônibus por mês. Em 1993, a Mafersa tinha aproximadamente mil veículos de transporte coletivo sobre pneus rodando no país.

Foi na fábrica de Contagem que a Mafersa produziu não apenas ônibus Monoblocos, mas também chassis e plataformas para receberem carrocerias de outras empresas.

Com o início da produção em Contagem , a Mafersa lançou o M 210 S com câmbio manual. Já o M 240 S tinha câmbio automático.

Veja os vídeos:

 

ARTICULADOS, RODOVIÁRIOS E FIM DA MAFERSA:

A Mafersa com a Cummins lançou chassis de ônibus articulados, que operaram em algumas cidades, como Mauá, no ABC.

A Mafersa também atuou na fabricação de chassis para ônibus articulados. Foi o M 290, com motor Cummins de 290 cavalos. O ônibus não teve a mesma aceitação dos seus antecessores pelo fato de a Mafersa já estar caminhando para o seu final por causa da crise econômica e no setor ferroviário.

Algumas empresas de ônibus chegaram a circular com o M 290, como a Viação Januária, em Mauá, na Grande São Paulo, cuja unidade foi encaroçada pela Ciferal.

A Mafersa também apresentou ao mercado, sem grande sucesso, o modelo de ônibus rodoviário MR1-320 que foi um protótipo, no entanto, não houve tempo para comercialização em linha, já que a empresa entrava em declínio.

O Mafersa rodoviário foi lançado num momento crítico e não ganhou espaço

A Leblon Transporte de Passageiros, a mesma que apareceu na propaganda da Cummins, tinha uma divisão de ônibus de fretamento e chegou a operar em Fazenda Rio Grande e em Curitiba com uma unidade do Mafersa rodoviário.

A Mafersa fabricou o ônibus de 1985 até 1994, com algumas unidades entregues ainda no início de 1995.

O principal ramo de atividade da empresa, o ferroviário, não ia nada bem. Em 1994, houve uma esperança: O consórcio que a Mafersa formou com a Morrison-Knudsen Co venceu uma licitação para fabricar carros de 2 andares (vagões de passageiros) para a Caltrans, nos Estados Unidos.

No entanto em 1995, o contrato foi cancelado por causa da falência da Morrison que era detentora do acordo.

O governo brasileiro não fazia mais nenhuma encomenda de trens. A produção da Mafersa já estava parada por três meses e em 1995, a companhia foi vendida para o Clube de Investimento dos Funcionários.

Também em 1995, 1.820 empregados foram demitidos e a dívida da Mafersa chegava, na época, a R$ 2,6 milhões, entre trabalhistas, com bancos e fornecedores.

A fábrica chegou a ser reaberta em 1996, com 360 funcionários, mas só recebeu encomendas de reformas de trens.

A matriz, que ficava na Lapa, Zona Oeste da capital paulista, foi adquirida em 1997 pela francesa Alstom. Em 1999, a Mafersa transferiu a tecnologia e os direitos do uso de sua marca para a MWL Brasil rodas e eixos, que era formada por ex- funcionários da Mafersa. A empresa MWL foi posteriormente comprada pela alemã German GMH Group.

A Mafersa foi um marco na história dos transportes do Brasil. Apesar de fabricar por menos de 10 anos ônibus, também trouxe importantes contribuições para este meio nas ruas e avenidas das principais cidades do país.

A exemplo de outra fabricante ferroviária, Cobrasma, os ônibus uniam a praticidade do transporte sobre pneus incorporando elementos de qualidade dos transportes ferroviários.

As linhas de desenho, as soluções de ergonomia e a durabilidade da carroceria tinham padrões até então pouco vistos na indústria de ônibus brasileira.

Ao lado dos trólebus da Cobrasma e do Monobloco Urbano O-371, da Mercedes Benz, os ônibus da Mafersa realmente representavam inovações na mobilidade urbana. Algumas foram seguidas, outras, por questões de custos, dispensadas.

Os modelos de ônibus fabricados pela Mafersa foram:

M210 Turbo

M210S

M240 Turbo

M240S

M290 – articulado

MR1320

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

CONFIRA UMA SELEÇÃO DE FOTOS DE ÔNIBUS DA MAFERSA:

10 comentários em Vídeos, fotos e informações sobre a história da Mafersa como produtora de ônibus

  1. Excelente artigo, uma pena ela ter deixado de existir. Tive uma única oportunidade em andar num trolebus no corredor de Santo Amaro, já no diesel nunca andei, cheguei andar pelo centro de Diadema nos tempos que a ETCD já dava adeus as ruas da cidade, mas não tive a sorte de pegar um dos dois mafersas que ainda estavam em operação. Dos que operaram na CMTC, existe um M-210 Turbo (diesel) parado na antiga garagem araguaia (todo acabado, frente danificada sem a tampa frontal, provavelmente arrancada pelos guinchos que fizeram a movimentação dele quando precisou troca-lo de lugar ou de pátio). Acho que o único que restou do modelo na capital pois sabia de um outro que se encontrava na Vila Leopoldina e em até em melhores condições, estava com a pintura do sistema municipalizado também, porém a tarja azul enquanto esse da Araguaia é amarela, mas esse da Garagem Vila Leopoldina com a tarja azul nunca mais o vi, deve ter ido para leilão e certamente foi desmanchado. Quanto a esse que está na garagem Araguaia, se ainda estiver nessa garagem acredito que está para ser recuperado e será exposto no museu do ônibus (espero que aconteça isso). Durabilidade dos produtos da Mafersa com certeza era o foco dessa empresa, tanto que os trens feitos por ela para o metro estão rodando até hoje, principalmente os da linha azul que são mais antigos. Vi num video no youtube que falava da inauguração da linha 1 azul, em meados dos anos 70 e lá estava os trens da Mafersa, os mesmos trens que rodam na mesma linha até hoje.
    Parabéns pelo artigo e obrigado por compartilhar com a gente.

  2. Amigos, boa noite.

    Se 2016 vai ser bom eu nao sei, mas o blog iniciou 2016 com o pe direito.

    Uma materia sobre o buzao, so do buzao, parabens Adamo.

    A materia me possibilitou conher o Mafersa rodoviario que eu desconhecia.

    Muito legal as fotos, os videos e os catalogos.

    Observem a largura interna do corredor 680 mm, nao precisa falar mais nada.

    Quanto ao motor Cummins, e excelencia comprovada.

    Ainda bem que tive a oportunidade de utilizar os Mafersas.

    Att,

    Paulo Gil

  3. Interessante! Lembro da época em que esses carros, o M210 Turbo, rodaram em Jundiaí. Isso que era ônibus de verdade e não essas porcarias de hoje.

    Parabéns pela matéria.

  4. Queria saber porque no corredor ABD esses Mafersa sairam de operação rápido… lembro que alguns ficavam vazando algum liquido na via. Não que os volvos naõ eram bons, mas os Marfesa pareciam mais luxuosos com aqueles bancos imitação de couro e resto do interior cor de caramelo…

  5. Lembro de quando começaram a rodar em Diadema em 1993 e pouco tempo depois em São Bernardo na ETCSBC. Foram os melhores ônibus que a ETCD já teve.

  6. A CSTC teve muitos Mafersa movidos a diesel, foram 73 no total.Somente os trólebus resistiram.

  7. ANDEI MUITO NO MAFERSA M-210 EM CURITIBA, NA AUTO VIAÇÃO CURITIBA NA LINHA JARDIM ESPLANADA, FERNÃO DIAS, ERAM DE 1991 E 1993.TAMBÉM ANDEI NO MAFERSA M-210 DE 1991 E DE 1993 DA EMPRESA CAMPO LARGO, FAZIA A LINHA CAMPO LARGO CURITIBA. TAMBEM ANDEI NO MAFERSA M-240 DA AUTO VIAÇÃO SANTO ANTONIO NA LINHA RIO VERDE. A EMPRESA CRISTO REI TAMBEM TINHA MUITO MAFERSA DE 1993 ERA O M-210 QUE ANDEI NELES. O MAFERSA ERA UM ÔNIBUS MUITO BOM DE SUBIDA, DE TORQUE, POR CAUSA DO MOTOR CUMMINS 6CTAA 8.3 LITROS DE 210 CV E O E TINHA UM CHASSI TMB. O MAFERSA ERA MELHOR DO QUE ESSES ONIBUS DE HOJE

  8. Os famosos “dorianas” em sbc rsrsrsrsrs pesquisem e vejam ele pintado igual ao pote de margarina na época da etcsbc.

  9. preciso de uma PPP para me aposenta trabalhei na mafersa nos anos 1977 a 1978 alguem sabe quem responde por ela hoje meu email motocauai@gmail.com Rogerio

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  1. A história da Cobrasma como fabricante de ônibus | BLOG PONTO DE ÔNIBUS

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