Mobilidade: hora de ter coragem de fazer o que nunca foi feito

ônibus

Excesso de veículos causa uma série de prejuízos à sociedade, inclusive para quem não usa transporte individual, ao elevar os custos de operação dos ônibus – Foto: O Dia

Mobilidade: hora de ter a coragem de fazer o que nunca foi feito
Alexandre Pelegi – Editor – Revista dos Transportes Públicos

“O uso intenso do automóvel leva a um grande consumo de um espaço público escasso, a uma grande emissão de poluentes e a uma grande quantidade de acidentes de trânsito. Adicionalmente, ele eleva o custo de operação dos ônibus no sistema viário principal, que se reflete em aumento da tarifa. Embora outros modos também causem custos sociais elevados – ônibus e caminhões na poluição e motos na segurança de trânsito – o automóvel é o veículo cujo uso excessivo traz mais prejuízos gerais à sociedade. Isto justifica que seus usuários paguem os custos causados”.

O trecho acima é parte do artigo “Mobilidade na Região Metropolitana de SP: é hora de ter a coragem de fazer o que nunca foi feito”, publicado na recém-lançada Revista dos Transportes Públicos, nº 137. Assinado por Eduardo Vasconcellos, a longueza do título do artigo faz jus à profundidade da análise. Em seu estudo, Eduardo faz rebuscada análise, amparada em dados e metodologia consistentes, que o permitem concluir importantes teses e, mais que isso, rebater e desmascarar mitos renitentes que permanecem no imaginário das pessoas sobre a questão da mobilidade urbana na Grande São Paulo.
Um desses mitos – o de que usar o automóvel no Brasil é muito caro, ou ainda, de que no Brasil já se paga impostos demais –, é diligentemente rebatido à luz de dados irretorquíveis. Além de demonstrar a inconsistência do raciocínio, Eduardo lembra uma verdade acaciana: o uso do automóvel requer uma grande quantidade de espaço público, para circular e para estacionar. Referindo-se a estudo feito pela ANTP com o Ipea, o autor lembra que no sistema viário principal o consumo circulando é de 85% do espaço disponível, ao passo que a quantidade de pessoas transportadas pelos automóveis atinge no máximo 30% do total que usa estas vias. Mais: o consumo das vias públicas para estacionamento também é outro aspecto muito relevante para a análise.
Outro mito debelado pelo trabalho refere-se ao “direito ao estacionamento nas vias”, que se confunde a um direito quase soberano de uso, preponderando o automóvel, por conseguinte, sobre outras formas de transporte, como bicicleta e andar a pé. O cidadão, que além de acreditar na falácia de que ao pagar determinados impostos recebe a concessão para trafegar à vontade, na mesma linha de raciocínio atribui-se o direito natural a estacionar nas vias. Já que a questão é imposto, o autor relembra que “este espaço [usado para estacionamento]teve um grande custo de construção e requer custos de manutenção”. Mas a conclusão é ainda mais grave: além do uso das ruas como local de estacionamento de automóveis impedir seu uso pelos demais cidadãos (os sem-carro), “em muitos casos representa uma redução da largura das calçadas de pedestres”. Para concluir: “é um enorme subsídio específico para os proprietários de automóvel”. Fazendo os cálculos à luz de custos reais, o autor conclui que “a liberação do estacionamento nas vias representa um subsídio anual de no mínimo R$ 3,7 bilhões (considerando 250 dias úteis no ano)”. Para quem reclama pagar impostos demais, como justificar subsídio tão generoso que sai do bolso de todos, inclusive – e principalmente – de quem não usa carro?
Afora esta questão, há outra de similar gravidade: o uso excessivo do automóvel na cidade causa um custo adicional à operação dos ônibus – leia-se custo da tarifa –, porque reduz sua velocidade e, por conseguinte, leva à exigência de mais veículos e maiores custos operacionais. A cálculos de hoje (atualizando pesquisa ANTP/Ipea de 1998), informa o artigo, “pode-se estimar que o uso abusivo do automóvel, ao provocar congestionamentos, leva os usuários de ônibus a pagar R$ 5 milhões a mais por dia, o que representa R$ 1,5 bilhão no ano. Considerando que o sistema de ônibus da cidade de São Paulo corresponde a 70% do movimento de passageiros em ônibus municipais da região metropolitana, o custo adicional anual na RMSP é de R$ 2,1 bilhões”.
Mas a comparação mais importante sepulta de vez os argumentos míticos de que o carro tem “direito ao espaço”, independente de qualquer coisa: a de que a relação entre custo de usar automóvel versus custo de usar transporte coletivo (o que o autor nomina como “índice de desestímulo ao uso automóvel”) chega a 6,9 na Europa, ao passo que na cidade de São Paulo não passa de 1,3 (30% mais caro apenas)…
A partir destas questões (no estudo há muitas outras, pode acreditar) pode-se concluir que usar carro para se locomover em São Paulo chega a custar quase o mesmo que usar ônibus. Além de mais barato, bem mais confortável. Já na Europa, a relação entre o custo de usar o automóvel é 80% superior ao custo de usar o transporte público. Ou seja, lá, ao contrário daqui, os usuários de automóvel pagam os custos que causam à sociedade.
Evidente que o trabalho traz muitas outras informações, além de produzir outras tantas análises, que referenciam, ao final, uma tomada de posição diante de um quadro que se tornou absolutamente insustentável por drenar recursos de muitos em benefício do privilégio de poucos. Para enfrentar esse desafio, instiga o autor, há somente duas opções elementares: “não fazer nada ou fazer alguma coisa”.
A primeira opção é a que vivemos há décadas. Quanto à segunda – fazer alguma coisa –, o autor, ao final de seu alentado estudo, faz uma série de sugestões.
A análise completa por ser lida no seguinte link:
http://antp.org.br/_5dotSystem/download/dcmDocument/2014/09/04/0B3B6D16-518A-4927-8420-0BA728B53CB7.pdf

Alexandre Pelegi – Editor| Revista dos Transportes Públicos

2 comentários em Mobilidade: hora de ter coragem de fazer o que nunca foi feito

  1. Acredito que a abordagem desses estudos deveria ser diferente.

    1.Quanto a cidade perde com a falta de corredores de ônibus e transporte sobre trilhos ?
    2.Quanto nossos prefeitos investiram em mobilidade, para instigar a população a usar o transporte coletivo ?
    3.Qual é o custo intangível de um cidadão utilizar o transporte público e utilizar o transporte individual ?
    4.Os serviços prestados pelas concessionárias e permissionárias é de qualidade ?

    E me atrevo a responder:
    1. Já está descrito na reportagem.
    2. Tirando as faixas pintadas nas avenidas é zero.
    3. Se eu utilizar o transporte público vou passar raiva do atraso, superlotação e trânsito. Se eu utilizar o transporte individual só vou passar raiva no trânsito.
    4. Concessionárias ainda tem uma ou outra, permissionárias deveriam ser banidas da cidade pelo péssimo serviço.

  2. Andre, boa noite.

    Perfeito.

    So vou complementar o item 3 da sua resposta, incluindo.

    Sujeira interna, linhas em zig zag, corredor de 54 cm de largura util, um ponto atras do outro, banho nos pontos em dia de chuva (ate em corredor) , intervalos de 20 a 30 minutos, catracas, degrau interno ALTO fora as freadss e arrancadas bruscas.

    Realmente, se deslocar pela cidade de buzao, e horrivel.

    Att,

    Paulo Gil

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