Greve de Ônibus em São Paulo: Dissidentes podem prejudicar trabalhadores

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Ônibus da Viação Santa Brígida, a última a voltar a operar nesta quinta-feira. Grupo dissidente do Sindimotoristas que provocou paralisação de surpresa na cidade de São Paulo tem núcleo entre funcionários desta empresa. Dissidentes podem prejudicar todos os trabalhadores pela maneira como se deu a paralisação. Foto: Zanone Fraissat- FolhaPress

Empresas têm até 24 horas para se posicionarem sobre demissão de motoristas
Foi o prazo que o TRT deu para que trabalhadores e viações entram em acordo
ADAMO BAZANI – CBN
Os responsáveis pela paralisação de motoristas e cobradores de ônibus que atingiu a cidade de São Paulo prometeram nesta quinta-feira que não haverá mais greve até um posicionamento da Justiça sobre o movimento.
Já o Ministério Público de São Paulo deu nesta quinta-feira parecer favorável à declaração de abusividade da greve dos rodoviários da capital paulista. Os promotores sugerem o desconto dos dias parados dos salários dos motoristas e cobradores e a multa para indenização a título de dano moral coletivo provocado à população pelo movimento responsável pelas paralisações.
O TRT – Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo deu um prazo de 24 horas para que empresas de ônibus e trabalhadores entrem em acordo sobre as consequências da paralisação do transporte coletivo na cidade de São Paulo, que começou de surpresa por volta das 9h da manhã de terça-feira, dia 20 de maio de 2014, continuou com mais intensidade na quarta-feira e, ainda nesta quinta-feira, dia 22, prejudicou alguns serviços na cidade, como da Viação Santa Brígida, que só começou a soltar os ônibus por volta das 10 horas com escolta policial, e da Viação Gato Preto, que conseguiu liberar os ônibus ainda no início da manhã, mas com atrasos.
Entre os aspectos que devem ser analisados pelo SPUrbanuss- Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo é se as companhias de ônibus vão optar pela demissão dos responsáveis pela paralisação e descontar os dias paralisados dos salários de toda a categoria.
Depois, esse posicionamento será levado ao colegiado do TRT que vai decidir sobre a ilegalidade da paralisação.
Se for considerada ilegal, aí as empresas, se quiserem, podem demitir ou descontar os dias parados.
O movimento, que não pode ser considerado como greve, foi atribuído a uma dissidente do Sindimotoristas – Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo.
O grupo diz estar insatisfeito com o acordo feito entre Sindimotoristas e SPUrbanuss, aprovado em assembleia na última segunda-feira, dia 19 de maio, que concedeu reajuste de 10% para os motoristas e cobradores de ônibus. Hoje, um motorista na Capital Paulista recebe R$ 1955 passando para R$ 2150,50, e um cobrador ganha R$ 1130 indo para R$ 1243.
Também fez parte do acordo: A licença-maternidade para as mulheres que trabalham no setor passa de quatro meses para seis meses. O reconhecimento de insalubridade para cálculos de aposentadoria, podendo o trabalhador se aposentar com 25 anos de trabalho. O vale-alimentação passa para R$ 445,50 e participação nos lucros e produtividade será de R$ 850.
Os dissidentes queriam participação nos lucros de R$ 1600 e aumento salarial entre 22% e 30% e maior valor no ticket alimentação.
Na reunião do TRT – Tribunal Regional do Trabalho desta quinta-feira, a desembargadora Rilma Aparecida Hemetério foi dura em relação aos integrantes da ala dissidente do sindicato dos motoristas e cobradores.
Eles puderam participar da sessão, mas não foram ouvidos.
Para ela, não existe “meia representatividade”.
“Se a maioria aceitou o acordo, a maioria é absoluta, e os dissidentes devem se curvar” – disse a desembargadora Rilma Aparecida Hemetério.
A desembargadora não reconhece os dissidentes e diz que a representação legítima da categoria é do sindicato legalmente constituído.
Assim, eventuais penalidades serão direcionadas ao Sindimotoristas, mesmo o movimento tendo sido de responsabilidade dos dissidentes.
A paralisação promovida por este grupo pode ter consequencias que prejudiquem os próprios motoristas e cobradores, como eventuais demissões e descontos nos salários.
A desembargadora disse que pelo jeito como foi feito o movimento, fora das regras para uma greve, não tem como assumir a causa dos trabalhadores.
“O mal que uma coletividade toda teve é irreparável, que trabalhadores e empregadores levam para si. Ninguém vai abraçar a causa de um trabalhador que só olha para si mesmo e nem de um empregador que não observa a lei.” – disse a desembargadora.
O secretário de finanças do sindicato dos Motoristas, Edvaldo Santiago, ao final do encontro disse não haver mais dissidentes e que todos agora estão trabalhando juntos.
Ele ainda afirmou que é dever do poder público intervir nas negociações.
O discurso contradiz a posição do prefeito Fernando Haddad, ao afirmar que, mesmo se tratando de serviços públicos, as negociações devem ser entre empregadores e empregados.
Um dos “cabeças da greve”, Paulo Martins Santos, motorista da Viação Gato Preto, afirmou que a categoria continuará trabalhando para manter as negociações.
Como não houve acordo, não foi julgada a legalidade da greve.
Isso deve ocorrer depois da entrega do posicionamento das partes SPUrbanuss – empresas e Sindimotoristas – trabalhadores.
Também como não houve acordo, a legalidade da paralisação só vai ser julgada por um colegiado – grupo de desembargadores – do TRT, o que não tem data para acontecer.
DISPUTAS INTERNAS:
O Sindimotoristas é marcado historicamente por disputas internas.
O sindicato tem um orçamento anual de R$ 16 milhões e receita de R$ 1,4 bilhão como contribuição sindical.
Há vários inquéritos policiais, inclusive de homicídios, que apuram crimes que teriam sido motivados por estes embates.
Na metade do ano passado, o atual presidente do Sindimotoristas, José Valdevan, o “Noventa”, que na época era de oposição, chegou a usar o mesmo expediente e parou terminais na cidade de São Paulo contra o antigo mandatário do sindicato, Isao Hosogi, o Jorginho.
As eleições para a presidência da entidade, que deveriam ocorrer em julho, foram marcadas por violência e até tiroteio na sede do sindicato.
Somente em setembro foram realizadas, quando José Valdevan, o “Noventa”, venceu Isao Hosogi, o Jorginho, com 57% dos votos.
HISTÓRICO DOS PERSONAGENS DO SINDICATO DOS MOTORISTAS DE ÔNIBUS DE SÃO PAULO:
Definitivamente a briga pelo controle do Sindimotoristas – Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus de São Paulo não tem como principais motivos questões ideológicas ou a sede pela representatividade de uma categoria.
O Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus em São Paulo movimenta por ano milhões de recursos.
Isao Hosogi, o Jorginho,que foi presidente da entidade entre 2004 e 2013, foi acusado pelos adversários, na época das eleições, de desviar R$ 500 mil por mês de contratos de planos de saúde, compras de cestas básicas e convênios com farmácias, mercados e outros estabelecimentos. Assassinatos de sindicalistas e de motoristas nas portas das garagens foram atribuídos a esta denúncia.
Jorginho teria, segundo os adversários, uma casa de alto padrão em Itanhaém e outra em Ilha Bela, no Litoral de São Paulo, além de um patrimônio de R$ 16 milhões.
Mas a atual diretoria do Sindimotoristas também é alvo de diversas apurações.
O presidente, “Valdevan Noventa” antes de romper com Jorginho faltando cinco meses para as eleições no ano passado, era diretor justamente de finanças do sindicato.
Ele foi investigado por suspeita de “lavar” dinheiro do tráfico de drogas da favela do “Paraisópolis” em lotações da cidade de Taboão da Serra.
O vice dele, Edivaldo Santiago, que esteve à frente de uma das maiores greves de ônibus da cidade de São Paulo, era parceiro de Jorginho. Ele também é suspeito de enriquecimento ilícito.
Também há suspeitas de relacionamentos irregulares, onde o dinheiro fala alto, entre o Sindicato e funcionários de diversos escalões da SPTrans, da Secretaria Municipal de Transportes e até de empresas de ônibus.
A “caixinha” de R$ 5 mil para pretendentes a vagas em diversas funções na Via Sul Transportes, envolvendo membros do sindicato, nunca foi levada a sério pelas autoridades responsáveis por investigações.
Nos últimos dois anos, houve registros de pelo menos 19 mortes com suspeitas de envolvimento direto em questões do Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus.
Pelo imposto sindical, a receita é de R$ 1,4 bilhão.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes

2 comentários em Greve de Ônibus em São Paulo: Dissidentes podem prejudicar trabalhadores

  1. Motorista de onibus // 22 de maio de 2014 às 21:34 // Responder

    Já fiz parte do sindicato. o que o reporter colocou aqui é verdade mas é só um pingo da podridão que ocorre mais coisas sujas lá

  2. Michelle, cidadã // 28 de maio de 2014 às 12:04 // Responder

    É ofensivo esses descontos aos trabalhadores, que além de não terem conseguido um aumento digno em seus salários, fazem horários excessivos, e mal podem descansar.Todos, todos nós sabemos qual tamanha importância desses profissionais e ninguém lhes dão o devido valor, nem mesmo seus representantes.
    Agora me diz se menos de 2,00 no salário é aumento? Aqui em São Paulo é!

    Isso é Brasil.

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