Para irmão de Celso Daniel, máfia do transporte coletivo continua no ABC

ônibus

Cúpula do PT no enterro do prefeito Celso Daniel, de Santo André. Esquema de propina envolvendo a direção do partido e empresas de ônibus do ABC teriam motivado a morte do prefeito, segundo investigações do Ministério Público. Foto: O Estado de São Paulo

Em entrevista à jornalista Camila Feltrin, do Diário Regional, Bruno Daniel, o irmão do prefeito de Santo André, Celso Daniel, que foi assassinado em janeiro de 2002, a “máfia do transporte coletivo no ABC Paulista” continua.
A entrevista foi dada no final de outubro.
Bruno disse que está disposto ir até o fim para esclarecer a morte do irmão. Ele, no entanto, diz tomar cuidados por causa de ameaças e pela falta de segurança.
De acordo com o Ministério Público, Celso Daniel foi morto por envolvimento num suposto esquema de propina envolvendo a cúpula do PT nacional e empresários de ônibus da região. A Polícia Civil diz que o o crime foi comum.

Leia a matéria na íntegra ou acesse: http://www.diarioregional.com.br/2013/10/27/sua-regiao/politica-abc/politica-santo-andre/para-bruno-daniel-mafia-do-transporte-persiste/

Corrupção, política regional e o andamento dos processos relativos ao assassinato de Celso Daniel foram alguns temas abordados pelo professor de Economia da Fundação Santo André (FSA) e Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo Bruno José Daniel Filho durante entrevista concedida à reportagem do Diário Regional. O encontro ocorreu em uma padaria no Centro de Santo André e durou cerca de 90 minutos. Ex-militante petista, Bruno tem certeza de que a máfia no transporte ainda funciona no município, assim como na época de seu irmão. “Por que você acha que não temos acesso aos dados?”, questiona. Bruno é militante do Psol, mas não pretende concorrer tão cedo à chefia do Executivo. Ele condiciona a candidatura ao avanço no processo relativo à morte de seu irmão Celso Daniel, assassinado em 2002 enquanto exercia seu terceiro mandato. O socialista quer provar que a morte teve motivações políticas, assim como corrobora o Ministério Público, e descarta as investigações das polícias civil e federal, que consideram a hipótese de crime comum. De volta ao Brasil após viver na França como refugiado político, Bruno vê o país melhor em alguns aspectos, mas pior em outros.

Existe a possibilidade de o senhor se candidatar a um cargo eletivo, como chegou a ser ventilado antes das eleições do ano passado?

Para que uma candidatura minha ocorra é preciso, inicialmente, que os processos relativos ao assassinato de meu irmão (Celso Daniel, ocorrido em 2002) e à corrupção que se instalou na Prefeitura de Santo André andem. Além disso, é necessário que o PSol construa boa proposta para a cidade, porque ser candidato por ser candidato não me interessa. Viabilizar essa candidatura é muito complicado, porque requer aglutinação de forças e bons quadros em cada área da administração.

Uma das críticas que se faz ao PT é que adquiriu vícios inerentes ao exercício do poder. O que impede que isso ocorra com o Psol, agora que começa a dar os primeiros passos no Executivo?

Nada impede. Afinal, não existe só corrupção de direita. Porém, é possível construir no Psol um novo modelo em oposição ao socialismo a qualquer preço, que deu origem ao totalitarismo de esquerda e gerou falta de transparência, corrupção. Em janeiro, portanto muito antes do movimento de junho, pedimos à prefeitura os contratos de concessão do transporte. Porém, não conseguimos as planilhas, mesmo invocando a Lei de Acesso à Informação, que está em vigor. Então, isso ocorre na direita e na esquerda.

Como o senhor avalia as manifestações de junho?

Foi um movimento autêntico, mas contraditório e ambivalente. Um exemplo: os manifestantes demandaram acesso à saúde “padrão Fifa”, mas ao mesmo tempo exigiram menos impostos. Como isso é possível? A visão implícita é de que o dinheiro está lá, mas escorre pelo ralo da corrupção e da ineficiência. É verdade, mas não é só isso. É preciso que o Estado estabeleça nova forma de se relacionar com a sociedade, mais transparente. Outra faceta contraditória é o ataque aos partidos políticos, mas não se constrói democracia verdadeira sem os partidos.

No ano passado, os então candidatos à prefeitura Carlos Grana (PT) e Nilson Bonome (PMDB) usaram o nome de Celso Daniel em suas campanhas – o petista ao evocar políticas públicas criadas por Celso e o peemedebista ao ter Rafael Daniel, sobrinho dele, como vice. Como o senhor viu isso?

Achei lamentável, porque cada partido tem de construir sua proposta, a partir de suas convicções. O que considero meritório é perceber o que houve de positivo na trajetória do meu irmão e avançar. Da mesma forma que não se pode reproduzir pura e simplesmente o que Karl Marx dizia no século XIX, porque certas visões do socialismo levam ao totalitarismo e à corrupção, é preciso avaliar o que ocorreu em Santo André. Não se pode apenas usar o nome do Celso, porque na gestão dele havia corrupção e caixa 2.

Houve alguma discussão familiar sobre a candidatura de Rafael Daniel?

Com certeza. Fazer uso do nome de meu irmão como Rafael fez é de uma impropriedade ímpar, absolutamente lamentável. Rafael aceitou o jogo político tradicional. Minha interlocução com ele é zero nas questões familiares, embora, socialmente, a gente converse.
Quem, na política regional, seria capaz de dar continuidade aos projetos de Celso Daniel?
Acho muito difícil personalizar isso.

O prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT), é esse político?

Não, porque não é uma pessoa, e sim um conjunto de forças que tem de se aglutinar em torno de determinadas ideias do Celso e continuá-las. Marinho faz isso? Não, porque não rompe com os fatores que levam à desigualdade. Aliás, as administrações (no ABC) são tradicionais. Prova disso é que pedimos acesso aos dados do transporte, mas ninguém deu. Assim, você não rompe com os esquemas de caixa 2.

A administração de Celso Daniel foi acusada de manter esquema de caixa 2 no transporte coletivo. O senhor acredita que esse esquema continua a existir?

Continua. Por que você acha que não temos acesso aos dados do transporte? As campanhas eleitorais são muito caras. Aí, financiadas pelas empresas, as forças que se dizem transformadoras assumem o poder e mantêm esse jogo. Mudam no varejo uma coisa aqui, outra ali, mas no atacado fica tudo igual, porque a democracia é um valor secundário para esse pessoal.

O senhor é favorável ao financiamento público de campanha?

Sim, e também à restrição às campanhas eleitorais. Porém, não podemos ter a ilusão de que o financiamento público vai resolver todos os problemas do país. Depende de como será operacionalizado.

Uma vitória do movimento foi o arquivamento da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 37, que visa limitar o poder de atuação do Ministério Público – órgão que, ao investigar o assassinato de Celso Daniel, chegou à conclusão de crime político.

O arquivamento da PEC é uma grande vitória. Corríamos o risco de enorme retrocesso. O MP é uma instituição perfeita? Não, porque tem muitos problemas. Porém, é interessante para a sociedade ter uma instituição capaz de investigar juntamente ou sem a polícia? Acho que sim. A polícia não consegue fazer boa investigação de quem tem poder político ou econômico, porque a inamovibilidade não existe na polícia, o que significa que um delegado que preside um inquérito pode ser afastado do cargo se incomodar, eventualmente, alguém de poder político ou econômico envolvido. No Ministério Público isso não existe. Foi assim que o MP conseguiu investigar o caso Celso Daniel. O curioso é que as pessoas continuam a desqualificar o trabalho do MP, apesar de cinco envolvidos no crime terem sido condenados.

Porém, ainda há no Supremo Tribunal Federal (STF) ação em andamento em que o empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, suspeito de ser o mandante da morte de Celso Daniel, questiona o poder de atuação do MP. Ou seja, foi uma vitória parcial.

Você tem razão. Foi parcial, mas foi uma grande vitória. Democracia a gente constrói a duras penas, com um passo de cada vez.

O senhor acredita que Sombra será julgado?

Sim, só não consigo prever quando. O juiz responsável pelo caso (Antonio Galvão de França Hristov) anda no fio da navalha, porque não pode cometer erros processuais, sob risco de prejudicar todo o trabalho de investigação, sem contar as brechas na lei utilizadas pelos advogados para procrastinar e inviabilizar o processo. Então, é preciso ter paciência e entender que, apesar da boa vontade do juiz de Itapecerica da Serra e dos promotores, as instituições têm muitos problemas. Também é preciso fazer pressão.

O que o senhor diz àqueles que desqualificam sua tese de crime político e sua cruzada pela condenação dos envolvidos ao afirmar que mantinha relacionamento pro­tocolar com Celso Daniel?

Laços familiares são extremamente fortes, independentemente de ocorrer um ou outro estremecimento. Como familiar e cidadão, tenho todo o direito de lutar para que o crime seja devidamente investigado e que os culpados sejam punidos. Quer dizer que, porque houve estremecimento na relação com Celso em algum momento de nossas vidas, eu devo me omitir? Nada apaga essa relação. Isso não quer dizer que eu não tivesse críticas à forma de fazer política do Celso. Tinha e continuo tendo.

Uma parte importante do legado do Celso Daniel é o Orçamento Participativo. O senhor acompanhou a execução do OP neste ano, na gestão de Carlos Grana?

Vi alguns outdoors na cidade, mas não saberia avaliá-lo. Minha desconfiança é de que se tratou de um espaço meramente formal de discussão.

Outra parte desse legado é o Consórcio Intermunicipal. Que avaliação o senhor faz da atuação da entidade?

O Consórcio é importantíssimo, porque é impossível atacar os problemas de mobilidade, Saúde e educação apenas no âmbito do município. Porém, funciona de forma muito precária, porque a capacidade de planejamento das prefeituras é baixíssima, o que se reflete em sua atuação. Se as prefeituras não têm planejamento, por que o Consórcio teria?

Após 11 anos de gestão do PT, o Brasil atualmente é um país melhor?

Sob determinados aspectos, sim. Sob outros, não. É interessante que as pessoas tenham acesso ao consumo e ao crédito, que tenha crescido o nível de emprego formal. Tudo isso é bom, mas não é suficiente. Ocorre que 94% das vagas criadas de 2004 a 2011 têm remuneração até 1,5 salário mínimo. O Brasil está se desindustrializando e não é capaz de fabricar produtos de alto valor agregado. Que raio de desenvolvimento é esse que primariza nossa pauta exportadora? Daqui a pouco, além de ter o programa Mais Médicos, o país vai precisar criar o Mais Engenheiros, o Mais Professores. Será que não há outro jeito de estimular a economia que não seja aumentando a quantidade de carros nas ruas? Paralelamente, cresceu a desconfiança das pessoas em relação às instituições. O crime organizado aumentou. A carga tributária segue desigual, porque penaliza quem ganha menos. O acesso à educação aumentou, mas não o acesso ao aprendizado. Quase 40% dos universitários não são plenamente alfabetizados. O consumo de drogas aumentou, porque é crescente o número de pessoas insatisfeitas com suas próprias vidas e crescente o número de quadros depressivos.

O senhor deixou o país e obteve asilo político na França em função das ameaças que recebeu. Hoje, de volta ao Brasil, ainda se preocupa com sua segurança?

Tenho minhas precauções. Procuro não sair de casa sempre no mesmo horário, não repito trajetos. A coisa mais fácil de acontecer é, em um congestionamento, aparecerem dois caras de capacete em uma moto, simularem um assalto e, pronto, está resolvido.

2 comentários em Para irmão de Celso Daniel, máfia do transporte coletivo continua no ABC

  1. A MAFIA ESTÁ EM TODAS AS CIDADES DA GRANDE SP…O Q OCORRE NA AREA 4 É MAIS DO Q LATENTE! ESPERO Q O GRUPO RUAS ASSUMA EM DEFINITIVO MESMO, NO PAPEL AS LINHAS DA REGIÃO, MESMO NÃO SENDO A MELHOR COISA…PELO MENOS AS GREVES, CREIO EU, VÃO DIMINUIR! PRO BEM DE TODOS NÓS PAULISTANOS!

  2. A MAFIA DOS TRANSPORTES SE INSTALOU EM SÃO PAULO DESDE DA PRIVATIZAÇÃO DA CMTC NA EPOCA DO MALUF INCLUSIVE A MARTA TEVE QUE IR NAS GARAGENS DE ÔNIBUS COM COLETE A PROVA DE BALAS E FOI AMEAÇADA DE MORTE VARIAS VEZES SE VC NÃO QUER VER NUNCA MAIS A MAFIA DOS TRANSPORTES EM SÃO PAULO ASSINE O abaixo assinado pela criação da Empresa estatal de Onibus em São Paulo para operar as linhas deficitarias, sistema PAESE em caso de greve das empresas de onibus urbanos, Metrô, CPTM e eventos e São Paulo precisa de 100 assinaturas entre no site e vamos assinar galera não é necessário fornecer nenhum documento ESTATAL JÁ.
    https://secure.avaaz.org/po/petition/pela_criacao_da_Empresa_estatal_de_Onibus_em_Sao_Paulo/?copy

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