Ônibus colocados emergencialmente em Mauá. Alguns são mais velhos que parte da frota da Viação Cidade de Mauá. Todos são do padrão operacional de São Paulo, que não tem nada a ver com Mauá e forma como foi inserida na cidade a emergencial Suzantur com carros que eram da Oak Tree deu margem para cenas lamentáveis, desde ônibus quebrados e problemas com validadores até atos de vandalismo. Prefeitura assumiu o risco.
EDITORIAL: Empresa emergencial ou ação nas coxas?
População de Mauá sofre mais uma vez com ações precipitadas da prefeitura e com falta de planejamento de fato
ADAMO BAZANI – CBN
Editorial é opinião e opinião é liberdade de expressão responsável.
O que foi visto nesta sábado, dia 19 de outubro de 2013 em Mauá foi a mais pura falta de planejamento e até mesmo falta de consideração com quem depende de ônibus na cidade.
Que Mauá precisa de reformulações nos transportes e melhorias nos serviços, isso ninguém discute. Que o poder público tem o direito de atuar é óbvio.
Mas esta atuação tem de ser no mínimo com bom senso.
E bom senso foi o que faltou no ato administrativo assinado pelo prefeito Donisete Braga que descredenciou duas empresas de ônibus e colocou ¼ de empresa para prestar serviços na cidade.
Isso mesmo ¼ de empresa, já que Mauá precisa no mínimo de 200 ônibus, e a Suzantur foi colocada, antes da publicação oficial de sua contratação, com apenas 50 ônibus.
Passageiros ficaram novamente à mercê das decisões e acordos entre empresários de ônibus e a prefeitura. Trabalhadores do sistema de transportes estão temerosos do que poderia acontecer com eles, principalmente os da Viação Cidade de Mauá, que diferentemente da Leblon, não conseguiu nenhuma garantia jurídica para continuar operando.
ASSUMIU OS RISCOS: É claro que a Prefeitura de Mauá assumiu os riscos do que aconteceu ontem: vandalismo com ônibus queimados e depredados e além disso, prejuízos à população.
Como a Suzantur não tem frota suficiente, o “plano” da prefeitura é em 30 dias substituir gradativamente os atuais ônibus no município. Assim, Mauá virou um balaio de gato. Em algumas linhas, os ônibus da emergencial Suzantur, em outras, o da Viação Cidade de Mauá e nas demais a Leblon operando com liminar, mas a prefeitura batendo no peito dizendo que essa liminar logo será derrubada, como se já dando um veredicto antes do juiz.
Em mais de 10 anos de cobertura da área de transportes, nunca vi in loco tremendas ações com tanta precipitação.
Qual o interesse da Prefeitura em fazer tudo assim de maneira incompleta causando prejuízos à população neste momento? Em entrevista, que publicamos na reportagem, que é diferente de editorial, o prefeito Donisete Braga disse que o interesse é apenas melhorar os transportes na cidade e criar um novo modelo de mobilidade urbana para melhorar a vida das pessoas. Respeitamos e publicamos a declaração do prefeito.
Mas dessa forma? Prá que fazer tudo com essa pressa?
Ora, esperasse a empresa emergencial ter a quantidade de frota suficiente para um lote inteiro pelo menos. Em todo o caso de descredenciamento é assim.
E quanto aos empregos dos motoristas e cobradores das empresas que foram descredenciadas? O prefeito disse que vai negociar para que eles sejam mantidos. Mas como? Se na prática, a cidade tem 2,1/4 empresas. A emergencial precisou contratar outros funcionários e, para passar de ¼ de empresa para uma empresa que atenda a cidade, vai precisar contratar mais. Como os motoristas das duas empresas descredenciadas passarão para a emergencial, se as outras duas operam também?
E quanto aos funcionários, uma questão bem interessante: grande parte dos que dirigem os ônibus da Suzantur eram funcionários da Viação Estrela de Mauá, fundada por Baltazar José de Sousa para participar da licitação de 2008 e em 2013 comprada por David Barioni Neto. A empresa tem uma briga judicial para operar o lote 02. Até aí, tudo bem. Mas quanto ao fato de que a apresentação dos ônibus no processo de seleção dos trabalhadores e o recrutamento dos funcionários terem sido feitos por dois coordenadores da Estrela? Muito estranho.
E os ônibus então. Novos? Não, alguns menos usados apenas, outros já bem usados. Todos eram da Oak Tree, uma empresa que apresentou uma série de problemas em São Paulo e que não opera mais na Capital Paulista. Há alguns Mascarello de piso baixo mais novinhos, mas também há uns Caio Apache Vip I, ACREDITEM: MAIS VELHOS QUE MUITOS ÔNIBUS QUE DA VIAÇÃO CIDADE DE MAUÁ! Isso mesmo, mais velhos que os ônibus do Baltazar José de Sousa.
Fora que a configuração dos veículos não tem nada a ver com Mauá. Os ônibus têm porta à esquerda também, que é a configuração para São Paulo, onde eles foram bastante usados. Isso para Mauá tira lugar para passageiros e também representa risco a presença de portas inoperantes.
A Prefeitura de Mauá insistiu tanto em padronização de pinturas de ônibus na cidade e todos os ônibus de Claudinei Brogliato, da Suzantur, têm ainda os padrões visuais da Capital Paulista, do Consórcio 8 Sudoeste. A pressa de Donisete foi tanta que nem deu tempo de pintar os ônibus. No lugar das inscrições do Consórcio Sudoeste de São Paulo, um adesivo feito de forma improvisada, onde por baixo ainda dar para ver a marca do lote operacional de São Paulo.
No para-brisa do ônibus, numa ação mais marqueteira que informativa, um adesivo enorme do lado direito falando sobre a nova fase dos transportes. Bloqueando o entendimento da população e boa parte da visão dos motoristas.
Validadores falharam, houve filas no terminal, vandalismo, ônibus usados da Oak Tree parados quebrados em vias importantes como a Barão de Mauá, validadores das catracas com falhas, revolta e incerteza. Foi nisso que resultou a ação da prefeitura feita a toque de caixa.
Os próximos capítulos, esperamos que sejam melhores, porque a introdução de um “tequinho” de empresa na cidade de Mauá teve um saldo desastroso.
E têm de ser melhores. Há quem diga no próprio setor de transportes que Suzantur é mais para desconfigurar o intuito de retomada do monopólio na cidade, o que poderia acontecer com a nova licitação. Hoje os velhões Barões dos transportes que agem de forma diária no Grande ABC estão mais sofisticados. Às vezes podem ser negócios tão bons, com carinho de avozinhos para netinhos. Criar novas empresas ou registrar empresas já existentes em nome de outras pessoas, infelizmente, é a coisa mais normal do mundo.
Cabe à imprensa (a séria) e a população, com seus movimentos sociais, fiscalizar e cobrar. Afinal, o prefeito e os seus funcionários são empregados remunerados pela população. E o patrão tem o direito de cobrar transparência e não só justificativas de seus empregados.
Também um jornalista em editorial tem o direito de emitir opinião e não pode ser cerceado e boicotado depois por causa disso, o que mostraria real má fé dos agentes públicos ou privados.
Homens e instituições públicas estão sujeitos a críticas e têm de saber lidar com elas e aceitá-las.
Mas o que deveria ser emergência foi na verdade: “bem nas coxas”.
Para garantir a segurança dos passageiros, Donisete instituiu um gabinete de crise. Mas não seria melhor antes de toda esta balbúrdia ele instituir um gabinete de planejamento, mas planejamento que funcionasse de fato?
As falas do prefeito, de uma das empresas da cidade (outra se recusou a comentar algo), você confere na reportagem:
Após descredenciamento e vandalismo, Mauá cria gabinete de gestão de crise
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes