Aniversário de São Bernardo do Campo: os guerreiros da Cacique

ônibus

Ônibus da Viação Cacique. Empresa criada pela família Setti Braga fez parte do crescimento urbano de São Bernardo do Campo, que se intensificou nos anos de 1960. A história da Cacique mescla-se com a da cidade. Foto: Mário dos Santos Custódio – Matéria: Adamo Bazani

São Bernardo do Campo 460 anos: Quem não se lembra dos guerreiros da Cacique?
Uma empresa que foi símbolo de São Bernardo ajuda a contar uma parte da história de uma das cidades mais desenvolvidas do País
ADAMO BAZANI – CBN
O cacique numa tribo era o chefe indígena. Sua principal função não era ir para a guerra e sim ser uma espécie de líder político, organizador social. O nome deste líder mudava de acordo com as tribos. Os caiapós usavam este termo, já os tupis usavam a nomenclatura Morubixaba.
A história de São Bernardo do Campo, que completa 460 anos neste dia 20 de agosto, é extremamente relacionada com a história dos índios no Brasil, em especial, a partir do relacionamento entre um colonizador português, João Ramalho, que se casou com a índia Bartira, filha do cacique Tibiriçá da tribo Guaianases. Em 8 de abril de 1553, ele fundou a vila de Santo André da Borda do Campo, que seria o início de toda a região do ABC Paulista. Mas em 1560, devido a ameaça de outros índios a vila se transferiu para São Paulo de Piratininga.
A região, que depois foi denominada São Bernardo da Borda do Campo, só voltou a ter atividades mais intensas em 1717, quando Amador de Medeiros, detentor da sesmaria que englobava a área, doou as terras para os monges beneditinos que formaram duas fazendas na região: a Fazenda São Bernardo e a Fazenda São Caetano.
Até 1945, toda a área do ABC era denominada São Bernardo, quando a vila de Santo André oficializa sua emancipação, tornando-se município.
Mas São Bernardo do Campo teve mais um “Cacique” em sua história e que ainda está na memória de diversos moradores da cidade. Não se tratava de um índio em si, mas não deixava de desempenhar papel de liderança e ter uma função de guerreiro no crescimento da cidade. Cacique era o nome de uma das mais tradicionais empresas de ônibus municipais de São Bernardo do Campo.
Sua história confunde-se com a da cidade, já que os ônibus da Viação Cacique foram fundamentais para o crescimento de São Bernardo.
A Viação Cacique foi fundada em 1966 pela família Setti Braga. Desde 1908, a família atua no ramo dos transportes na região, na época iniciando os trabalhos com tílburis, um veículo puxado a cavalos que fazia o transporte coletivo entre a Villa de São Bernardo do Campo e a então estação de trens de São Bernardo do Campo da SPR – São Paulo Railway, hoje respectivamente a região do Paço Municipal de São Bernardo do Campo e a estação da CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos de Santo André.
Os tilburis deram lugar à jardineira (ônibus simples de madeira) que cruzava São Bernardo pela Avenida Pereira Barreto. Em 1956 surgia a Auto Viação ABC, ligando Santo André a São Bernardo e em 1966 a família fundava a Cacique para dar conta do crescimento de São Bernardo do Campo.
O primeiro destino da Cacique era o então longínquo bairro Baeta Neves.
Era difícil percorrer as ruas de terra que davam acesso ao bairro, que já naquela época era marcado por algumas ocorrências de violência, como brigas entre os poucos moradores que até então residiam no local.
Brincava-se na época que ir até o Baeta era “programa de índio”.
Com a chegada da Cacique ao Baeta, o bairro cresceu e os ônibus começaram a atrair também urbanização para aquela área.
Às vezes, as linhas de ônibus chegavam aos loteamentos antes mesmo de eles se tornarem populosos. Isso fazia parte da característica dos visionários dos transportes, que conseguiam enxergar desenvolvimento em áreas que até então eram grandes territórios somente com mato e poucas moradias.
São Bernardo, na época da Cacique já era um pólo da indústria automobilística, e destino para trabalhadores de todo o Brasil. A cidade ganhava um crescimento jamais visto e a empresa de ônibus sempre estava lá, acompanhando a velocidade deste desenvolvimento e até se antecipando a ele.
Os ônibus da Cacique eram verdadeiros desbravadores em regiões ainda desprovidas de recursos. As regiões perto das indústrias já estavam adensadas e tinham terrenos mais caros e o jeito para muitos trabalhadores era escolher áreas mais distantes.
A empresa deixou de operar em 1989, quando São Bernardo Campo seguiu a tendência das outras prefeituras do PT na época, e criou a ETCSBC – Empresa de Transportes Coletivos de São Bernardo do Campo. A ETCSBC como operadora durou até 1996, quando os serviços municipais voltaram à iniciativa privada, com o Consórcio ABC – Riacho Grande. Em 1998, vence a concorrência pública para os transportes na cidade o Consórcio São Bernardo Transportes, SBC Trans, liderado pela família Setti Braga.
Mesmo com o fim das operações há 24 anos, a Viação Cacique é ainda parte da memória de muitos moradores da região. Seus ônibus, com as cores vermelho e branco (a empresa teve várias pinturas, mas esta foi a que mais marcou), ajudaram a população natural de São Bernardo do Campo e a que vinha buscar melhores condições de vida na cidade a terem acesso à saúde, educação, trabalho, renda e lazer.
As vias de terra por onde os “Caciques” percorriam se transformaram em ruas e avenidas. A linha inicial do Baeta deu origem a mais de uma dezena de linhas para os novos bairros que surgiam em São Bernardo do Campo, a partir dos anos de 1960.
Contar um pouco da história da Cacique é uma forma de mostrar como São Bernardo se desenvolveu e homenagear a cidade, que como os outros municípios brasileiros, cresceu com a ajuda do setor dos transportes.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.

9 comentários em Aniversário de São Bernardo do Campo: os guerreiros da Cacique

  1. Professor Pardal // 18 de agosto de 2013 às 01:50 // Responder

    onibus da Cacique já com placa de 3 letras e quatro números será que a familia Setti Braga preservou este veículo???

    • Quando esta foto foi tirada “Professor” este carro operava como clandestino em SP. Foto de meados da década de 90, tirada por mim. Abraços

  2. Resgatando a história do grande ABC, Parabéns adamo por mais uma excelente matéria!!

  3. fabio maia ferreira // 18 de agosto de 2013 às 23:29 // Responder

    O Bairro Baeta Neves é um bairro BONITO. Eu tenho grande admiração pelo Grande ABCD; Parabéns, São Bernardo.

  4. Ewerton Santos Lourenço (Guarulhos) // 20 de agosto de 2013 às 09:47 // Responder

    Parabéns mesmo Adamo, este Caio Gabriela já andei muito nesses ônibus na infancia. Aqui em Guarulhos quando tinha 2 anos de idade me mudei para Guarulhos. Em 1987 a Viação Poá, mas conhecida hoje como Vipol tinha muitos modelos assim; como hoje em dia é muito raro achar uma raridade dessas; aqui as ruas pareciam um pantano. Sem sombra de duvidas esse modelo deixa muita saudades mesmo!!!

  5. Emanuel Alves de Lima // 8 de outubro de 2013 às 05:07 // Responder

    Parabéns, confesso que não conhecia essa história e empresa.
    Sei que o Corredor Metropolitano ABD, que é operado pela Metra pertence à mesma dona do Grupo ABC, SBC Trans, Beatriz Setti Braga.
    Realmente é uma família com muita tradição nos transportes e na cidade.

  6. Que saudades cresci andando de Jd. Farina-Jd. Represa(Cacique) e SBC(Demarchi)-SP(D.PedroII)(VRG)…..amava os Amélias 149, 151, 153 ,157 e 159…..essa linha 19 era a linha que eu mais gostava…

  7. A Viação Cacique deixou de operar na verdade no dia 09 de Setembro de 1991 quando a ETCSBC Municipalizou o segundo e restantes lotes assim tirando a mesma mais a Trans-Bus e a Viação Alpina, quando comprou 100 ônibus novos CAIO Vitória Mercedes Bens, lembro-me que estava na terceira sério do primário.

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