EMPRESAS DE ÔNIBUS MANIPULARAM DADOS, DIZ ANTT

ÔNIBUS

Diretor-Geral da ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres, Bernardo Figueiredo, acusou empresas de ônibus que operam linhas interestaduais e internacionais de manipulares dados operacionais, especialmente de número de passageiros transportados e linhas operadas por várias companhias. As empresas estariam subestimando os números. De acordo com a Fipe, Fundação de Pesquisas Econômicas, o número de passageiros destas linhas é de 66.7 milhões, ou 32,76% a mais que as empresas informaram e o número de linhas operadas por varas empresas é de 20,75% superior ao dito pelas companhias de ônibus. Estes dados da Fipe serão usados para formular o edital da maior licitação de linhas de ônibus de todo o País, que abrange 2.017 itinerários interestaduais e internacionais. A licitação tem agitado o mercado. As renovações de frota têm sido maiores, somadas às trocas habituais e antecipação de compras para os empresários se livrarem dos ônibus mais caros com tecnologia menos poluente em 2012, e grandes grupos empresarias se preparam com aquisições de linhas e de outras empresas de menor porte. A ANTT diz que a licitação vai mudar o conceito de transporte rodoviário por ônibus, com modernização operacional e com ganhos de qualidade. Analistas, no entanto, acreditam que nem todas as mudanças serão possíveis já que o empresário de ônibus brasileiro é considerado conservador. Mudanças operacionais e de tecnologias são facilmente assimiladas, mas a dificuldade está nas mudanças de relacionamento com diferentes segmentos sociais e de senso de que agora a competitividade faz parte de um serviço que antes era quase absoluto. Foto: Adamo Bazani

ANTT diz que empresas interestaduais manipulavam dados
Estudo independente feito a pedido de agência reguladora mostra viações subestimavam dados operacionais e de passageiros

ADAMO BAZANI – CBN

O mundo está na era das informações. Toda e qualquer informação e dado catalogado são essenciais para que sejam traçadas estratégias econômicas e de formulação de políticas.
Hoje, a informação correta vale para qualquer setor tanto quanto seu objeto principal de negócio.
Mas para que as informações sejam usadas em benefício da coletividade, elas têm de ser reais, totais e interpretadas de maneira honesta pelo todo que representam e não só por uma parte ou aspecto que possa vir a interessar apenas à uma determinada parcela da sociedade.
O superintende da Agência Nacional de Transportes Terrestres, Bernardo Figueiredo, ao comentar a licitação de todas as linhas de ônibus interestaduais e internacionais, que já foi adiada por pressão das empresas, disse à repórter Karla Mendes, da Agência Estado, que um dos problemas para a realização do certame, que tem o objetivo de modernizar o setor e ampliar as exigências sobre as operações das empresas, foi a falta de dados confiáveis sobre a malha de linhas de ônibus interestaduais e internacionais.
E o pior segundo Bernardo Figueiredo, as empresas estavam usando as informações da forma que mais interessava a elas.
“As empresas manipulavam os dados. Não era auditado”, disse à reportagem.
Foi o que revelou pesquisa realizada pela Fipe – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, a pedido da ANTT.
Segundo a Fipe, usam ônibus interestaduais e internacionais rodoviários 66,7 milhões de pessoas. O número é 32,76% maior que o informado pelas empresas de ônibus.
Para a ANTT, as viações subestimaram ao governo federal o sistema. Em relação ao número de linhas que fazem o mesmo trajeto, a Fipe constatou que elas são 20, 75% em maior quantidade que a relatada pelas viações.
As empresas de ônibus informaram que a maior concentração de passageiros se dá no Sudeste. Foi o mesmo que a Fipe constatou, porém, também com números diferentes.
Pelo levantamento da Fundação, 50% das viagens estão concentradas na região, em especial em São Paulo e Minas Gerais, as partidas e destinos com maior demanda.
Só em São Paulo, são 14 milhões de passageiros.
Com base nestes mesmos dados, considerados mais confiáveis, é que se baseia agora a licitação das linhas interestaduais e internacionais.

DEIXAR O SISTEMA DE ÔNIBUS MAIS ATRAENTE E JUSTO

Os transportes rodoviários de passageiros interestaduais e internacionais são, em sua maioria, regidos por contratos de permissão antigos, muitos a título precário, com poucas exigências e feitos numa época diferente da atual realidade do mercado.
Eles não contemplam, por exemplo, a existência de ônibus mais modernos e acessíveis oferecidos hoje pela indústria, a mudança do perfil do passageiro, que se tornou mais exigente, e o aumento da concorrência por parte de outros serviços: muitas pessoas conseguiram comprar carros e mesmo em viagens longas desistiram de usar os ônibus, o transporte clandestino de passageiros, principalmente para o Nordeste, tomou proporções profissionais e hoje abocanha pelo menos 30% do mercado e o setor aéreo se tornou popular. O número de passageiros de avião em 2010 superou o número de passageiros de ônibus.
Assim, se as empresas estavam acostumadas quase num reinado absoluto das estradas, agora elas precisam se modernizar.
Além disso, há distorções no mercado e na distribuição de linhas. Enquanto grandes grupos operam as ligações de maior demanda, lucratividade e menor custo operacional, pequenas e médias empresas de ônibus ficam com o resto do sistema. Linhas de difícil operação e de demanda reduzida.
A ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres – diz que deixar o ônibus mais atrativo, melhorar os serviços e corrigir distorções de mercado são alguns dos objetivos da licitação.
Devem ser licitadas 2017 linhas interestaduais e internacionais.
Apesar de se colocar contra a distorção da concentração, a própria ANTT admite que as exigências operacionais serão maiores a ponto de reduzir o número de empresas de ônibus.
Atualmente 256 companhias prestam este serviço nas rodovias brasileiras. Segundo a própria agência, entre 100 e 150 possuem condições operacionais, técnicas, jurídicas e financeiras para competirem.
O sistema será divido em 29 grupos comandados por 3 ou 4 empresas.
Será obrigatória a existência de subsídio cruzado pelas empresas entre seus lotes. A companhia que obtiver uma linha altamente lucrativa e de fácil operação será obrigada a assumir uma linha com papel social e com lucratividade menor. Isso é para evitar o que ocorre hoje: poucas empresas com boas linhas e várias com serviços economicamente pouco vantajosos.
Os índices de reajustes das passagens serão anuais pelo IPCA – Índice de Preço ao Consumidor Amplo e vão ganhar a licitação, que deve ter o edital publicado em outubro. As empresas de ônibus vencedoras serão as que devem oferecer menor tarifa teto (o valor máximo mais baixo para cada serviço e melhores condições operacionais.
Deverá haver uma tarifa média, já que as empresas serão obrigadas a oferecer promoções, como as companhias áreas, em dias e horários de menor procura.
Salas vip, sites interativos para a compra e venda de passagens e outras informações como horários e localização dos ônibus, promoções e programas de fidelidade são algumas das práticas das companhias de aviação que deverão ser tomadas pelas empresas de ônibus após a licitação.
A idade da frota de ônibus deve diminuir também. A exigência é que seja de 5 anos de média e máxima de cada ônibus de 10 anos.
Isso deve provocar uma correria para a compra de ônibus. Isso porque, a idade da frota das empresas é elevada. A média em todo o país é de 14 anos.
Para cumprir a determinação de idade máxima de 10 anos, as empresas de ônibus deverão trocar em 2012 cerca de 50% de suas frotas nas linhas interestaduais e internacionais. Isso porque, dos aproximadamente 15 mil ônibus existentes na malha, 7 mil devem ter mais de 10 anos já no final de 2011.

PREPARATIVOS PELAS EMPRESAS DE ÔNIBUS:

As grandes sabem que são grandes e tentam se fortalecer e ser cada vez maiores para que, mesmo com a exigência do subsídio cruzado entre linhas de cada grupo, consigam os melhores trajetos e as linhas de maior demanda.
Um dos casos mais emblemáticos foi a entrada do empresário Mário Luft, dono de uma das maiores companhia de Logística do País, com caminhões espalhados em diversas regiões, e mais um grupo de investidores no setor, quando em novembro de 2010 assumiu a Viação Garcia, uma das mais tradicionais do setor, juntamente com a Viação Ouro Branco e Princesa do Ivaí.
O empresário, além de aproveitar a oportunidade de momento, já vislumbrava a licitação, cujos contratos devem ter duração de 15 anos.
A negociação foi estimada em cerca de R$ 400 milhões e Luft anunciou investimentos na ordem de R$ 40 milhões, em modernização das operações, serviços e renovação da frota. Um dos diferenciais foi a implantação de dois banheiros nos ônibus que servem em distâncias maiores.
Parcerias operacionais com a Leads, empresa de turismo e fretamento da filha, Andrea Luft, também estão nos planos da Viação Garcia.
Outras gigantes do setor seguem investindo também.
A Itapemrim realizou este ano a compra de dezenas de ônibus novos, a maioria modelo Paradiso da Geração 7 da Marcopolo. A empresa já mantém programas de fidelidade e descontos de passagensz em seu site
Outro grande grupo de transportes, o JCA, formado por empresas como Auto Viação 1001, Auro Viação Catarinense, Rápido Ribeirão Preto e Viação Cometa, também foi às compras. Em junho de 2010, por exemplo, adquiriu 222 ônibus zero quilômetro, todos também Paradiso da Marcopolo.
Aliás, a encarroçadora gaúcha tem sido a grande beneficiada pelos preparativos da licitação. Isso se deve a demanda maior pelos ônibus novos e pela paralisação da produção de sua principal concorrente, a Busscar, fabricante de carrocerias que enfrenta uma crise financeira, com dívidas fiscais, trabalhistas e com fornecedores, desde 2008.
A outra gaúcha, a Comil, vê o crescimento de vendas no modelo Campione, mas nada que representasse ameaça à Marcopolo se a Busscar estivesse em sua plena forma.
Em março de 2011, o grupo JCA foi às compras novamente levou de uma só vez 177 chassis da marca Volvo, modelo B 340 R, configuração de dois eixos (4 x 2)
No mês de fevereiro de 2011, o Grupo da Gontijo adquiriu também num lote, 255 ônibus Marcopolo Paradiso, o que mostra a presença da chamada Geração Sete, a qual pertencem os modelos Paradiso e Viaggio.
Os veículos foram comprados pelo grupo para as empresas Continental, Gontijo, São Geraldo e São Critóvão.
Muitas renovações de frota já estavam esperadas, mas uma boa parte dos veículos foram comprados para a preparação em relação à licitação da ANTT e também porque os ônibus até o final de 2011 ainda são vendidos nos padrões antigos do Proconve, Programa Nacional de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores, baseados nas normas Euro III de redução de emissão de poluentes. A partir de Janeiro de 2012, só poderão ser comercializados veículos a diesel em novos padrões, seguindo as normas Euro V, na fase P 7 do Proconve. Esses veículos poluem menos e possibilitam uma queima melhor de combustível, mas custam mais caro e requerem aditivos redutores de poluentes. Isso deve deixar o valor dos veículos mais alto, entre 10% e 15%.
Por mais consciência ambiental que algum empresário possa ter, ele quer se livrar dos preços maiores dos ônibus a partir de 2012.
A ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres anuncia a licitação das linhas interestaduais e internacionais como uma das maiores mudanças não apenas operacionais mas de conceito de transportes por ônibus rodoviários.
No entanto, muitos só acreditam vendo e ainda apostam que o mercado continuará concentrado, que boa parte do empresariado vai resistir a algumas modernizações e deve se contrapor a algumas exigências que refletem melhores serviços para o passageiro, porém mais custo para o frotista.
Prova disso, foi a não realização do certame em 2009, como era previsto e as dificuldades em licitações em outros contratos envolvendo empresas de ônibus.
Muitos empresários se modernizaram quando o assunto é melhor operação, de forma a reduzir custos, aumentar lucros e racionalizar o uso de recursos, mas ainda precisam se atualizar em conceitos como relacionamento com o poder público, imprensa e comunidade e novas dinâmicas econômicas, como a simples necessidade de que agora eles não podem se limitar a ser operadores, também de ser bons competidores.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.

12 comentários em EMPRESAS DE ÔNIBUS MANIPULARAM DADOS, DIZ ANTT

  1. José Rovani Kurz // 4 de julho de 2011 às 02:01 // Responder

    Olá Adamo,
    Parabéns pelas informações divulgadas sobre as melhorias no transporte rodoviário!
    Sds,
    José Rovani

  2. Não sei se devo confiar nas informções das empresas ou do governo …
    Mais uma vez, acontece em esfera nacional o que eu cansei de ver nos municipios governados pelo PT, mexer nos sistemas de transporte coletivo existentes e consolidados. Algum interesse existe, a relação dos petistas com empresários de onibus sempre despertou polemicas .
    Que interesse é esse em sumir com as pequenas e médias empresas ?
    Só o tempo dirá .

  3. Bom dia.
    É importante que,nesta licitação, haja mecanismos que assegurem VERDADEIRA IGUALDADE de condições, na disputa, sob pena de, nos tornarmos REFÉNS, dos grandes grupos.
    OLHEMOS PARA O SETOR AÉREO E ENTENDEREMOS PERFEITAMENTE, O QUANTO É SAUDÁVEL E NECESSÁRIA A COMPETIÇÃO.
    Dentro da primazia pela qualidade, observamos inúmeras vezes, pequenos, TRABALHANDO, SUANDO A CAMISA E PRESTANDO SERVIÇO DE GENTE GRANDE, ONDE ANTES, HAVIA APENAS O DESDÉM, OU NADA HAVIA.

  4. Tema muito importante, bela matéria!
    Hoje em dia as pesquisas são mais baratas e podem ser bem mais confiáveis.
    Como não interessam a quem domina e/ou manipula o mercado, os Órgãos de Transportes precisam tornar a informação muito mais transparente e acessível.
    O momento de crise logística é oportuno para investimento em mão de obra de pesquisa. M´Boi Mirim é só um dos casos flagrantes em que as maiores demandas não são priorizadas.

  5. caros amigos gostaria muito mesmo de ver essa licitação sair do papel, so pra ver o q realmente vai acontecer mais ñ boto muito fé nisso

  6. Amigos, boa noite

    Alguém consegue disponibilizar uma cópia do Edital ou de um
    link onde possamos acessá-lo?

    A disponibilização de editais aqui no Blog permitiria uma análise conjunta por
    quem quisesse e com diferentes óticas, o que no meu entender, contribuiria
    e muito na lapidação destes editais de gabinete.

    Quem tiver uma dica ou uma idéia para que tenhamos acesso a este e demais
    Editais que acontecem pelo Brasil afora, nos ajudem, por favor informem, divulguem,
    postem ou publiquem.

    Muito obrigado
    Paulo Gil

  7. Amigos se essa licitação for igual a que está implantada no ceará vai ficar uma bagunça .Passageiros querendo viajar e não vai ter vagas nos poucos carros que as poucas empresas vão ter pra oferecer.sem falar que a passagem é barata no convencional e no executivo é mais cara e o convencional quase não existi.esse é o retato atual do transporte no ceará.

  8. Infelizmente quem vai pagar a conta são os usuários. A ANTT vai beneficiar sómente os grandes grupos de empresas e as pequenas e médias empresas vão deixar o mercado, muitas delas com veículos e atendimento bem melhores que as chamadas grandes. Outro problema são as linhas sob medida judicial, algumas operadas a mais de 30 anos que não foram licitadas sob alegação enganosa de serem inviáveis técnica e financeiramente. Passageiros que se deslocam do sul ao norte ou nordeste não terão mais ligação direta em alguns pontos sem realizar as incômodas “baldeações”, com maiores gastos em esperas nas rodoviárias, sem contar com a insegurança. Pessoas com famílias, imaginem, ter que esperar por horas em rodoviárias sem o mínimo de conforto e segurança. Sabem quem eles querem beneficiar?? As empresas aéreas, só que eles não consideraram as pessoas com baixa renda que não tem condições de comprar passagens aéreas. Não pensaram nos usuários. Sequer estão pensando nos inúmeros funcionários dessas empresas que terão que paralizar seus serviços; pessoas essas que sustentam suas famílias, porque não vai se tratar sómente de motoristas, trata-se também dos funcionários das garagens e dos inúmeros vendedores nas rodoviárias. A LICITAÇÃO NÃO DEVERIA SER POR LOTES E SIM POR UNIDADE DE LINHA. Se por acaso ficar alguma linha sem operadora, esta linha deverá ser sorteada pelas empresas que operarão o trecho.

  9. grande coisa essa ligação de brasilia a são paulo via ribeirão preto,as empresas que ja operavam nessa linha continuarão as mesmas,até ônibus clandestinos tem nessa linha

  10. Pelo visto, os micro e pequenos empresários estarão fora do mercado de uma vez por todas. O sonho de ter empresa de ônibus vai ficar no campo dos sonhos mesmo. É essa falta de oportunidade que faz com que aquelas pessoas sonhadoras passem a prestar o serviço alternativo de transporte. Verifica-se que o transporte alternativo realizado por pequenas empresas familiares proporciona aquilo que uma grande empresa jamais proporcionará: “calor humano no relacionamento com o cliente”. Um abraço a todos e até breve.

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