GREVE FRUSTRADA: UM BALANÇO SOBRE A PARALISAÇÃO DOS ÔNIBUS NO ABC PAULISTA

greve de ônibus no ABC Paulista
Uma das cidades mais prejudicadas pela greve no ABC Paulista foi Mauá. Durante os três dias, a paralisação foi total. Na foto, os primeiros ônibus da Leblon e da Viação Cidade de Mauá no Terminal Central, por volta das 09 horas desta sexta-feira. Foro: adamo Bazani

Empresários e motoristas do ABC têm dez dias para negociarem
Sindicato tenta reverter o efeito negativo da paralisação para a categoria e quer reaver proposta dos empresários para participação nos lucros.

ADAMO BAZANI – CBN

A greve foi uma das piores alternativas para a categoria.
Por repetidas vezes, motoristas e cobradores ouvidos pela reportagem do Blog Ponto de Ônibus diziam frases neste sentido.
Até a Justiça e os empresários reconheceram isso.
Sendo assim, na tarde desta sexta-feira, em audiência no TRT – Tribunal Regional do Trabalho – a pedido do Sindicato dos Trabalhadores nos Transportes Rodoviários e Anexos do ABC – Sintetra, com a concordância do SETC/ABC – Sindicato das Empresas de Transportes Coletivos do ABC, o juiz Celso Peel Furtado concedeu 10 dias para que empresários e representantes da categoria realizem negociações sobre direitos trabalhistas.
Sendo assim, a audiência que iria julgar a legalidade da greve, que descumpriu várias determinações da justiça, como cumprimento de frota mínima e aviso da greve em 72 horas antes da paralisação, acabou sendo suspensa.
O sindicato dos trabalhadores vai tentar reverter o prejuízo.
Antes da paralisação, os motoristas e cobradores pediam aumento de 15% nos salários e os empresários ofereceram 8% de reajuste salarial, aumento do vale refeição, e reajuste de 33% na PLR (Participação nos Lucros e Resultados) para cobradores e de 12% para os motoristas.
Uma parte do sindicato chegou a considerar esta proposta dos donos de empresa de ônibus. Mas outra ala do sindicato, chamada de cipeiros, membros das CIPAs das garagens e que tem estabilidade de emprego, teriam inflamado a categoria para não aceitar a proposta dos donos de viações e realizar a greve.
A direção do sindicato, então, propôs que a greve fosse realizada a partir de segunda-feira, dia 06 de junho, o que possibilitaria o cumprimento da lei que exige que greves deste tipo sejam avisadas com até 72 horas de antecedência.
Mas na noite de terça-feira, em assembléia, parte dos trabalhadores decidiu parar na madrugada do dia seguinte, ou seja, algumas horas depois.
A greve, iniciada na quarta-feira, dia 01 de junho, pegou muita gente de surpresa. Os pontos ficaram lotados, muita gente se atrasou para o serviço, escola, consultas médicas, etc e a indignação dos passageiros era grande. Não só pela falta de transporte mas também pela falta de consideração por não haver aviso num prazo adequado, inclusive como determina a lei.
Mesmo com a paralisação, alguns ônibus em Ribeirão Pires, Santo André e no Corredor ABD, de trólebus, foram colocados nas ruas.
Boa parte dos veículos foi depredada. Houve avarias em veículos da Rigras, de Ribeirão Pires, da Viação Vaz, municipal de Santo André, e principalmente nos ônibus e trólebus da Metra, que ligam São Mateus, na zona Leste de São Paulo, ao Jabaquara, na zona Sul de São Paulo, passando pelas cidades de Santo André, Mauá (Terminal Sônia Maria), São Bernardo do Campo e Diadema e que também fazem o trajeto entre Diadema e estação Berrini da CPTM, na zona Sul da Capital Paulista.
No final da assembléia de quarta-feira, que decidiu pela manutenção da greve na quinta-feira, os trabalhadores que estavam na sede do sindicato, na Vila Assunção, em Santo André, desceram a pé até as Avenidas Pereira Barreto e Ramiro Colleoni, que ficam perto e onde está instalado parte do Corredor ABD desde 1988, pararam os ônibus e trólebus a força e obrigaram que os passageiros descessem, agrediram companheiros de trabalho e danificaram os veículos. Naquele dia, a Metra tinha conseguido colocar 75% dos ônibus e trólebus em operação.
A greve foi parar na Justiça que determinou que na quinta-feira, fossem colocados nos horários de pico 80% da frota das cidades da região, seja de ônibus municipais e intermunicipais, e de 60% fora dos horários de maior movimento.
No dia seguinte, quinta-feira, o percentual não foi alcançado. E para piorar, a população do ABC foi pega de surpresa também pela greve de todas as linhas da CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. No dia anterior, três linhas foram prejudicadas pela greve de parte dos ferroviários. As três linhas seriam paralisadas na quinta-feira, mas a exemplo dos motoristas e cobradores, na parte da noite, sem tempo para a população se informar, os sindicatos que representam os maquinistas e demais funcionários (são quatro sindicatos) decidiram parar todo o sistema. A população que levanta de madrugada e tem de dormir cedo não teve oportunidade de ouvir rádio, ver tv ou acessar a internet pra se informar. Os ferroviários voltaram a trabalhar nesta sexta-feira, mas continuam em negociações.
Os motoristas e cobradores eram ameaçados por pessoas ligadas ao sindicato se caso colocassem os ônibus nas ruas.
Alguns veículos que saíram foram invadidos e tiveram as chaves roubadas ficando abandonados nas ruas. Na Avenida “Perimetral”, em Santo André, ocorreu a maior parte das ações deste tipo.
Em reunião de conciliação no TRT – Tribunal Regional do Trabalho, entre representantes de empregados e de patrões, na quinta-feira, a prova de que a greve não foi um bom negócio para a categoria. A desembargadora Sônia Maria Prince Franzini determinou que o reajuste da categoria deveria ser de 7,8%, descartando as questões sobre Participação nos Lucros e Resultados e o vale refeição.
Os trabalhadores não só não tinham conseguido algo próximo ao que reivindicavam, como perderam as propostas oferecidas pelos empresários.
Mesmo não concordando com o índice da justiça, o sindicato estava apto a colocar fim na greve no terceiro dia, sexta-feira.
E foi o que ocorreu na parte da manhã.

greve ônibus abc paulista
A Metra foi uma das empresas que mais sofreu vandalismo por parte dos grevistas. No primeiro dia de paralisação, empresa que opera o Corredor ABD conseguiu colocar 75% dos veículos nas ruas, mas depois de assembléia, manifestantes foram a parte do corredor perto da sede do sindicato e além de depredarem os ônibus, obrigaram passageiros a descerem e agrediram os companheiros de serviço. Foto: Adamo Bazani

A assembléia, não para discutir o índice, mas para avisar à categoria, foi marcada para as 9 horas da manhã.
Antes mesmo disso, as empresas de ônibus colocaram mais veículos nas ruas, mesmo não alcançando os 80% previstos que para a sexta-feira, valeriam não só para o horário de pico, mas para todo o dia.
Mauá foi exceção. O clima era de medo. Isso porque, em dias anteriores, representantes do sindicato disseram que se os ônibus de uma empresa fossem colocados nas ruas, funcionários de outra poderiam ficar revoltados e iniciar uma depredação e até agressões.
A cidade, que durante os três dias teve 100% da frota parada, foi a última que liberou os carros.
Inicialmente por volta das 08h45, a Leblon Transporte de Passageiros soltou os primeiros ônibus. Por volta das 09 horas a Viação Cidade de Mauá liberava os veículos.
A Guarda Civil de Mauá teve de garantir a segurança no Terminal Central de Mauá, mas nenhum incidente foi registrado.
Na Assembléia da manhã desta sexta-feira, os motoristas e cobradores deram as costas para a diretoria do sindicato como sinal de reprovação por terem recebido uma proposta inferior ao dos empresários e que chegou a ser ponderada pela mesma diretoria.
NO TRT, na tarde desta sexta-feira, foi aberta a possibilidade de os trabalhadores tentarem recuperar parte das propostas das empresas de ônibus.
O índice de aumento de 8% dificilmente será conseguido e as empresas agora devem seguir o percentual da Justiça de 7,8%, composto por 6,3% referentes a perdas inflacionárias com base no acumulado do ano do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) e mais 1,5% de aumento real.
Mas os trabalhadores vão tentar rever as propostas sobre o vale refeição e as Participações nos lucros.
As empresas de ônibus se comprometeram a participar de todas as negociações.
Pelo fato de os motoristas e cobradores não terem cumprido os 80% de frota mínima nos dias de greve, o Sindicato deveria ser multado em R$ 200 mil por dia paralisado.
Mas como não houve julgamento da legalidade da greve, a multa não foi discutida.

greve ônibus no ABC paulista
Os ônibus intermunicipais também pararam e a EMTU também procurou a Justiça para garantir circulação mínima, mas sindicato não cumpriu determinação judicial em nenhum dia de paralisação. Foto: Adamo Bazani.

No final das contas, todos perderam com a greve:
Os trabalhadores que não tiveram os reajustes maiores e que correm o risco de perderem elevação em outros direitos trabalhistas, a exemplo da greve que ocorreu em 2001.
As empresas de ônibus que deixaram de operar e lucrar, isso sem contar as que tiveram ônibus quebrados.
A população que perdeu dias de trabalho, provas na escola ou faculdade, compromissos, teve dias de cansaço maior e estresse.
A economia regional como um todo pela falta de trabalhadores, produção diminuída, fraco movimento no comércio e dificuldade no trânsito que gera gastos diretos, como mais agentes, adequações de sinalização, e indiretos, como os causados pela poluição e tempo perdido pelos congestionamentos. Negócios e produtividade que não são realizados por conta de o cidadão ficar mais tempo ocioso nas vias entupidas de carros.
A greve é um direito do trabalhador. Mas o ir e vir do cidadão também.
Assim, se cada parte souber respeitar a necessidade do outro, é possível ter espaço para reivindicações e ao mesmo tempo a população não ter furtado o direito (e o dever) de trabalhar e estudar, por exemplo.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.