GREVE DOS TRANSPORTES COLETIVOS: ALGUNS BASTIDORES

greve transportes no ABC Paulista

Mais uma vez em Mauá, na Grande São Paulo, 100% da frota dos ônibus não entrou em circulação. Muitos funcionários alegaram estar com medo de represálias. Foto: Adamo Bazani

Greves de transportes deixam população indignada e com a sensação de abandono
O que mais irritou os passageiros foi a falta de consideração em avisar com antecedência sobre as greves que deixaram muita gente de surpresa

ADAMO BAZANI – CBN

NOTA ANTES DO ARTIGO:

O METRÔ VAI OPERAR NORMALMENTE NA CIDADE DE SÃO PAULO NESTA SEXTA-FEIRA. – OS METROVIÁRIOS ACEITARAM PROPOSTA DE 8%

OS TRENS DA CPTM VOLTAM A FUNCIONAR DEPOIS DE DOIS DIAS DE GREVE. – MESMO ASSIM, NÃO HOUVE ACORDO E AS NEGOCIAÇÕES CONTINUAM.

ÔNIBUS NO ABC PAULISTA: OS MOTORISTAS E COBRADORES ANUNCIARAMQUE A GREVE CONTINUA NESTA SEXTA-FEIRA, PELO MENOS ATÉ ÀS 09 HORAS DA MANHÃ, QUANDO HAVERÁ UMA ASSEMBLÉIA PARA DISCUTIR A DETERMINAÇÃO DA JUSTIÇA EM AUDIÊNCIA NO TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO. ANTES DISSO, PORÉM, AS EMPRESAS VÃO TENTAR COLOCAR OS ÔNIBUS NAS RUAS, MAS NÃO É CERTEZA QUE CONSIGAM.

O ir e vir é um direito básico e primordial que é estendido a qualquer cidadão. A greve é também um direito. No caso, o direito do trabalhador, sendo prevista em lei.
Mas, no caso dos transportes, como conciliar estes dois direitos, o de deslocamento e o de greve dos funcionários do setor?
Sem muitos segredos ou atitudes complexas. A resposta se resume em uma palavra: RESPEITO.
E é justamente isso que não tem ocorrido em greves como dos motoristas e cobradores de ônibus do ABC Paulista e dos ferroviários da CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, de São Paulo.
São dois atos de falta de respeito: à população que não foi avisada com antecedência sobre os movimentos e à lei, que determina esse aviso e que também exigiu frotas mínimas para quem garante o lucro das empresas e os salários dos funcionários dos transportes não ficasse a mercê do acaso e da falta de opção.
Em relação a CPTM, a população, que precisa levantar muito antes do sol nascer e não tem tempo e disposição de acompanhar os noticiários até de noite, porque merece o sono justo do trabalhador, não ficou sabendo de decisão tomada no final do dia pelos quatro sindicatos dos ferroviários, que decidiu parar na quinta-feira as 06 linhas e fechar as 89 estações que atendem 22 cidades na Grande São Paulo e cerca de 2,5 milhões de passageiros. Na quarta-feira, primeiro dia de paralisação dos ferroviários, três linhas foram prejudicadas. A população usuária destas linhas sabia que no dia seguinte seria o mesmo martírio da greve. Mas das outras linhas, não.
E muita gente foi pega de surpresa.
Pessoas sem saber como exercer outro direito e ao mesmo tempo dever: estudar ou trabalhar.
Em alguns casos, não havia alternativas, principalmente no ABC Paulista, onde a situação foi bem pior. Isso porque a região não tinha trem desde a madrugada desta quinta-feira e também não tinha ônibus desde quarta-feira.
As cidades da região praticamente viraram uma ilha.
Foi-se a época que o ABC dava conta de seus trabalhadores. Hoje boa parte da população trabalha na Capital Paulista. Isso sem contar com o fato de algumas cidades, como Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul polarizarem boa parte dos empregos. Além de São Paulo, estes três municípios são destinos para quem mora em Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e a bem aventurada Diadema. Bem aventura porque foi a única cidade que a greve de ônibus não atingiu a população, por causa de um acordo entre a Prefeitura e o sindicato dos rodoviários do ABC – Sintetra.

greve transportes do ABC Paulista

Várias pessoas se aglomeraram nas portas das estações da CPTM, que ficaram fechadas nesta quinta-feira. As entradas foram isoladas por seguranças, policiais e grevistas. No ABC Paulista, sem ônibus também, boa parte da população não teve nenhuma opção de deslocamento. Foto Adamo Bazani

As filas nas portas das estações eram grandes. Policiais militares, policiais ferroviários e seguranças faziam cordões humanos como se os transportes fossem algo intocável. E eram mesmo.
Pessoas não sabiam que rumos tomar. Celulares, orelhões, tudo era usado para comunicar o chefe o risco de atraso ou mesmo de falta.
Tanto ferroviários como rodoviários, por meio de seus sindicatos, não cumpriram a determinação de oferecer frota mínima para servir a esta população que paga pelos seus serviços.
O motivo disso? O medo. Pessoas disfarçadas de representantes de trabalhadores, mas que eram filiadas ao sindicato de fato, faziam uma verdadeira operação de guerrilha nas garagens.
Pessoas de moto circulando com celulares são comuns circundando as garagens Tudo para que?
Se algum ônibus sair, depredar. Mas essas pessoas não representam os trabalhadores? Ora, eles então jogam pedras e agridem não um ônibus, mas um colega de trabalho que dizem representar.
E a desculpa dos sindicalistas é sempre a mesma:

“Companheirada da Viação Tal, “nóis” num vai recomendá nenhum companheiro a drepredá. Mas sabe cume. Num dá pra sigurá os ânimo, companheiro. Voceis pode até colocar na rua, mas nós não se responsabiliza pelo que vai acontece. Mais vai ter depredração, cum certeza” –

Frases com estas foram ouvidas muitas vezes por esta reportagem que esteve nas garagens.
No meio dos sindicalistas, há pessoas sérias sim e que lutam por uma causa em prol do trabalhador. Mas uma boa parte dos que se dizem representantes é assim, e ninguém pode negar.
NÓS VIMOS !
Isso sem contar a imponência que eles falam. Ninguém quer um tom de voz de um monge. Mas gritar????? Ainda com um companheiro ?????? Não é educado.
Isso sem contar que alguns apresentavam sinais de embriaguez aparente.
NÓS VIMOS !
No primeiro dia de paralisação, na quarta-feira, vários veículos que prestaram serviços foram danificados. Ônibus de Ribeirão Pires, de Santo André e do Corredor da Metra, que liga São Mateus, na zona Leste de São Paulo, ao Jabaquara, na zona Sul da Capital Paulista, por Santo André, Mauá (Terminal Sônia Maria), São Bernardo do Campo e Diadema.
Nesta quinta-feira, foi o festival das chaves no ABC Paulista. Os que impediam os ônibus de trabalhar, invadiam os coletivos e roubavam as chaves de contato, deixando ônibus abandonados.
Em Santo André, a operação chegou a ser 15% da frota da cidade. Em São Bernardo do Campo, 20% dos ônibus operara,m. Em São Caetano do Sul de 10 a 30% dependendo do horário, em Ribeirão Pires de 10% e Rio Grande da Serra teve a maior frota.
Mais uma vez, em Mauá, a paralisação foi total. Nenhum ônibus da Viação Cidade de Mauá e nenhum veículo da Leblon foram às ruas. Os próprios funcionários do Terminal, que ficou fechado, temiam a volta de uma empresa e a permanência em greve da outra. O sistema é integrado e muitos passageiros da Leblon também são da Viação Cidade de Mauá. Além disso, poderia haver desentendimentos entre os funcionários das duas empresas.
Na quarta-feira, a desembargadora Sônia Maria Prince Franzini determinou que nesta quinta feira 80% dos ônibus prestassem serviços em horários de pico (05 h 30 às 09h 00 e 15h30 às 20 h 30) e 60% nos demais horários, sob pena de multa de R$ 200 mil por dia ao Sintetra – Sindicato dos Trabalhadores em Serviços Rodoviários e Anexos do ABC.
A determinação não foi cumprida.

greve transportes no ABC Paulista

Terminal de Mauá vazio, escuro e fechado no segundo dia de greve dos motoristas e cobradores do ABC Paulista. Na cidade, operam duas viações. Funcionários do Terminal tiveram medo que uma empresa voltasse a outra não, impossibilitando que a integração fosse completa, o que poderia gerar tumulto entre os passageiros. Temor também era de indisposições entre funcionários das duas empresas. Foto: Adamo Bazani

CATEGORIA PERDEU:

Os motoristas e cobradores de ônibus do ABC Paulista, representados pelo Sindicado dos Rodoviários, Sintetra, exigiam das empresas de ônibus aumento salarial de 15%.
As companhias ofereceram depois de negociações, 8%. Parte do Sindicato já dizia estar satisfeito com o índice. Mas um grupo chamado de “cipeiros”, formado por integrantes das CIPAs que têm estabilidade de emprego nas garagens, incentivou os trabalhadores a cruzarem os braços de terça-feira para quarta-feira.
Nesta quinta-feira, foi realizada uma reunião de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho – TRT, mas não houve acordo entre donos de empresas de ônibus e representantes do Sintetra.
A desembargadora Sônia Franzini, com bases em índices técnicos, determinou o reajuste que o TRT entende como justo. E esse índice é um pouco menor do que as empresas oferecem.
O TRT calculou que o aumento da categoria deve ser de 7,8%, composto de 6,3% de reposição da inflação de acordo com o INPC – Índice Nacional de Preços ao Consumidor – e mais 1,5% de aumento real.
Ou seja, pela Justiça, toda a reivindicação dos trabalhadores, pode resultar num índice inferior ao oferecido pelas viações.
E a Justiça acrescentou que, mesmo durante a greve, agora a frota em operação deve ser de 80% durante todo o dia e não apenas nos horários de pico, como na quinta-feira (ontem).

PRISÃO:
Ao menos cinco pessoas foram detidas pela polícia e levadas para o Primeiro distrito Policial de Santo André acusadas de promoverem ou participarem de atos de vandalismo contra ônibus. Um caso foi em flagrante e trata-se de um fiscal da Expresso Guarará, que depois da assembléia, com um grupo de manifestantes, parou ônibus na Perimetral, em Santo André.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes

3 comentários em GREVE DOS TRANSPORTES COLETIVOS: ALGUNS BASTIDORES

  1. Adamo, boa noite

    Genial esta foto do Terminal de Mauá deserto.

    Uma imagem que vale muito mais de 1000 palavras.

    Parabéns!

    Paulo Gil

  2. O grande problema é que atitudes como esta serve para desacreditar um legítimo meio de se fazer reivindicações que é a greve. Na USP por exemplo, todo ano tem greve, TODO, tanto que ninguém mais da bola para as reivindicações deles.

    Quando o assunto é trasnporte, o problema é muito mais delicado ainda, e é curioso ver como toda Grande SP fica a mercê de pessoas como estes sindicalista. Gostaria tanto que a Justiça fizesse sua parte e punisse os responsáveis por isto.. mas a gente sabe que no fim, não vai virar nada, infelizmente.

    Até a próxima greve, companheiro Adamo!

  3. Sei do que o Adamo está falando, pois ja participei de greves há alguns anos atras e sobre essa pessoas que se dizem do movimento e atuam de forma predatória contra o patrimonio da empresa sempre existiram e pior é que pessoas que são sérias acabam sendo prejudicadas, ocorre que de umas décadas para cá surgiu no movimento sindical “profissionais da greve” ou seja pessoas que só aparecem para agitar e inflar os trabalhadores, passado o movimento essas pessoas somem ninguém sabe, ninguém viu, mas depois podemos encontra-los assessorando o verador X ou o deputado Y, há casos de alguns que foram para Brasilia, mas enfim temos de fato oportunistas de plantão, assim como temos inocentes uteisque é o caso do fiscal que você citou, fico pensando como essa pessoa irá reassumir suas funções na empresas depois desse episódio visto que exerce cargo de confiança, com certeza não permanecerá na empresa ou em outra qualquer. Em relação a bebida infelizmente a cachaça funciona como elemento encorajador para atos do tipo depredar o ônibus do companheiro e desrespeita-lo, com certeza sem a bebida e sozinhos não fariam isto, venho argumentando há algum tempo que precisa se pensar novas formas de reivindicar direitos a greve mesmo sendo um direito já não causa o efeito que causava nos annos 70 e 80, além disso o movimento sindical de hoje não é o mesmo, visto que o contexto economico e politico mudou. Enfim desejo que o bom senso prevaleça e não sejamos mais obrigados a ver situações como a que vimos nessa greve. Forte abraço ao Adamo e a todos e mais uma vez parabéns pela excelente cobertura.

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