A História do SOS CMTC

O SOS da CMTC
Nos últimos anos de existência da principal empresa pública de transportes do País, trabalhadores criam plano para tentar salvar a companhia
ADAMO BAZANI – CBN

CMTC ônibus
Monoblocos O 364 da CMTC - Companhia Municipal de Transportes Coletivos. A situação da empresa nos últimos anos foi crítica. Trabalhadores tentaram salvar companhia, mas não houve jeito.

A CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos – foi criada em 1946, na gestão do prefeito Abrahão Ribeiro, para organizar os transportes na cidade de São Paulo.
Em 1º de julho de 1947 assumiu os serviços encampando aproximadamente 90% das linhas de ônibus municipais e os serviços de bondes deixados pela desinteressada Light And Power Co.
O sistema pode ter sido organizado, mas logo de início, um tumulto marcou as operações. Foi um quebra quebra de grandes proporções por conta do aumento de 100% nas tarifas, que prejudicou milhares de passageiros e deixou os serviços de transportes sob clima de tensão.
A CMTC representou grandes avanços para o transporte coletivo não só no Brasil, mas em toda a América Latina. Delegações de todo o mundo visitavam suas garagens para aprenderem suas formas inovadoras de operação e manutenção.
A empresa também significou avanços para a indústria de ônibus no Brasil. A CMTC testava modelos inéditos que, se depois de aprovados pro ela, eram comprados com mais segurança pelos empresários particulares. Desenvolvia trólebus, veículos com combustíveis alternativos ao óleo diesel e construía seus próprios modelos.
Sem dúvida, um referencial em transportes.
Infelizmente, o final da CMTC foi trágico.
Não por causa de seus investimentos em tecnologia e inovações. Nem pelas suas linhas que tinham caráter social e serviram trajetos que não eram operados pelas empresas de ônibus.
Mas pela péssima cultura no Brasil de que pensar que dinheiro publico é de ninguém e pode-se colocar a mão a vontade.
Até ser privatizada, em 1993, os ônibus e garagens, e em 1994, os trólebus, a CMTC foi palco de cabidões de emprego, mau uso dos recursos públicos e falta de visão empreendedora de fazer com que os recursos multipliquem em vez de vazarem.
Pouco antes de ser privatizada, ainda no sistema municipalizado de Luíza Erundina, então do PT, quando as empresas particulares bem no início dos anos de 1990, eram remuneradas pelos serviços prestados, a CMTC estava agonizando. Agonizando mesmo!
De acordo com Nailton Francisco, que atuou na luta sindical dentro d CMTC, a situação da empresa estava deplorável nos seus últimos anos.
Segundo ele, para uma frota de 2 mil ônibus aproximadamente e 11 garagens só havia um pneu novo. Faltavam peças e a criatividade dos funcionários da empresa era fundamental para que os problemas que já eram visíveis não ficassem ainda maiores aos olhos da população.
Como tentativa de salvar a empresa pública, os trabalhadores criaram o plano SOS CMTC. Além de unir esforços entre eles mesmos para racionalizar os recursos, diminuir gastos e discutir com o poder público melhor formas de estruturar a Companhia.
Tal patrimônio público e referencial não poderia desaparecer.
A CMTC realmente até melhorou.
Alguns ônibus novos foram comprados e os mais antigos tiveram a manutenção melhorada.
No SOS CMTC, os funcionários se empenharam de uma forma que parecia que a empresa era deles. E na verdade era, assim como era de propriedade de todo o cidadão paulistano, inclusive aquele que não andava de ônibus.
Todos fiscalizavam a empresa e cuidavam de não haver desperdícios.
O pessoal da área operacional se empenhava.
Mas os beneficiários pelos chamados cabidões não tinham o mesmo empenho.
Além disso, comissões discutiam com o poder público a melhor maneira de estruturar novamente a empresa. Muitas vezes as discussões e reuniões eram bem acaloradas.
Dizer que o esforço foi em vão seria desqualificar a luta dos trabalhadores da CMTC. O SOS CMTC foi um exemplo de mobilização de trabalhadores não em prol de uma categoria ou de reivindicações salariais próprias. Mas por uma empresa, por um patrimônio, por algo maior, que claro, era de interesse deles e da manutenção de seus empregos. Mas os resultados não foram os esperados.
Adamo Bazani