EXCLUSIVO: Motorista de ônibus está entre as profissões com maior número de divórcios, diz pesquisa internacional 

Indicador de 48% inclui pessoas casadas mais de uma vez; dado abre discussão sobre jornadas, descanso e convivência familiar dos profissionais no Brasil

ADAMO BAZANI

Transportar passageiros desde as primeiras horas da manhã, trabalhar à noite, cumprir escalas em fins de semana e, em serviços rodoviários, permanecer longe de casa: a organização do transporte de outras famílias pode tornar mais difícil a convivência dos motoristas de ônibus com a própria. Uma análise de dados dos Estados Unidos, publicada em maio de 2026, colocou esses profissionais entre as ocupações com maior indicador de divórcio e separação, com 48%. O resultado reúne diferentes situações conjugais e não pode ser aplicado aos brasileiros, mas oferece um ponto de partida para discutir como trabalho, descanso e vida familiar se relacionam.

No Brasil, essa discussão encontra questões já abordadas pelo Diário do Transporte: pressão operacional, busca por renda complementar, condições de descanso e dificuldades das empresas para contratar e manter motoristas. Em entrevistas anteriores, a advogada especializada em direito empresarial e gestão de riscos Liana Variani destacou que escalas previsíveis, remuneração, escuta dos trabalhadores e preparação das chefias fazem parte da valorização profissional. Para empresas e categoria, o desafio é organizar um serviço essencial considerando também as necessidades de quem o realiza.

Quem produziu a análise e o que foi pesquisado

A comparação foi elaborada por Nathan Yau, doutor em Estatística pela Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA, e responsável pelo FlowingData, dedicado à análise e visualização de dados.

O material foi publicado em 7 de maio de 2026. Yau utilizou microdados da American Community Survey, pesquisa do Departamento do Censo dos Estados Unidos, acessados por meio do IPUMS, plataforma de dados para pesquisadores. A base quinquenal de 2024 reúne informações do período de 2020 a 2024.

A coleta das informações populacionais é do órgão público norte-americano. A comparação entre ocupações foi produzida por Yau.

Essa distinção importa: o levantamento não entrevistou motoristas para descobrir os motivos de seus divórcios. Ele comparou informações de ocupação e histórico conjugal disponíveis em uma base populacional.

O que está dentro dos 48% atribuídos aos motoristas de ônibus

A análise considera trabalhadores que se casaram ao menos uma vez. O indicador reúne pessoas divorciadas, separadas e aquelas que informaram ter se casado mais de uma vez, inclusive quando estavam casadas no momento da pesquisa.

Não é, portanto, uma taxa anual de divórcios. Também não significa que 48% dos motoristas estavam sem companheiro ou companheira.

A inclusão de pessoas com mais de um casamento traz uma limitação: um novo matrimônio pode ocorrer após a morte do cônjuge. O número de casamentos, isoladamente, não comprova uma separação anterior.

Outra questão é a sequência dos acontecimentos. Uma pessoa pode ter se divorciado antes de começar a dirigir ônibus. A ocupação registrada na pesquisa não necessariamente corresponde àquela exercida quando o relacionamento terminou.

Essas limitações impedem transformar o resultado em uma afirmação de que a profissão causa divórcios. Para investigar as causas, seria necessário acompanhar os trabalhadores ao longo do tempo e considerar idade, renda, escolaridade, jornadas e outras características.

Por que a rotina profissional merece atenção, mesmo sem explicar sozinha as separações

O levantamento norte-americano mostra uma associação. As possíveis explicações precisam ser investigadas separadamente.

Há, entretanto, evidências sobre dificuldades de conciliar trabalho em turnos, jornadas prolongadas e vida familiar. O Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional dos Estados Unidos, o NIOSH, informa que horários exigentes podem reduzir o sono, aumentar a fadiga, prejudicar o humor e diminuir o tempo de qualidade com familiares e amigos.

O próprio instituto faz uma ressalva: são poucos os estudos que demonstraram aumento do risco de dificuldades conjugais e divórcio entre trabalhadores com horários fora do padrão. Seu material aborda os efeitos de jornadas e turnos, com foco em enfermagem, e não uma medição específica da categoria dos motoristas.

A contribuição dessas pesquisas está em explicar mecanismos de desgaste. Cansaço e desencontro de horários podem dificultar o diálogo e a divisão de responsabilidades, mas não determinam o destino de um relacionamento.

Também é preciso evitar estigmas. Uma separação não mede competência profissional, caráter ou capacidade de cuidar dos filhos. O dado deve orientar uma discussão sobre condições de vida, preservando a privacidade dos trabalhadores.

No transporte brasileiro, o horário do serviço nem sempre coincide com o da família

O funcionamento dos ônibus exige profissionais disponíveis quando boa parte da população ainda não começou o dia ou já encerrou suas atividades.

Quem assume as primeiras viagens pode sair antes que os filhos acordem. Quem trabalha no encerramento da operação pode chegar quando eles já dormem. Nos fins de semana e feriados, a escala pode coincidir com encontros familiares, atividades escolares e comemorações.

No transporte rodoviário, viagens e períodos fora de casa acrescentam outras necessidades de organização.

São exemplos de como a atividade pode produzir desencontros, sem que isso signifique que todos os motoristas vivam a mesma situação. Escalas, distâncias, condições de alojamento e jornadas variam entre empresas e serviços.

A previsibilidade faz diferença nesse cenário. Conhecer os horários com antecedência permite combinar compromissos e repartir tarefas. Mudanças frequentes ou comunicadas em cima da hora dificultam esse planejamento.

Para a família, não basta saber que o motorista terá uma folga. É necessário saber quando ela ocorrerá e se haverá condições de aproveitá-la, considerando também a recuperação do trabalho.

O desgaste pode continuar depois que o motorista deixa o volante

A duração da jornada é apenas uma parte da discussão. As condições em que ela acontece também importam.

Um estudo brasileiro publicado em 2006, “Condições de trabalho e saúde de motoristas de transporte coletivo urbano”, relacionou problemas físicos e manifestações como estresse, irritabilidade e fadiga a efeitos sobre a atividade de dirigir e a vida social dos profissionais.

Por ser uma pesquisa antiga, não deve ser apresentada como retrato de toda a categoria em 2026. Mostra, porém, que a relação entre trabalho e vida fora do ônibus é investigada há décadas.

Nas entrevistas ao Diário do Transporte, Liana Variani destacou fatores como violência, trânsito, infraestrutura e relacionamento com passageiros. São situações que podem variar até entre linhas da mesma empresa.

Isso exige avaliar a operação efetivamente realizada. Um horário de viagem incompatível com os congestionamentos pode gerar atrasos e cobranças recorrentes sobre um motorista que não controla o trânsito.

Uma pausa também precisa oferecer condições de recuperação. Na entrevista publicada em 29 de junho de 2026, a especialista abordou falta de sanitários e água, alojamentos inadequados, problemas de manutenção e jornadas exaustivas.

Esses fatores merecem prevenção por seus efeitos sobre o trabalhador. Não permitem, por si só, explicar o término de um casamento.

Liana Variani: planejamento das escalas melhora a qualidade de vida

Na reportagem de 1º de agosto de 2026 sobre os motivos pelos quais motoristas deixam a profissão, Liana relacionou organização das jornadas e valorização dos profissionais.

A advogada especializada em gestão de riscos empresariais, Liana Variani, afirmou naquela entrevista:

“Cumprir rigorosamente os períodos de descanso, evitar alterações repentinas na programação e dar previsibilidade às jornadas melhora muito a qualidade de vida do motorista.”

A orientação tem aplicação direta na vida familiar. Horários conhecidos ajudam a organizar consultas, acompanhar os filhos e dividir responsabilidades com o companheiro ou a companheira.

Na mesma reportagem, a especialista defendeu a escuta dos motoristas e a preparação das lideranças. A forma como o trabalhador é tratado pela chefia imediata pode influenciar sua decisão de permanecer na empresa.

Na matéria publicada em 4 de setembro de 2026 sobre atração e retenção de profissionais, Liana também destacou remuneração, acolhimento, reconhecimento e perspectivas de desenvolvimento. Sua avaliação foi de que respeito, regras, disciplina e hierarquia podem coexistir em um ambiente saudável.

Essas manifestações foram dadas em entrevistas anteriores sobre trabalho e gestão. Não são declarações da especialista a respeito da análise norte-americana de divórcios.

Complementar a renda exige considerar também o tempo de recuperação

O Diário do Transporte já abordou a situação dos motoristas de ônibus que dirigem carros de aplicativo para ampliar a renda.

Na entrevista de junho, Liana discutiu as dificuldades desse cenário: o profissional busca recursos adicionais, enquanto o acúmulo de horas ao volante pode comprometer a recuperação e criar riscos na operação.

A discussão também alcança a convivência familiar. O tempo fora da empresa pode estar ocupado por outra atividade remunerada, deslocamentos e tarefas domésticas.

Para orientar a categoria, é necessário considerar as razões econômicas dessa escolha. Recomendar descanso sem compreender o orçamento familiar deixa uma parte importante do problema sem resposta.

Ao mesmo tempo, profissionais e famílias precisam avaliar o ganho financeiro junto ao tempo consumido, ao desgaste e à disponibilidade para a convivência. A organização do orçamento e o diálogo sobre a carga total de trabalho podem ajudar nessa avaliação.

Empresas podem agir sobre escalas, infraestrutura e relacionamento

As medidas começam na operação: divulgar escalas com antecedência, reduzir mudanças desnecessárias, respeitar os descansos e estabelecer critérios transparentes para jornadas e folgas.

É recomendável manter canais para solicitar ajustes em situações familiares relevantes, com critérios conhecidos e tratamento equilibrado. Isso permite analisar necessidades sem depender de favores ou da proximidade com determinada chefia.

Fiscais, despachantes e gestores também precisam estar preparados para lidar com dificuldades operacionais. Cobrar segurança e cumprimento de procedimentos faz parte da gestão, mas a cobrança deve preservar o respeito e considerar as condições reais do serviço.

Infraestrutura de descanso, manutenção dos veículos e acesso a apoio de saúde complementam essas medidas. A valorização precisa aparecer na rotina de trabalho.

O acompanhamento pode considerar rotatividade, afastamentos, horas extras, mudanças de escala e relatos dos profissionais. O objetivo é identificar problemas e avaliar se as ações adotadas melhoram o ambiente.

O estado civil do trabalhador não deve servir como indicador de desempenho. A empresa pode melhorar as condições que oferece sem invadir a intimidade de seus funcionários.

Riscos psicossociais já integram as obrigações de prevenção no Brasil

A nova redação do capítulo de gerenciamento de riscos da Norma Regulamentadora nº 1 entrou em vigor em 26 de maio de 2026, após prorrogação. Ela inclui expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho.

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o gerenciamento deve ser contínuo, com identificação dos perigos, avaliação e controle dos riscos. Sua formalização ocorre pelo Programa de Gerenciamento de Riscos, o PGR, composto, no mínimo, por inventário de riscos e plano de ação.

No transporte, isso reforça a necessidade de avaliar jornadas, cobranças, relações internas e condições operacionais. A prevenção precisa produzir mudanças onde forem identificados problemas, com participação dos trabalhadores.

Profissionais, famílias, sindicatos e poder público têm caminhos para contribuir

Para os motoristas, compartilhar a escala e explicar as necessidades de descanso pode ajudar na organização doméstica. O NIOSH recomenda informar familiares e amigos sobre horários de trabalho e padrões de sono, além de comunicar mudanças com antecedência quando possível.

A divisão de responsabilidades também merece atenção. Combinar quem acompanha os filhos, resolve compromissos e realiza tarefas evita que toda a adaptação à jornada recaia sobre uma única pessoa.

Quando houver sofrimento persistente, dificuldades de sono ou conflitos que a família não consegue administrar, procurar apoio profissional pode ser um caminho. Na relação de trabalho, comunicar problemas pelos canais disponíveis e buscar apoio sindical ajuda a encaminhar dificuldades recorrentes.

Os sindicatos podem transformar esses relatos em propostas sobre antecedência das escalas, critérios de folga, infraestrutura e prevenção do desgaste. Empresas podem utilizar o diálogo para identificar questões que não aparecem nos relatórios operacionais.

O poder público também tem responsabilidade sobre condições que afetam o serviço e seus profissionais. Segurança, infraestrutura dos terminais e planejamento dos transportes interferem no ambiente de trabalho, como Liana destacou nas entrevistas ao Diário do Transporte.

O levantamento dos Estados Unidos não responde quantos motoristas brasileiros passaram por separações nem quais foram os motivos. Sua contribuição é abrir uma discussão que pode gerar medidas concretas: organizar o transporte considerando que descanso, convivência e responsabilidades familiares também fazem parte da vida de quem conduz os passageiros.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Aderbal Amorim disse:

    não adianta só pesquisas e normas , … é preciso por em pratica antes que venha o. colápso.

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