Político teve prisão temporária decretada na Operação Vectura Corrupta e se apresentou nesta sexta-feira (18), em Mogi das Cruzes; investigação o relaciona à Transwolff e a articulações envolvendo empresas de ônibus, mas ele nega qualquer vínculo com a facção criminosa
ADAMO BAZANI
Colaborou Yuri Sena
O ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite se entregou à Polícia Civil nesta sexta-feira, 18 de setembro de 2026, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, e teve cumprido o mandado de prisão temporária decretado no âmbito da Operação Vectura Corrupta. Logo depois de se apresentar, o ex-vereador negou integralmente as acusações, afirmou confiar na Justiça e disse que pretende contestar no processo, por meio de seus advogados, os elementos reunidos pela Polícia Civil e pelo Ministério Público.
Milton Leite é investigado por possível participação em um esquema de infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) no setor de ônibus de São Paulo. A investigação menciona o político em diálogos entre suspeitos, sustenta que ele exerceria influência sobre empresas do sistema e registra declarações segundo as quais seria o “dono de fato” da Transwolff. Leite e a empresa negam essa relação. As acusações ainda estão em fase de investigação, e a prisão temporária é uma medida cautelar, não uma condenação.
APÓS SE ENTREGAR, MILTON LEITE DIZ QUE É INOCENTE E QUE VAI CONTESTAR ACUSAÇÕES
Ao deixar claro que cumpriu a determinação judicial voluntariamente, Milton Leite afirmou que acredita no trabalho da Polícia Civil e da Justiça, mas sustentou que nenhuma das acusações procede.
Na declaração dada após a apresentação, o ex-presidente da Câmara também foi questionado sobre onde permaneceu antes de comparecer à delegacia, sobre as buscas realizadas nesta sexta-feira e sobre as mensagens em que seu nome aparece na investigação.
O Diário do Transporte reproduz abaixo integralmente a manifestação, inclusive as perguntas feitas ao político:
“Absolutamente, sou inocente de todas as acusações, eu acredito na justiça, no trabalho da polícia. Temos oportunidade agora de provar tudo o que foi dito, a gente tem a oportunidade da contradita pelos meus advogados, a gente vai guardar essa decisão pacientemente, temos que respeitar as decisões da justiça, eu cumpri a decisão, me apresentei conforme prometido, conforme dito, vim no dia que vaquei, estou aqui sem nenhum problema.
Só se arrepende quem comete crime eu não cometi nenhum, nada devo. Estava na minha residência, no interior, fui lá dormir na minha casa e voltei, em Sorocaba, sim.
é aquela casa onde foi alvo de buscas hoje pela manhã ?
Não, não, é a minha casa, a casa da minha empresa.
Objeto da discussão será feita no processo com meus advogados. Você vai me pegar num detalhe, numa pergunta, por ora eu posso lhe garantir, eu nego todas as acusações e tenho convicção que sou inocente de todas elas.
Por que o senhor acredita que apareceu em tantas mensagens citadas?
Eu não vou discutir esses detalhes porque eu estaria entrando no processo, pontualmente é ruim. Está certo.”
POLÍCIA FOI A SOROCABA ANTES DA APRESENTAÇÃO
A referência de Milton Leite a Sorocaba ocorre porque a Polícia Civil havia realizado diligências na cidade nesta sexta-feira enquanto tentava cumprir o mandado.
Em um imóvel ligado a um ex-assessor do político, os agentes apreenderam R$ 280 mil e US$ 89 mil em espécie, totalizando aproximadamente R$ 740 mil pela conversão utilizada nas reportagens sobre o caso. Milton Leite não estava no local no momento da operação. A origem do dinheiro faz parte das apurações.
Na manifestação reproduzida nesta reportagem, Leite afirmou que havia passado a noite em sua residência no interior e, quando questionado se era a mesma casa alvo das buscas, respondeu negativamente e fez referência à “casa da minha empresa”.
A investigação deverá esclarecer as relações entre os diferentes endereços citados e os elementos apreendidos.
POR QUE MILTON LEITE APARECE NA INVESTIGAÇÃO
O nome do ex-presidente da Câmara surge em conversas analisadas pela Polícia Civil envolvendo empresas do transporte coletivo.
Em uma das sequências, investigados discutem problemas relacionados à UPBus e afirmam que seria necessário “envolver” Milton Leite antes de determinadas decisões. Em seguida, também aparece referência à necessidade de conversar com Levi dos Santos Oliveira, então presidente da SPTrans.
A investigação sustenta ainda que Milton teria exercido influência sobre empresas que, na tese policial, estariam sob controle ou influência de integrantes do PCC.
Outro ponto considerado relevante pelas autoridades são declarações existentes em procedimento no Tribunal de Justiça Militar segundo as quais ele seria o “dono de fato” da Transwolff.
Milton Leite nega.
Ele afirma não ter participação societária ou administrativa em empresas de ônibus e sustenta que seus contatos com o setor decorreram de sua atuação política e institucional. A Transwolff também nega que o ex-vereador tenha sido proprietário ou gestor da companhia.
TRANSWOLFF JÁ HAVIA SIDO ALVO DA OPERAÇÃO FIM DA LINHA
A Transwolff foi um dos principais alvos da Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024 para investigar suspeitas de lavagem de dinheiro e possível utilização de empresas do transporte coletivo por integrantes do PCC.
A Prefeitura de São Paulo posteriormente interveio na empresa e rompeu o contrato da operadora.
A investigação atual ampliou o alcance das apurações. Polícia Civil e Ministério Público trabalham com a hipótese de influência direta ou indireta da organização criminosa sobre diferentes empresas do sistema de ônibus e investigam, além de lavagem de dinheiro, possíveis relações com agentes públicos, políticos e decisões administrativas.
MILTON LEITE DIZ QUE NÃO VAI DISCUTIR DETALHES DAS MENSAGENS FORA DO PROCESSO
Um dos momentos mais importantes da manifestação desta sexta-feira ocorreu quando Milton Leite foi questionado especificamente sobre a quantidade de mensagens da investigação nas quais seu nome aparece.
O ex-presidente da Câmara evitou responder ponto a ponto.
Disse que entrar nesses detalhes fora dos autos seria inadequado e que a discussão será feita no processo pelos advogados.
A estratégia da defesa, portanto, passa a ser confrontar judicialmente a interpretação que Polícia Civil e Ministério Público fazem dos diálogos, documentos e demais dados extraídos durante a investigação.
INVESTIGAÇÃO TEM MATERIAL QUE AUTORIDADES CONSIDERAM CONSISTENTE, MAS CASO AINDA NÃO FOI JULGADO
Polícia Civil e Ministério Público afirmam ter reunido mensagens, áudios, documentos, movimentações financeiras e informações extraídas de aparelhos celulares que sustentaram os pedidos de prisões temporárias, buscas e outras medidas cautelares.
O Gaeco atribuiu relevância ao conjunto reunido pela investigação e a Justiça autorizou as prisões temporárias de 16 investigados, entre eles Milton Leite, o ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira e Paulo Sirqueira Korek Farias, ligado à A2 Transportes.
Isso não elimina uma distinção fundamental: os elementos considerados suficientes para medidas cautelares ainda serão confrontados pelas defesas e avaliados no decorrer do processo.
Não há condenação definitiva de Milton Leite pelas acusações investigadas.
Ao se apresentar nesta sexta-feira, o ex-vereador resumiu justamente qual será sua posição daqui em diante: nega todas as acusações e afirma que pretende demonstrar sua inocência no processo.
