Trens regionais exigem mais investimentos e tecnologia para voltar a ganhar espaço no Brasil
Publicado em: 16 de setembro de 2026
ANPTrilhos e Hitachi apontam necessidade de ampliar investimentos, hoje em cerca de R$ 8 bilhões ao ano, e destacam planejamento, digitalização e uso inteligente de dados como fundamentais para a expansão ferroviária
ALEXANDRE PELEGI
O transporte ferroviário de passageiros de média e longa distância no Brasil precisa ampliar investimentos em infraestrutura e tecnologia de gestão nas próximas décadas para viabilizar a retomada e a expansão de trens regionais e intercidades, conectando municípios e estados.
A avaliação é de Ana Patrizia Lira, diretora-executiva da Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos), e Mauricio Corte, vice-presidente de contas estratégicas da Hitachi Mobility Multimodal Solutions na América Latina. Os dois especialistas veem potencial para a expansão do modal no País nas próximas décadas.
“Existe um potencial enorme para a retomada desse serviço, mas é fundamental avançar nos estudos de viabilidade técnica e econômica”, afirma Ana Patrizia Lira. “Precisamos expandir a malha ferroviária existente, criando novas linhas, estendendo as atuais e construindo novas estações.”
Na década de 1960, o Brasil chegou a transportar quase 90 milhões de passageiros em trens regionais. Atualmente, existem apenas duas linhas regionais, ambas operadas pela Vale como parte de contratos de transporte de carga, somando cerca de 1 milhão de passageiros por ano.
O cenário, entretanto, começa a apresentar perspectivas de mudança.
O Estado de São Paulo outorgou, em 2024, o projeto do Trem Intercidades, ligando Campinas à capital paulista, e mantém outros trechos em estudo. Paralelamente, o Ministério dos Transportes, por meio da Infra S.A., vem conduzindo estudos para mapear a viabilidade de novas rotas ferroviárias de passageiros pelo País.
A ampliação do sistema, entretanto, depende de mais recursos.
“O Brasil investe hoje em torno de R$8 bilhões por ano em mobilidade sobre trilhos, mas esse valor precisa alcançar R$20 bilhões anuais para que tenhamos, em alguns anos, um sistema estruturante adequado nos corredores de média e alta capacidade das metrópoles”, diz.
Segundo Lira, existe interesse para que esse movimento ocorra, e a expansão deve ganhar espaço nas próximas décadas.
*Tecnologia e uso de dados*
Além da construção de infraestrutura e da aquisição de trens, especialistas destacam a necessidade de incorporar sistemas de gestão capazes de melhorar a operação, reduzir custos, aumentar a eficiência e permitir que recursos economizados sejam reinvestidos no próprio sistema.
Mauricio Corte, vice-presidente de contas estratégicas da Hitachi Mobility Multimodal Solutions na América Latina, destaca a importância dessa integração entre infraestrutura física e inteligência operacional.
A empresa atua na área de Sistemas Inteligentes de Transporte (ITS) e possui soluções presentes em mais de 300 cidades no mundo.
“É preciso ter sistemas inteligentes de planejamento para administrar ambientes de elevada complexidade, como sistemas ferroviários, metroferroviários e multimodais. Infraestrutura sem inteligência de gestão não entrega todo o seu potencial”, analisa Corte.
As soluções da Hitachi estão presentes em sistemas de transporte público de cidades como São Paulo, Nova Iorque, Milão, Roma, Toronto, Chicago, Miami, Santiago e Doha.
Para Corte, um dos pontos centrais é avaliar quanto uma gestão mais inteligente da infraestrutura e dos ativos pode gerar de economia, produtividade e capacidade de reinvestimento.
“Sem essa camada de inteligência, corremos o risco de construir uma infraestrutura moderna que continuará sendo administrada por processos fragmentados, sistemas isolados e decisões predominantemente reativas”, diz.
Ana Patrizia, que tem 22 anos de experiência no setor público, com foco em regulação e concessão na área de infraestrutura de transportes, também destaca o papel da tecnologia nesse processo.
“A tecnologia por trás da digitalização e o uso de sistemas avançados para a coleta de dados em tempo real são indispensáveis na operação metroferroviária”, resume a executiva.
Segundo ela, o uso dessas ferramentas também tem impacto direto sobre a experiência dos passageiros.
“A precisão dos dados proporciona maior regularidade nas viagens, permite ajustar a oferta de trens conforme a demanda real e resulta na entrega de um serviço com mais pontualidade, qualidade e previsibilidade.”
*Sobre a Hitachi Mobility Multimodal Solutions*
A Hitachi Mobility Multimodal Solutions, antiga Clever Devices, atua no desenvolvimento de Sistemas Inteligentes de Transporte (ITS), com presença em mais de 300 cidades ao redor do mundo.
As soluções da empresa são voltadas a operadoras e órgãos gestores e incluem ferramentas para planejamento, organização e controle de frotas em tempo real, além da digitalização de processos relacionados à mobilidade.
A companhia atua com tecnologias destinadas a ampliar a previsibilidade e a eficiência dos sistemas de transporte público e melhorar a experiência dos passageiros.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes




Uma vergonha não terem as ligações para as pessoas viajarem, mesmo com altos impostos abusivos.