Buses Vule aposta em inteligência operacional para ampliar eficiência da maior frota elétrica do Chile
Publicado em: 11 de setembro de 2026
Experiência acumulada com mais de 500 ônibus elétricos leva operadora chilena a investir em ferramentas avançadas de planejamento da Mayör da Hitachi HMSS para reduzir custos, otimizar recursos e aumentar a confiabilidade do serviço
ALEXANDRE PELEGI
A eletrificação do transporte coletivo costuma ser associada à aquisição de novos ônibus, à instalação de carregadores e à redução das emissões de poluentes. Mas, para quem administra uma grande operação, a verdadeira transformação acontece nos bastidores. Planejar quando cada veículo deve sair da garagem, quanto tempo permanecerá em circulação, quando deverá recarregar, qual motorista executará cada jornada e como tudo isso poderá ocorrer com o menor custo possível tornou-se um desafio tão importante quanto a própria tecnologia embarcada nos veículos.
Foi exatamente essa experiência que levou a Buses Vule, uma das maiores operadoras do sistema de transporte público de Santiago, no Chile, a implantar uma plataforma integrada de planejamento operacional desenvolvida pela Hitachi Mobility Multimodal Solutions (HMMS).
Em entrevista concedida ao Diário do Transporte, David Illanes, chefe do Centro de Operações de Frota (COF) da Buses Vule, explicou como a empresa está transformando anos de experiência prática em inteligência operacional apoiada por algoritmos, simulações e análise de dados.
Segundo Illanes, a empresa chegou a operar aproximadamente 1.430 ônibus, praticamente todos movidos a diesel. Atualmente, após a reorganização das concessões do transporte da capital chilena, a frota é composta por 963 veículos, dos quais 532 já são elétricos.
A mudança começou de forma modesta, entre o final de 2017 e o início de 2018, quando a empresa colocou em circulação seu primeiro ônibus elétrico em caráter experimental.
Pouco depois vieram os primeiros 76 veículos.
“Nós simplesmente começamos a operar. Não existia um sistema que sustentasse toda essa operação. Aprendemos fazendo”, resumiu.
A experiência veio antes do software
Os primeiros anos da eletromobilidade foram marcados muito mais pela observação do comportamento da frota do que pelo apoio de sistemas de planejamento.
Havia dúvidas sobre praticamente tudo: autonomia das baterias, tempo necessário para recarga, disponibilidade dos veículos e impacto operacional.
Por precaução, parte significativa da frota permanecia parada.
Dos 76 ônibus elétricos iniciais, cerca de 50 eram utilizados regularmente.
Com o passar do tempo, a operação mostrou que muitas das preocupações eram maiores do que a realidade. Os ônibus permaneciam disponíveis por mais tempo, as recargas eram mais rápidas do que se imaginava e a manutenção exigia menos intervenções.
“Descobrimos que duas horas de recarga eram suficientes para manter muitos veículos trabalhando durante grande parte do dia“, contou Illanes.
Outro fator importante foi a elevada disponibilidade mecânica dos ônibus elétricos. Sem óleo lubrificante, filtros, sistemas complexos de escapamento e diversos componentes típicos dos motores a combustão, a manutenção tornou-se menos frequente.
Isso aumentou o tempo em que os veículos permanecem disponíveis para operação.
Planejamento deixa de ser empírico
Toda essa experiência acumulada passou agora a alimentar a plataforma de planejamento. Segundo Illanes, o grande avanço não está apenas em organizar horários, mas em permitir que a empresa simule diferentes cenários antes mesmo de colocá-los em prática.
A ferramenta considera simultaneamente autonomia das baterias, localização dos carregadores, custos da energia elétrica, jornadas de motoristas, blocos operacionais e utilização da frota.
No Chile, onde a tarifa de energia varia conforme o horário do dia, o sistema também ajuda a decidir quando vale a pena realizar as recargas. “Hoje conseguimos transformar toda a experiência operacional que acumulamos em um planejamento estruturado“, diz Illanes.
Menos veículos para fazer o mesmo trabalho
Um dos principais objetivos da Buses Vule é reduzir a necessidade de veículos sem comprometer a oferta do serviço.
Segundo Illanes, essa economia não ocorre pela redução da operação, mas pelo melhor aproveitamento dos recursos.Quando os tempos de recarga passam a ser conhecidos com maior precisão e a disponibilidade da frota aumenta, torna-se possível reorganizar toda a programação.
A consequência direta é uma utilização mais intensa dos ônibus. Ao mesmo tempo, reduz-se o tempo em que permanecem parados nas garagens.
Veículos e motoristas passam a ser planejados juntos
Outra mudança importante ocorre na programação das equipes. Antes, boa parte das decisões era tomada ao longo do dia pelos despachantes nos terminais.
Agora, a intenção é que motoristas iniciem a jornada sabendo exatamente quais tarefas executarão. Segundo Illanes, essa talvez seja a maior transformação cultural provocada pelo sistema: “O motorista deixará de esperar que alguém lhe diga o que fazer. Ele chegará sabendo exatamente qual será sua programação.”
O executivo reconhece que mudanças dessa natureza costumam gerar resistência. Mas acredita que, à medida que o sistema seja implantado gradualmente, os próprios motoristas perceberão os benefícios da organização.
Algoritmo produz dezenas de alternativas
Uma característica destacada por Illanes é a capacidade de processamento da plataforma. Enquanto antigas planilhas em Excel produziam praticamente uma única solução operacional, o novo sistema gera dezenas de alternativas.
Durante um estudo envolvendo uma unidade operacional com cerca de 309 ônibus, duas soluções surgiram em aproximadamente meia hora. Após oito horas de processamento, o algoritmo apresentou cerca de quarenta possibilidades diferentes.
Isso permite que a gerência compare cenários antes de decidir qual levar para operação. “Antes tínhamos apenas uma resposta. Hoje temos várias alternativas para escolher aquela que melhor atende à operação”, explica Illanes.
Toda essa estrutura passará por seu primeiro grande teste prático nas próximas semanas. A partir de agosto, dois terminais totalmente elétricos começaram a operar utilizando os planejamentos produzidos pela plataforma.
O desafio será administrar a logística de recarga. Como apenas um dos terminais possui infraestrutura completa, parte dos ônibus precisará deslocar-se para realizar o abastecimento elétrico.
Segundo Illanes, o planejamento permitirá reduzir tempos improdutivos e organizar esses deslocamentos com muito mais precisão.
Viagens em vazio devem diminuir
Outro benefício esperado é a redução dos chamados quilômetros mortos — ou viagens em vazio. As primeiras simulações já indicam diminuição desses deslocamentos.
Embora os resultados ainda dependam da implantação completa, Illanes acredita que o potencial é significativo. Quanto mais refinados forem os parâmetros utilizados pelo sistema, maiores tendem a ser os ganhos.
Ferramenta ajudou empresa a vencer novas licitações
A plataforma também teve impacto fora da operação diária. Segundo David Illanes, a capacidade de modelar cenários futuros permitiu que a empresa estruturasse propostas para novas licitações do transporte público chileno.
Esses estudos contribuíram diretamente para a conquista de duas novas unidades de negócio, que deverão incorporar aproximadamente 621 novos ônibus.
Para ele, essa experiência confirmou que a empresa precisava abandonar definitivamente os métodos baseados apenas em planilhas.
O passageiro percebe o resultado sem conhecer a tecnologia
Embora toda essa estrutura tecnológica funcione nos bastidores, Illanes afirma que o efeito chega diretamente ao passageiro. Na avaliação dele, qualidade não significa apenas ônibus novos.
Significa previsibilidade.
“Ninguém fica contando quantos ônibus passaram durante uma hora. O passageiro mede quanto tempo esperou pelo próximo veículo.”
Segundo ele, quando o usuário sabe que, caso perca um ônibus, outro chegará em poucos minutos, a percepção de qualidade muda completamente.
Hoje, itens como ar-condicionado, Wi-Fi, tomadas USB e veículos modernos já fazem parte do padrão esperado pela população de Santiago. Por isso, a regularidade da operação passou a ser o principal indicador percebido pelos passageiros.
A experiência chilena demonstra que a eletromobilidade não depende apenas da compra de ônibus elétricos, mas da capacidade de transformar dados, planejamento e conhecimento operacional em uma operação mais eficiente.
Na Buses Vule, essa transformação já começou. Depois de aprender na prática como operar uma grande frota elétrica, a empresa agora aposta na inteligência operacional para dar o próximo passo: fazer mais com menos recursos, mantendo a qualidade do serviço e preparando o futuro do transporte coletivo.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


