Eletromobilidade

Ônibus autônomos avançam para o trânsito real e novo modelo elétrico deve começar a operar na Alemanha ainda em 2026

Experiências começam a sair de ambientes fechados e chegam às vias públicas compartilhadas com carros, pedestres e ciclistas

ADAMO BAZANI

Os ônibus autônomos começam a dar um passo considerado essencial para que a tecnologia possa, no futuro, fazer parte efetivamente dos sistemas regulares de transporte coletivo: sair dos ambientes fechados e altamente controlados e enfrentar as situações do trânsito real.

Um dos projetos mais recentes será colocado à prova na Alemanha ainda no terceiro trimestre de 2026.

A fabricante espanhola UNVI e a empresa de tecnologia Imagry anunciaram a integração de um ônibus elétrico de 10,3 metros a um sistema de condução autônoma de nível 4 baseado em inteligência artificial.

Segundo as empresas, uma das principais características é que o veículo não depende dos chamados HD Maps, mapas digitais de alta definição previamente preparados para orientar veículos autônomos.

A implantação alemã se soma a outras experiências que já começam a colocar ônibus autônomos em vias públicas e em trânsito misto, compartilhando espaço com automóveis conduzidos por motoristas, além de ciclistas e pedestres.

É uma situação bastante diferente de boa parte das primeiras experiências com veículos autônomos de transporte coletivo, realizadas principalmente em aeroportos, campi universitários, parques, complexos empresariais e pistas ou corredores segregados.

E algumas destas experiências em condições reais já transportam passageiros.

Desde quarta-feira, 12 de agosto de 2026, por exemplo, um Karsan Autonomous e-ATAK começou a transportar passageiros nos Países Baixos em um percurso de aproximadamente seis quilômetros realizado em tráfego misto.

A operação ocorre na região do parque Efteling, na província de Brabante do Norte, conectando o principal ponto de transporte público da região a hotéis e outras instalações.

Apesar de atender uma região turística, o aspecto mais importante para a evolução da tecnologia é justamente o fato de o ônibus não ficar restrito a uma pista exclusiva: o veículo enfrenta situações de tráfego compartilhado.

O e-ATAK utiliza tecnologia autônoma de nível 4 desenvolvida pela ADASTEC.

A operação neerlandesa mostra que os testes começam a avançar justamente sobre um dos maiores desafios para a automação do transporte coletivo: lidar não apenas com situações previamente programadas, mas com o comportamento muitas vezes imprevisível dos demais usuários das ruas.

NÃO BASTA O ÔNIBUS ANDAR SOZINHO

Fazer um ônibus percorrer autonomamente um trajeto previamente determinado em uma área fechada é uma situação bastante diferente de colocá-lo numa rua aberta ao trânsito.

No ambiente urbano, o sistema precisa reconhecer e reagir, entre outras situações, a carros mudando repentinamente de faixa, motocicletas, bicicletas, pedestres atravessando fora das faixas, veículos estacionados irregularmente, obras, objetos sobre a pista e alterações temporárias na circulação.

Também precisa interpretar semáforos, sinalização horizontal e vertical e administrar situações nas quais diferentes usuários disputam simultaneamente o espaço viário.

É justamente esta transição para o chamado “mixed traffic”, ou tráfego misto, que começa a aparecer com maior frequência nos projetos mais recentes.

No nível 4 de automação, segundo a classificação SAE, o sistema pode executar integralmente a tarefa de dirigir sem intervenção humana, mas dentro de condições e áreas previamente determinadas, chamadas tecnicamente de ODD – Operational Design Domain.

Assim, nível 4 não significa que o ônibus esteja autorizado a circular sozinho por qualquer rua ou em qualquer condição climática ou operacional.

Cada projeto estabelece os limites dentro dos quais o sistema pode funcionar autonomamente.

ALEMANHA TERÁ NOVO ÔNIBUS DE 10,3 METROS

O projeto anunciado pela UNVI e pela Imagry segue esta evolução.

O primeiro veículo integrado pelas empresas possui 10,3 metros de comprimento, propulsão totalmente elétrica e pertence à categoria europeia M3.

Segundo a Imagry, o ônibus deve ser colocado em operação na Alemanha no terceiro trimestre de 2026.

A integração entre o veículo da UNVI e o sistema de condução autônoma foi realizada em menos de três meses.

O ônibus foi preparado para atender ao processo europeu WVTA – Whole Vehicle Type Approval – e aos requisitos do GSR2 – General Safety Regulation 2.

Ainda não foram divulgados detalhes como a cidade alemã onde ocorrerá a implantação, extensão da linha, capacidade das baterias, autonomia, potência de recarga e número de passageiros.

As empresas também não detalharam as condições específicas da primeira fase de operação e eventual presença de um profissional de segurança dentro do veículo.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL SEM MAPAS DE ALTA DEFINIÇÃO

Outro aspecto que diferencia o projeto está na maneira como o ônibus identifica o caminho.

A Imagry desenvolveu uma arquitetura que, segundo a empresa, dispensa HD Maps.

Em sistemas que dependem destes mapas, o veículo utiliza uma representação digital extremamente detalhada da área em que vai circular.

A solução da Imagry procura fazer o ônibus interpretar continuamente aquilo que encontra pela frente.

Câmeras instaladas ao redor do veículo fornecem as imagens e algoritmos de inteligência artificial e redes neurais identificam elementos como veículos, pedestres, ciclistas, semáforos, placas, faixas de trânsito e obstáculos.

Com estas informações, o sistema calcula a trajetória e envia comandos para direção, aceleração e frenagem.

Segundo a empresa, o processamento ocorre no próprio veículo e não depende permanentemente de conexão com a nuvem.

A Imagry afirma que sua tecnologia de nível 4 foi desenvolvida para utilização tanto em áreas operacionais quanto em vias públicas e informa possuir experiências de condução autônoma em ruas desde 2019, com projetos nos Estados Unidos, Alemanha, Japão e Israel. PAÍSES BAIXOS JÁ TÊM ÔNIBUS EM TRÁFEGO MISTO

Enquanto o projeto UNVI/Imagry se prepara para a implantação alemã, uma experiência iniciada nesta semana nos Países Baixos ajuda a mostrar como a tecnologia começa a avançar para situações mais próximas de uma operação convencional.

O Karsan Autonomous e-ATAK começou a transportar passageiros gratuitamente em 12 de agosto de 2026.

O percurso tem aproximadamente seis quilômetros e é realizado em tráfego misto entre os pontos Efteling Hoofdingang e Wonderhotel.

Participam do projeto, além da Karsan e da desenvolvedora de tecnologia autônoma ADASTEC, representantes do Efteling, da operadora Arriva, da província de Brabante do Norte, do município de Loon op Zand e da autoridade neerlandesa de veículos RDW.

A operação foi oficialmente apresentada em 10 de agosto e o transporte de passageiros começou dois dias depois.

O projeto-piloto deve durar aproximadamente dois meses.

A Karsan e a ADASTEC já vêm utilizando o e-ATAK como plataforma para experiências autônomas em diferentes países.

A ADASTEC afirma possuir aplicações de nível 4 em vias públicas e destaca justamente a utilização de ônibus convencionais de transporte coletivo, e não somente pequenos veículos do tipo shuttle.

MUNIQUE TAMBÉM PREPARA TESTES EM VIAS PÚBLICAS

A Alemanha possui ainda outro projeto que pretende colocar ônibus autônomos em condições reais.

Em Munique, um ônibus automatizado está previsto para circular em vias públicas inicialmente sem passageiros como parte da etapa final de validação.

Posteriormente, a MVG (Münchner Verkehrsgesellschaft), operadora de transporte da cidade, prevê iniciar uma fase piloto no segundo semestre de 2026.

O projeto faz parte da iniciativa MINGA e envolve o desenvolvimento de ônibus automatizados para utilização no transporte público urbano.

Assim, diferentes tecnologias começam a ser avaliadas não apenas em circuitos protegidos, mas dentro das condições encontradas diariamente pelas empresas de ônibus.

ESCÓCIA JÁ COLOCOU ÔNIBUS DE TAMANHO CONVENCIONAL NAS RUAS

Uma das experiências anteriores mais relevantes ocorreu na Escócia.

O projeto CAVForth colocou ônibus Alexander Dennis Enviro200AV em uma linha entre Ferrytoll Park & Ride e Edinburgh Park.

O serviço começou em maio de 2023 e utilizava ônibus convencionais adaptados para automação de nível 4.

Os veículos circulavam por vias públicas e atravessavam a Forth Road Bridge.

Havia, entretanto, um profissional no posto do motorista durante as viagens, mesmo com o sistema assumindo normalmente a condução.

A operação original foi encerrada em fevereiro de 2025.

A experiência escocesa foi relevante principalmente por mostrar a possibilidade de levar a automação para veículos de dimensões e capacidades mais próximas às encontradas no transporte público convencional.

PRÓXIMO DESAFIO É TRANSFORMAR TESTES EM OPERAÇÃO REGULAR

O avanço dos projetos mostra que a tecnologia de condução autônoma para ônibus já ultrapassou a fase em que praticamente todas as demonstrações eram realizadas em ambientes fechados.

Mas isso ainda está distante de significar uma substituição em larga escala dos motoristas.

Existem desafios tecnológicos, regulatórios, trabalhistas e operacionais.

Um ônibus urbano convencional pode permanecer em operação durante muitas horas por dia, enfrentar congestionamentos, alterações de itinerário, acidentes, obras emergenciais, chuvas fortes e inúmeras situações que não necessariamente estavam previstas quando o sistema foi desenvolvido.

Há ainda questões relacionadas à responsabilidade em caso de acidente, homologação dos sistemas, cibersegurança e necessidade ou não de acompanhamento humano remoto ou dentro dos veículos.

A própria legislação é um dos principais fatores que determinam até onde cada experiência pode avançar.

A Alemanha está entre os países que já possuem uma estrutura legal permitindo veículos com funções autônomas em áreas operacionais previamente determinadas de vias públicas.

Assim, o desafio que começa a se desenhar para a indústria não é mais somente demonstrar que um ônibus consegue dirigir sozinho.

A questão passa a ser mostrar se estes veículos conseguem fazer isso de maneira segura, previsível e economicamente viável no mesmo ambiente complexo onde atualmente trabalham milhares de motoristas: as ruas das cidades.

O ônibus UNVI/Imagry que deve entrar em operação na Alemanha e experiências como a do Karsan Autonomous e-ATAK nos Países Baixos serão novos testes desta etapa.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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