Auto Bless amplia ações de saúde mental para enfrentar impactos dos jogos de azar entre motoristas
Publicado em: 3 de agosto de 2026
Operadora de transporte coletivo da Zona Sul de São Paulo reforça acolhimento psicológico, campanhas de conscientização e acompanhamento de colaboradores diante do aumento dos casos de compulsão por apostas on-line
ALEXANDRE PELEGI
A explosão das apostas on-line e dos chamados “jogos de azar digitais”, como o popular “Tigrinho”, chegou também às garagens das empresas de transporte coletivo. O que inicialmente aparece como entretenimento pode evoluir para compulsão, endividamento, conflitos no ambiente de trabalho e, em casos mais graves, comprometer a capacidade emocional de quem conduz diariamente milhares de passageiros.
Essa realidade tem levado empresas do setor a ampliar suas políticas de saúde mental. Na Auto Bless, operadora do transporte coletivo da Zona Sul da capital paulista, a preocupação transformou-se em um programa estruturado de acolhimento, orientação e prevenção, envolvendo psicologia, recursos humanos, lideranças e campanhas permanentes de conscientização.
Segundo a gestora de Recursos Humanos da empresa, Solange Cardoso, embora o acompanhamento psicológico já existisse há anos, a entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que reforçou a gestão dos riscos psicossociais nas organizações, levou a empresa a aprofundar ainda mais esse trabalho.
“O papel da empresa não é julgar o colaborador, mas oferecer apoio, conscientização e ferramentas para que ele busque ajuda”, afirma.
Jogos de azar deixaram de ser apenas entretenimento
Ao longo das ações internas realizadas neste ano, a empresa identificou um crescimento dos casos relacionados às apostas on-line.
Segundo Solange, o problema normalmente começa de forma aparentemente inofensiva.
“O jogo começa como diversão, mas pode evoluir para um comportamento compulsivo. A partir daí surgem endividamentos, dificuldades de relacionamento, queda de produtividade e sofrimento emocional.”
Um dos sinais que mais chamaram a atenção da equipe de RH foi o aumento dos pedidos de empréstimos entre colegas de trabalho, situação que acaba gerando constrangimentos, conflitos internos e deterioração do clima organizacional.
Além das palestras educativas, a Auto Bless promoveu recentemente uma ação de conscientização utilizando uma apresentação teatral, justamente para facilitar a identificação dos colaboradores com o tema sem expor casos individuais.
Atendimento é espontâneo, sigiloso e respeita a decisão do colaborador
A psicóloga Fernanda Alves explica que o atendimento ocorre por diferentes caminhos.
O primeiro é espontâneo, quando o próprio colaborador procura ajuda.
Há também os casos em que gestores percebem alterações de comportamento, faltas frequentes ou mudanças emocionais e encaminham o trabalhador, sempre de forma reservada.
Em outras situações, a própria equipe de psicologia identifica sinais que justificam um convite para atendimento.
Fernanda faz questão de destacar que não existe qualquer obrigação.
“Se o colaborador não quiser participar, essa decisão é respeitada.”
Ela explica que o atendimento realizado dentro da empresa não busca fechar diagnósticos clínicos.
“O objetivo é oferecer acolhimento, uma escuta qualificada e orientar a pessoa para que busque acompanhamento especializado fora da empresa, quando necessário.”
Quando o hábito vira problema
Uma das maiores dúvidas envolvendo as apostas é identificar quando elas deixam de ser apenas um passatempo.
Segundo Fernanda, o critério é relativamente claro.
“Tudo aquilo que provoca sofrimento, prejuízo financeiro, perda de tempo ou impactos psicológicos importantes já merece atenção.”
Entre os sinais observados pela equipe estão:
- endividamento crescente;
- sucessivos empréstimos;
- dificuldades para cumprir compromissos financeiros;
- prejuízo nos relacionamentos pessoais e profissionais;
- alterações de comportamento e rendimento no trabalho.
Embora o tema ainda seja recente, Fernanda afirma que alguns colaboradores já procuraram ajuda após as campanhas realizadas pela empresa.
Em alguns casos, familiares também entraram em contato para agradecer a orientação oferecida.
Segurança operacional também depende da saúde emocional
Com cerca de 1.300 colaboradores, dos quais aproximadamente 85% são motoristas, a Auto Bless entende que saúde mental e segurança operacional caminham juntas.
Segundo Solange, quando um motorista apresenta qualquer alteração emocional que possa comprometer sua capacidade de conduzir o veículo com segurança, ele é retirado temporariamente da operação.
“O motorista só retorna quando entendemos que está emocionalmente apto.”
A medida busca preservar tanto o trabalhador quanto os passageiros.
“Estamos falando de profissionais que transportam vidas todos os dias. Eles precisam estar preparados tecnicamente, mas também emocionalmente.”
Hoje, a empresa possui cerca de 50 colaboradores afastados por diferentes motivos, número que inclui diversas causas médicas e não apenas questões ligadas à saúde mental.
RH atua antes que o problema se transforme em conflito
Além do acolhimento psicológico, a área de Recursos Humanos acompanha situações que podem gerar impactos dentro das equipes.
Quando surgem relatos de empréstimos entre colegas ou conflitos relacionados a dívidas, os gestores recebem orientação para agir preventivamente.
O objetivo não é controlar a vida financeira dos trabalhadores, mas evitar que dificuldades pessoais comprometam o ambiente de trabalho e a convivência entre as equipes.
Segundo Solange, muitas vezes o colaborador chega ao ponto de receber um contracheque praticamente zerado por descontos decorrentes de dívidas acumuladas, situação que naturalmente afeta sua motivação e desempenho.
Dentro dos limites da política interna, a empresa pode avaliar medidas pontuais, como antecipação de férias, mas entende que a principal estratégia continua sendo a prevenção e a educação financeira.
Capacitação técnica e comportamento caminham juntos
A Auto Bless opera atualmente 23 linhas na Zona Sul de São Paulo e passa por um processo de eletrificação de sua frota, com a expectativa de operar integralmente com ônibus elétricos até o final deste ano.
Segundo a empresa, esse avanço tecnológico exige uma formação que vai além da operação dos veículos.
Motoristas recebem treinamento técnico contínuo, mas também participam de programas voltados ao desenvolvimento comportamental.
“A competência técnica, sozinha, não é suficiente. O equilíbrio emocional também faz parte da segurança da operação”, resume Solange.
Mulheres também ajudam a transformar o setor
Durante a entrevista, a empresa destacou ainda o programa Ela Conduz, criado para ampliar a participação feminina na operação.
Hoje, as mulheres representam entre 5% e 10% do quadro operacional, percentual que cresce continuamente por meio de programas de formação interna.
Segundo a empresa, as estatísticas observadas até o momento indicam que aproximadamente 90% a 95% dos casos relacionados aos jogos de azar envolvem homens, embora a preocupação e as ações preventivas sejam direcionadas a todos os colaboradores.
Mais do que uma iniciativa voltada ao bem-estar dos funcionários, o trabalho desenvolvido pela Auto Bless revela uma tendência que começa a ganhar espaço no transporte coletivo: reconhecer que cuidar da saúde mental dos profissionais também é uma estratégia de gestão operacional, prevenção de acidentes e proteção dos passageiros. Em um setor onde decisões tomadas em poucos segundos podem afetar centenas de pessoas, investir no equilíbrio emocional dos motoristas deixa de ser apenas uma ação de recursos humanos e passa a integrar diretamente a política de segurança das empresas.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


