Como a medicina do sono pode ter influência direta no bem-estar dos motoristas nas rodovias brasileiras
Publicado em: 23 de julho de 2026
Programa do Grupo Guanabara estuda o relógio biológico dos motoristas e revela como a medicina preventiva nas empresas salva vidas diariamente, mitigando acidentes por sonolência
VINÍCIUS DE OLIVEIRA
Quando um passageiro embarca em um ônibus interestadual para uma jornada noturna, ele dificilmente imagina a complexa estrutura científica operando nos bastidores para garantir que o profissional ao volante esteja em seu ápice físico e mental. Na área de segurança viária, o debate ganhou uma perspectiva biológica essencial nos estudos sobre a saúde do sono. Longe de ser apenas uma questão de “descansar antes de viajar”, o monitoramento preventivo do relógio biológico tornou-se um pilar inegociável de segurança viária.
Como parte dessa abordagem, o Grupo Guanabara mantém há cerca de 20 anos, em suas empresas de transporte rodoviário, a adesão ao Programa de Medicina do Sono. Baseada na metodologia patenteada pelo médico especialista Dr. Sérgio Vieira Barros, que também realiza a coordenação técnica da iniciativa, a ação conta com laboratórios próprios equipados no Rio de Janeiro e em Brasília. No local, são realizados exames de polissonografia e monitoramento constante para mapear distúrbios que muitas vezes o próprio trabalhador desconhece, como a apneia ou a insônia crônica. O objetivo central vai além de evitar acidentes; trata-se de medicina preventiva voltada à qualidade de vida.
“O sono de qualidade é um regulador emocional e físico. Transtornos de sono não tratados são gatilhos silenciosos para quadros de ansiedade, depressão e exaustão extrema”, explica Dr. Sérgio. “Ao tratarmos a saúde clínica do motorista de forma personalizada, conseguimos zerar estatísticas de acidentes graves por sonolência e devolver o bem-estar desse profissional que exerce uma função de altíssima responsabilidade”.
A matemática do relógio biológico
O cuidado começa antes mesmo da contratação. Na fase seletiva para as contratações de novos motoristas, os candidatos respondem a um mapeamento de cronotipo, uma ferramenta científica que identifica se o indivíduo performa melhor como matutino (diurno), vespertino (noturno) ou intermediário. A partir daí, o Centro de Controle Operacional (CCO) planeja as escalas de viagem em total compatibilidade com o relógio biológico de cada motorista. Quem tem perfil matutino, por exemplo, é proibido de assumir escalas na madrugada.
Para os profissionais liberados para o período noturno após passarem pelo Teste de Manutenção de Vigília (TMV) em simuladores, a rotina ganha contornos de alta tecnologia. Antes de ligar o motor, cada motorista realiza o “Teste Atento”, um exame computadorizado de atenção rápida que avalia o estado físico e emocional do condutor naquele exato minuto, emitindo dados técnicos sobre sua aptidão para dirigir. Durante o trajeto, câmeras inteligentes com inteligência artificial monitoram os sinais faciais de fadiga em tempo real, conectadas a uma central operacional 24 horas.
Engenharia contra o cansaço
Um dos pontos mais inovadores da operação são as 16 Salas de Estimulação posicionadas estrategicamente em pontos de parada nas rodovias, como na Dutra ou no município de Juiz de Fora (MG). Funcionando estritamente das 18h às 6h, esses espaços foram desenhados para “enganar” a fisiologia do sono.
Enquanto os passageiros lancham durante o tempo de pausa na viagem, o motorista entra em uma sala imersa em luz de altíssima intensidade. A exposição luminosa atua diretamente no cérebro, inibindo a produção de melatonina (o hormônio do sono). No local, eles realizam alongamentos e exercícios leves em bicicletas ergonômicas para elevar a pressão arterial a níveis normais de vigília, além de consumirem um lanche balanceado projetado por nutricionistas, evitando refeições pesadas que causam a conhecida “sonolência pós-prandial”.
Para Letícia Pineschi, Diretora de Marketing da Guanabara, dar visibilidade a esses bastidores é uma forma de humanizar o debate sobre segurança viária e reconhecer o impacto da rotina nas estradas sobre a saúde dos rodoviários. “Esse olhar é essencial para lançar luz sobre a segurança no trânsito. Para nós, porém, esse ecossistema de saúde e tecnologia funciona 365 dias por ano, em cada viagem, porque a segurança é um valor inegociável. Entender que, por trás de uma viagem tranquila, existe ciência aplicada ao bem-estar do motorista transforma a percepção do passageiro sobre o cuidado e o valor da vida nas estradas”, destaca.
Vinícius de Oliveira, para o Diário do Transporte


