EXCLUSIVO ANTT divulga estatísticas que mostram queda pelo terceiro ano seguido do número de passageiros e 9,6 mil empresas autorizadas a operar

Para especialista Ilo Löbel da Luz, resultado mostra que que há um desequilíbrio entre oferta e demanda, com frota que cresce e viagens cada vez mais vazias. O aproveitamento caiu

ADAMO BAZANI

Pelo terceiro ano consecutivo, depois do pico de 2023, quando o segmento de ônibus rodoviários estava em recuperação dos efeitos econômicos da pandemia de covid-19, o número de passageiros das linhas interestaduais caiu.

É o que revela o anuário estatístico da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) nesta segunda-feira, 13 de julho de 2026.

Foram transportados 36,7 milhões de passageiros em 2025, o terceiro ano seguido de queda após o pico de 43,1 milhões em 2023. A retração acumulada 2023-2025 foi de aproximadamente 15%. A média diária ficou em 100 mil passageiros. Dezembro, janeiro e julho concentraram os maiores volumes mensais, o que confirma que o calendário de férias escolares ainda comanda o ciclo de demanda do setor.

O volume de viagens seguiu direção oposta à de passageiros: 1,7 milhão de viagens realizadas em 2025, praticamente estável frente às 1,68 milhão de 2024, e um crescimento de mais de 50% frente a 2021 (1,13 milhão).

Em entrevista ao Diário do Transporte, o advogado e analista especializado em regulação do TRIP – Transporte Rodoviário Interestadual de Passageiros, Ilo Löbel da Luz, o resultado mostras que a malha operacional continuou crescendo mesmo com menos passageiro por viagem.

“O aproveitamento caiu. É um dos dados mais preocupantes do relatório” – disse Ilo Löbel ao criador e editor-chefe do Diário do Transporte, Adamo Bazani

APROVEITAMENTO:

O Índice de Aproveitamento de Passageiros (IAP) caiu de 59,7% em 2024 para 56,9% em 2025, recuo de 2,8 pontos percentuais. O Passageiro-Quilômetro Pagante, que mede a produção real do transporte, caiu 15,2% no mesmo período, para 20,3 bilhões. Frota crescendo (32.341 veículos em 2025, alta de 33,58% desde 2021), linha ativa estável em torno de 2,1 mil, e ocupação caindo. Isso é o retrato de um setor que ampliou capacidade mais rápido do que ampliou demanda.

PULVERIZAÇÃO ENTRE EMPRESAS:

Mais de 72% das empresas ativas operam entre 1 e 10 linhas. Na comparação com 2024, o segmento de 21 a 30 linhas cresceu 54,5%, sinal de consolidação entre operadores médios, enquanto empresas com mais de 50 linhas recuaram 72,7% e as de 41 a 50 linhas recuaram 44,4%. Ou seja, o topo do mercado está encolhendo em quantidade de operadores grandes, e o meio está ganhando força.

Segundo a ANTT, são agora cerca de 9,6 mil empresas autorizadas a operar, sendo 176 viações no sistema regular rodoviário interestadual e as demais operam serviços de fretamento e os regulares suburbanos e internacionais.

De acordo com Ilo Löbel, há um desequilíbrio entre oferta e demanda, com frota que cresce e viagens cada vez mais vazias.

“O TRIP de 2025 não é um setor em recessão de demanda estrutural. É um setor em desequilíbrio entre oferta e aproveitamento. Frota cresceu 33% em cinco anos, mas o IAP caiu e o Pass.Km caiu 15% em um único ano. Isso indica que parte relevante da capacidade instalada está rodando vazia, o que pressiona margem mesmo com tarifa em alta. A pulverização também segue avançando, com operador pequeno dominando em quantidade, mas operador médio ganhando espaço mais rápido que o grande”. – disse

O especialista ainda aponta que médias operadores estão entre os que mais crescem

“Quem está no meio dessa faixa (21 a 30 linhas) está numa posição de crescimento real dentro do setor, o resto está disputando o mesmo bolo de demanda estagnada com mais assento ofertado”.  – destacou.

Por meio de nota ao Diário do Transporte, a ANTT destaca que a frota, relativamente nova e que existes cadastrados em todo o sistema, 30 mil veículos e 90

Os dados revelam a dimensão de um serviço que conecta pessoas e municípios em todas as regiões do país. O sistema regulado movimenta em média mais de 100 milhões de passageiros por ano e realiza aproximadamente 3,2 milhões de viagens anuais, garantindo deslocamentos entre diferentes localidades do território brasileiro. Por trás de cada viagem existe uma estrutura formada por empresas autorizadas, veículos e profissionais responsáveis pela operação do serviço. O TRIIP 2025 mostra que o setor conta com mais de 90 mil motoristas habilitados, frota superior a 30 mil veículos, sendo mais de 80% com menos de 10 anos de fabricação, e cerca de 9,6 mil empresas autorizadas a operar.

Ilo Lobel ainda explicou que o levantamento dá uma base técnica para acompanhar sua evolução e a implementação do novo marco regulatório.

Em 2025, o transporte regular contava com 176 empresas em operação nas linhas reguçares . Desse total, mais de 72% operavam entre uma e dez linhas, enquanto aumentou a participação das empresas na faixa de 21 a 30 linhas e diminuiu o número de operadores nas faixas superiores. Embora o número de empresas tenha permanecido praticamente estável, os dados indicam mudanças na distribuição das linhas entre os operadores.

Esse cenário também ajuda a compreender o estágio de implementação do novo marco regulatório. A entrada de novos operadores ainda depende da conclusão das janelas de abertura previstas na Resolução ANTT nº 6.033/2023. Antes da abertura da janela ordinária, será necessário consolidar a fase extraordinária, colocar em operação os mercados autorizados e concluir um ciclo anual de monitoramento. Somente após essa etapa a ANTT terá elementos para classificar os mercados como principais ou subsidiários e dar continuidade ao processo de abertura, segundo Ilo.

Essa dinâmica revela uma característica importante do novo modelo regulatório: a evolução do mercado passa a depender não apenas do cumprimento de etapas administrativas, mas também do acompanhamento do desempenho efetivo das operações.

Os reflexos dessa mudança vão além do ambiente regulatório. O transporte rodoviário interestadual conecta milhares de municípios, viabiliza o deslocamento diário de milhões de pessoas e desempenha papel estratégico na integração econômica e social do país. Quanto maior a capacidade de compreender o funcionamento desse sistema, maiores são as condições de aperfeiçoar políticas públicas, reduzir incertezas regulatórias e estimular investimentos.

O TRIIP 2025 também evidencia a capacidade de adaptação do setor. Mesmo com a redução da demanda em relação ao pico registrado em 2023, o sistema manteve praticamente sua estrutura operacional. Em 2025, operou com mais de 2.100 linhas, realizou aproximadamente 3,3 milhões de viagens e transportou cerca de 100 mil passageiros por dia, mantendo uma frota superior a 32 mil veículos habilitados.

Outro aspecto relevante é a consolidação de uma base de informações cada vez mais abrangente sobre o setor. O relatório reúne indicadores de passageiros, frota, linhas, cobertura geográfica, operação e desempenho, permitindo uma leitura integrada do transporte rodoviário interestadual.

Uma visão além dos números

Para o advogado especializado em regulação do transporte rodoviário interestadual Ilo Löbel da Luz , o principal avanço do TRIIP 2025 não está na quantidade de informações divulgadas, mas na forma como elas são organizadas.

“O relatório permite observar o transporte rodoviário interestadual como um sistema integrado. Em vez de analisar isoladamente passageiros, frota ou linhas, ele reúne informações que ajudam a compreender como esses elementos se relacionam. Isso amplia a capacidade de identificar tendências, avaliar resultados e entender os efeitos das mudanças regulatórias.”

Segundo Ilo, esse é um avanço institucional que tende a produzir efeitos importantes para o setor.

“Durante muito tempo, a análise regulatória esteve concentrada, principalmente, no cumprimento das obrigações por cada operador. O TRIIP 2025 evidencia uma evolução: passa a existir uma base de informações que permite observar também o desempenho do sistema como um todo. Quanto melhor se conhece o funcionamento do transporte rodoviário interestadual, maiores são as condições de aperfeiçoar a regulação, orientar investimentos e melhorar a qualidade dos serviços.”

Na avaliação do especialista, esse é o principal legado do relatório.

“Regulação eficiente começa por um bom diagnóstico. O TRIIP 2025 mostra que o setor passa a conhecer melhor a si mesmo. Esse talvez seja o avanço mais importante revelado pela publicação.”

O advogado ainda defende que os dados sejam usados pela própria ANTT para que tome decisões com base em evidências e não apenas em meras convicções.

“Mais do que um levantamento estatístico, o TRIIP 2025 oferece uma base técnica para acompanhar a evolução do transporte rodoviário interestadual. Ao consolidar informações sobre operação, demanda, infraestrutura e desempenho, o relatório amplia a compreensão sobre o funcionamento do setor e cria melhores condições para que decisões regulatórias e empresariais sejam fundamentadas em evidências”. – concluiu.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Informe Publicitário
Assine

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

     
Comentários

Comentários

  1. Paulo Viana Pires Viana disse:

    Para um país igual o Brasil de extensão continental 176 empresas de ônibus é muito pouco poderia ser o dobro.

  2. Rodrigo disse:

    Qualidade do serviço em queda, valores das passagens em alta e poder de compra cada vez mais achatado pela inflação que o governo insiste em dizer que “não existe”… Entre comer e viajar, o que você escolheria? Para completar, a agência reguladora, quando pode, ainda remove o melhor prestador de serviço — refiro-me ao caso da GS (Guerino Seiscento). Com esses ingredientes, o resultado da receita não poderia ser diferente: queda no número de passageiros.

  3. João Wilton Fialho disse:

    Com valor das passagens caras, as pessoas deixam de viajar, e outra coisa, por exemplo o uso de transporte alternativo, como o blá-blá que sai de Cabo Frio para o Rio, com um valor que as pessoas arriscam em pagar

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Diário do Transporte

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo