Compra da JBL pela Garcia revela estratégia que somente grupos altamente estruturados têm condições de adotar, diz analista de mercado rodoviário

Para Ilo Löbel da Luz, ao Diário do Transporte, mais que frota, adquirir um conjunto de autorizações já consolidado, ainda mais com regras mais rígidas bilaterais, não é para poucos. Criador e editor-chefe, Adamo Bazani, informou em primeira-mão

ADAMO BAZANI

A semana tem sido bem agitada no segmento de ônibus rodoviários. Além de decisões de grande abrangência, a exemplo da suspensão provisória pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), André Mendonça, da primeira janela de 50 mil mercados para novas ligações interestaduais, como noticiou em primeira-mão o Diário do Transporte, do ponto de vista de mercado, um dos principais assuntos foi a compra da empresa JBL Internacional pela Viação Garcia.

A aquisição, entretanto, é emblemática e vai muito além de uma negociação entre empresas.

Segundo ao advogado especializado e analista do TRIP (Transporte Rodoviário Interestadual de Passageiros), Ilo Löbel da Luz, ao Diário do Transporte, revela tendências e é emblemática sob vários aspectos.

A formalização do negócio, que estava sendo discutido algumas semanas antes, ocorreu na quarta-feira, 08 de julho de 2026, e a informação foi confirmada momentos depois ao editor-chefe e criador do Diário do Transporte, Adamo Bazani, pelo vice-presidente do conglomerado paranaense, Estefano Boiko Júnior.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/07/09/em-primeira-mao-viacao-garcia-assume-oficialmente-jbl-nesta-quarta-feira-08-se-tornando-empresa-de-operacao-internacional-veja-antes-e-completo-no-diario-do-transporte/

Com a compra, a Viação Garcia, que já atua nos transportes metropolitanos, intermunicipais e interestaduais, passa a ser também empresa de linhas internacionais.

Figuram como exemplos ligações entre São Paulo e Buenos Aires (Argentina), Rio de Janeiro e Buenos Aires, Rio de Janeiro e Santiago (Chile) e Balneário Camboriú e Buenos Aires, por exemplo. Estas linhas serão operadas a partir de agora pela Viação Garcia.

Entre os aspectos emblemáticos é que uma das empresas brasileiras mais antigas em operação, fundada em 1934, e que segundo rankings oficiais da própria ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) figura entre as com melhor reputação, agora ultrapassa as fronteiras.

Além disso, revela uma estratégia que é para poucos e não basta ter somente dinheiro, mas estrutura operacional, gestão qualificada e capacidade de se adequar às mais diferentes normas e exigentes acordos bilaterais, que contemplam mais que operações, mas até questões de segurança pública e sanitárias.

Outro ponto é que, muito mais que frota, este tipo de compra revela que um dos grandes ativos do setor é o conjunto regulatório já montado.

Conseguir uma autorização internacional de linha é possível, mas é um procedimento que demanda tempo e burocraticamente desgastante.

Para Ilo Löbel da Luz, advogado e consultor especializado em Inteligência Regulatória para o Transporte Rodoviário Interestadual de Passageiros (TRIP), esse tipo de operação deve ser analisado principalmente pelos ativos regulatórios incorporados.

“No transporte internacional, o principal ativo não é apenas a operação. É o conjunto de autorizações e licenças que a empresa já conquistou. Essas autorizações dependem de processos seletivos, requisitos regulatórios e, em muitos casos, de acordos bilaterais entre os países. Ao adquirir uma empresa que já possui essa estrutura, o grupo incorpora um ativo estratégico cuja construção demanda tempo e elevado grau de complexidade.”

Segundo o especialista, a operação também demonstra uma estratégia de posicionamento em um segmento que apresenta características distintas do mercado doméstico.

“Grande parte dos investimentos do setor continua concentrada nos mercados nacionais. O transporte internacional possui menos operadores, requisitos regulatórios mais rigorosos e processos de aprovação mais longos. Isso faz com que a análise de risco e retorno seja bastante diferente da observada nas operações internas.”

Na avaliação de Löbel da Luz, a aquisição evidencia uma transformação na forma como o setor passou a avaliar o valor das empresas.

“Frota pode ser ampliada com investimento. Já um conjunto consolidado de autorizações nacionais e internacionais leva anos para ser construído. Em muitos casos, a aquisição de uma empresa representa também a incorporação desse tempo regulatório.”

O advogado ressalta, entretanto, que ativos regulatórios também possuem riscos próprios.

“As licenças internacionais estão vinculadas ao cumprimento da regulamentação brasileira e dos acordos bilaterais firmados entre os países. Alterações nesses instrumentos podem impactar as condições de operação, razão pela qual esses ativos exigem acompanhamento regulatório permanente.”

Para o especialista, a operação da Garcia revela uma tendência que tende a se intensificar nos próximos anos.

“No ambiente regulatório atual, o valor de uma transportadora é formado pela combinação entre capacidade operacional e ativos regulatórios. As empresas que conseguirem reunir esses dois elementos estarão mais bem posicionadas para crescer em mercados de maior complexidade, como o transporte internacional.”

A Garcia não adquiriu uma empresa fraca e agonizante, o que poderia facilitar uma negociação.

A JBL registrou significativas expansões nos últimos anos.

Nos últimos anos, a JBL consolidou sua atuação nesse segmento. Em 2022, recebeu autorização para ampliar a operação da linha Rio de Janeiro (RJ) – Santiago (Chile), com a inclusão de novas seções entre cidades da Região Sul.

Em 2024, com a implementação do novo marco regulatório da ANTT, a empresa adequou sua Licença Operacional e obteve novos Termos de Autorização para explorar a linha São Paulo (SP) – Uruguaiana (RS), nos dois sentidos, ampliando sua presença entre São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

No ano seguinte, a JBL foi contemplada no processo seletivo promovido pela ANTT para operar a linha Jundiaí (SP) – Assunção (Paraguai), posteriormente homologada com licença internacional válida por dez anos.

A JBL Internacional tem sede no Rio Grande do Sul e opera linhas regulares para países da América do Sul, como Argentina e Chile.

A companhia, fundada em 2008, também atua no setor de fretamento por ônibus, micro-ônibus e vans para fretamento.

O Grupo Garcia-Brasil Sul é um dos maiores do ramo rodoviário do Brasil. A Viação Garcia figura entre a companhias do setor mais antigas em operação ainda, tendo sido fundada em 1934. Já a Brasil Sul, criada em 2004, acabou “englobando” a companhia tradicional.

De parte da família Boiko, a Brasil Sul adquiriu a Garcia em 2014.

O Grupo possui ainda a Londrisul, de Londrina (PR), empresa de ônibus urbanos.

Como mostrou o Diário do Transporte, em novembro de 2023, foi a vez da empresa Santo Anjo da Guarda, de Santa Catarina, fundada em 24 de fevereiro de 1947 por Herbert Falk, ser comprada pelo Grupo GBS.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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