Do dado bruto à confiança do passageiro: por que a inteligência operacional virou peça-chave no transporte público
Publicado em: 27 de maio de 2026
Maurício Corte, da Clever Devices, afirma que a transformação do transporte coletivo depende da capacidade de converter dados operacionais brutos em informação tratada, útil e confiável para passageiros, operadores e gestores
ALEXANDRE PELEGI
O transporte público ainda enfrenta um desafio que vai muito além da operação: reconquistar a confiança das pessoas. Em um cenário em que ônibus, trens e metrôs frequentemente são vistos como “a opção de quem não tem alternativa”, cresce a percepção de que tecnologia e inteligência operacional podem desempenhar um papel decisivo para mudar essa relação entre o sistema e o passageiro. Para Maurício Corte, VP de Contas Estratégicas LATAM da Clever Devices, a transformação começa pela forma como o setor consegue converter dados operacionais em informação útil e, posteriormente, em inteligência aplicada à mobilidade urbana.
“O transporte público urbano ainda carrega uma percepção muito negativa. Ele continua sendo visto por muita gente como uma solução para quem não tem escolha, e não como uma opção legítima de mobilidade. Isso é resultado de experiências ruins acumuladas ao longo do tempo e de uma construção social associada à ineficiência”, afirma Maurício Corte. “Para romper esse ciclo, é preciso mudar a relação entre o usuário e o sistema. E essa mudança passa diretamente pela maneira como usamos os dados operacionais para gerar informação relevante.”
Segundo ele, o setor já produz um volume gigantesco de registros diariamente, mas ainda aproveita pouco desse potencial.
“Cada ônibus em circulação produz milhares de registros operacionais todos os dias: velocidade, paradas, tempo de embarque, intervalos entre veículos e condições de trânsito. Mas dado bruto, isoladamente, não é informação. É apenas matéria-prima, muitas vezes desorganizada e pouco utilizável”, explica. “A informação surge quando esses dados são tratados, correlacionados, contextualizados e transformados em algo compreensível e aplicável à operação e à experiência do passageiro.”
Maurício Corte ressalta que o grande desafio do transporte público moderno não está mais na coleta de dados.
“O desafio hoje não é produzir dados, porque o sistema já gera volumes enormes disso o tempo inteiro. O ponto central é transformar esse material bruto em informação tratada, confiável e útil para operadores, gestores e passageiros. Só depois dessa etapa é possível avançar para níveis mais sofisticados de inteligência aplicada”, afirma.
Para ele, previsibilidade e confiança caminham juntas.
“A diferença entre esperar sem saber quando o ônibus vai chegar e ter a informação de que ele passará em cinco minutos parece pequena, mas muda completamente a experiência do usuário”, diz. “Quando uma pessoa no metrô deixa passar um trem lotado porque sabe que o próximo vem em três minutos, ela está exercendo controle sobre o próprio tempo. Isso é extremamente poderoso. Informação confiável gera sensação de segurança e melhora a percepção de qualidade do serviço.”
O executivo destaca que os sistemas inteligentes de transporte vão muito além do rastreamento de veículos.
“Muita gente ainda associa ITS apenas ao GPS do ônibus, mas estamos falando de algo muito mais sofisticado. Esses sistemas consolidam informações de operação, frequência, desempenho e comportamento da frota em tempo real”, afirma. “Isso permite que gestores acompanhem desvios operacionais e atuem preventivamente antes que um problema se espalhe pela rede.”
Na avaliação dele, o transporte urbano exige soluções tecnológicas capazes de lidar com ambientes extremamente dinâmicos e imprevisíveis.
“Os modelos determinísticos tradicionais funcionam relativamente bem em cenários estáveis, mas o transporte urbano está longe de ser estável. Trânsito, acidentes, clima, eventos inesperados e variações de demanda mudam o cenário o tempo inteiro”, observa. “Por isso existe um risco quando o mercado transforma qualquer solução digital em algo revolucionário. Muitas vezes a tecnologia apenas digitaliza processos antigos sem resolver os problemas reais.”
Maurício Corte afirma que a inovação verdadeira ocorre quando a tecnologia consegue agir sobre a complexidade operacional do sistema.
“O avanço concreto está em soluções capazes de processar incertezas, redistribuir frota dinamicamente, ajustar rotas em tempo real e antecipar problemas antes que eles se transformem em crises operacionais”, explica. “Se o sistema identifica, por exemplo, que veículos estão começando a se agrupar em um corredor e corrige automaticamente a operação para evitar o efeito comboio, isso tem impacto direto na experiência do passageiro.”
Segundo ele, os ganhos vão muito além da relação com o usuário.
“A manutenção deixa de ser apenas corretiva e passa a incorporar lógica preditiva. Isso reduz custos, aumenta disponibilidade da frota e melhora a eficiência operacional”, afirma. “Ao mesmo tempo, os operadores conseguem adequar a oferta à demanda real, e não apenas a estimativas feitas meses antes. E os gestores passam a tomar decisões estratégicas com base em informações concretas, não em percepção ou intuição.”
O executivo faz um alerta de que a transformação digital também exige governança e transparência.
“Existem desafios importantes relacionados à fragmentação de bases de dados, sistemas legados difíceis de integrar e questões de privacidade”, diz. “Além disso, quando algoritmos passam a influenciar decisões operacionais, contratuais ou de distribuição de recursos, transparência e auditabilidade se tornam fundamentais. Não basta o sistema funcionar; ele precisa ser compreensível e confiável.”
Para Maurício Corte, o futuro do transporte coletivo dependerá da capacidade de equilibrar eficiência tecnológica e responsabilidade pública.
“O transporte público do futuro precisa combinar diferentes abordagens tecnológicas, mas sempre com foco no interesse público”, conclui. “Quando isso acontece, o transporte coletivo deixa de ser visto como última alternativa e passa efetivamente a competir com outras formas de deslocamento urbano.”
E acrescenta: “Reconquistar a confiança do cidadão não será um processo rápido. Mas cada vez que alguém consegue planejar sua viagem, receber uma informação precisa e chegar ao destino conforme esperado, damos um passo nessa direção. A verdadeira revolução é devolver às pessoas algo que nunca deveria ter sido perdido: a confiança de que o sistema vai funcionar quando elas precisarem.”
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

