No Maio Amarelo, Semove alerta para riscos no uso de motos para transporte de passageiros devido ao maior número de acidentes
Publicado em: 9 de maio de 2026
Falta de regulamentação no serviço de aplicativos contribui para aumento da insegurança viária. Pesquisa revela que faixas exclusivas podem não ser a solução
VINÍCIUS DE OLIVEIRA
No Maio Amarelo, a Semove, entidade que representa 174 empresas em todo o Estado, chama a atenção para o crescimento no uso de motos como transporte de passageiros em serviços de aplicativo, o que vem aumentando o índice de acidentes, causando impacto no trânsito e pressionando o sistema de saúde pública. A insegurança viária constatada diariamente por motoristas e usuários de transporte é confirmada por dados consolidados pelo Corpo de Bombeiros: 77% das ocorrências de trânsito na capital fluminense envolvem motocicletas, o equivalente a um acidente a cada 25 minutos.
A gravidade da situação é confirmada também pela rede municipal de saúde, onde a média de 80 feridos por dia classifica o quadro como um risco sistêmico à saúde pública. Esse fenômeno é alimentado por uma migração preocupante de passageiros do transporte público para o transporte individual, um movimento que expõe a população a riscos extremos em busca de agilidade em seus deslocamentos. Para agravar a situação, o uso de motos por aplicativos não é regulamentado, faltando informações até mesmo sobre a quantidade de profissionais dedicados ao transporte.
Entre os operadores de ônibus, a sensação não é diferente e a preocupação é a mesma: as motos já representam até 50% das colisões registradas nas diferentes vias da Região Metropolitana. O ônibus é responsável pelo transporte de um terço da população e registra um índice de 0,02% dos acidentes, enquanto a motocicleta concentra a imensa maioria dos traumas graves e mortes.
Para a Semove, a transferência de usuários do sistema coletivo para as duas rodas representa uma falha estrutural na mobilidade urbana. Sob essa ótica, a motocicleta deve ser compreendida como um sintoma de um sistema que falha coletivamente, induzindo o cidadão ao modo mais vulnerável por falta de alternativas de transporte público que ofereçam a eficiência e a previsibilidade necessárias. Para tanto, é imprescindível investimentos em infraestrutura que tornem as viagens de ônibus mais rápidas, com horários regulares.
“A migração de passageiros do transporte coletivo para as motocicletas é o principal sintoma de um sistema de mobilidade que exige urgentes ajustes. Ao trocar os ônibus pela vulnerabilidade das duas rodas, o cidadão é empurrado para um cenário de risco extremo em busca de uma agilidade que muitas vezes custa a própria vida”, afirma Eunice Horácio, Gerente de Mobilidade da Semove.
O debate público sobre os riscos gerados pela maior utilização de motos no transporte de passageiros ganha profundidade com o estudo “Impacto da Faixa Azul na Segurança Viária”, conduzido por pesquisadores da USP e da Universidade Federal do Ceará. A pesquisa demonstra que intervenções de sinalização exclusiva, como a Faixa Azul de São Paulo, podem ser prejudiciais. O estudo identificou um aumento médio de 100% a 120% nos acidentes fatais em cruzamentos. Em trechos de fluxo livre, a velocidade média sobe de 58,3 km/h para 72,2 km/h, um salto de 24% que agrava a letalidade das colisões.
A reversão da crise de segurança viária exige a aplicação rigorosa de um tripé estratégico que integra as frentes de engenharia, educação e fiscalização, de acordo com Eunice Horácio. No campo da engenharia, a prioridade deve ser a melhoria da infraestrutura e da atratividade do transporte coletivo como meio para desencorajar a migração de passageiros para modais de alto risco.
Na visão da especialista, esse esforço deve ser acompanhado por ações educativas permanentes, focadas em campanhas que evidenciem o perigo iminente associado ao uso da motocicleta em comparação com a proteção oferecida pelo sistema estruturado de ônibus. De forma complementar, a fiscalização precisa atuar com rigor no monitoramento de velocidade, regularidade da habilitação e conduta dos condutores nas vias, combatendo a normalização do risco e assegurando o cumprimento das normas de segurança.
Vinícius de Oliveira, para o Diário do Transporte


