Memória ferroviária vira ferramenta de desenvolvimento cultural e movimenta R$ 29 milhões na economia brasileira

Projetos “Estação” e “Identidades”, realizados ao longo da Estrada de Ferro Vitória a Minas, unem preservação histórica, formação cultural, turismo ferroviário e impacto social em municípios de Minas Gerais e Espírito Santo

ALEXANDRE PELEGI

A preservação da memória ferroviária brasileira vem se consolidando também como instrumento de desenvolvimento econômico, valorização territorial e fortalecimento cultural. Projetos realizados ao longo da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) mostram como histórias ligadas aos trilhos podem gerar impacto social, movimentar a economia criativa e transformar antigas referências ferroviárias em ativos culturais e turísticos.

As iniciativas “Estação” e “Identidades”, desenvolvidas respectivamente pela Horus Planejamento e Gestão e pela Culturama Gestão e Eventos, somaram em 2025 uma injeção de R$ 3,9 milhões na economia da cultura, com impacto estimado superior a R$ 29 milhões para a economia brasileira.

Os projetos percorrem o trajeto ferroviário entre Cariacica, no Espírito Santo, e Belo Horizonte, em Minas Gerais, envolvendo comunidades de 42 municípios ligados historicamente à EFVM.

A proposta reúne registros fotográficos, documentários, oficinas culturais, exposições, inventários afetivos e relatos de moradores que construíram suas vidas ao redor da ferrovia.

Segundo os idealizadores, a iniciativa busca preservar não apenas estruturas físicas, mas principalmente as memórias cotidianas de milhões de passageiros que utilizaram a ferrovia ao longo das décadas.

“Antigamente, o trem carregava galinha, porco, fumo de rolo, mudança. Vinha até cabrito!”, relata Dona Antônia, uma das entrevistadas do projeto, ao relembrar o papel histórico dos trens na integração regional.

O projeto “Estação”, idealizado por Preto Filho, trabalha principalmente com jovens entre 16 e 25 anos por meio de oficinas de fotografia, audiovisual e intervenções artísticas em espaços públicos. Já o “Identidades”, coordenado por Diego Ribeiro, concentra-se na preservação da memória afetiva ferroviária por meio de entrevistas, registros culturais e produção de livros-inventário.

Segundo Preto Filho, a proposta vai além do resgate histórico tradicional.

“O principal diferencial do ‘Estação’ reside na capacidade de integrar memória, cultura e arte em uma abordagem estruturada de legitimidade e percepção do território, ainda pouco explorada no campo do ESG”, afirma.

O projeto também busca aproximar comunidades da noção de pertencimento cultural ligada à ferrovia, utilizando arte e formação como ferramentas de transformação social.

Já Diego Ribeiro destaca que o “Identidades” trabalha a memória como elemento ativo de desenvolvimento regional.

“O projeto ‘Identidades’ se destaca por não ser apenas um registro histórico, mas uma iniciativa de impacto sistêmico que utiliza a cultura como motor de desenvolvimento e preservação da memória e do patrimônio”, explica.

As ações incluem festivais culturais, rodas de conversa, exposições e produção editorial construída em tempo real com participação direta das comunidades envolvidas.

Os organizadores afirmam que os projetos também vêm fortalecendo o turismo ferroviário nos municípios atendidos, transformando os territórios em espaços de experiências culturais associadas à ferrovia.

O trabalho contempla cidades do Espírito Santo e de Minas Gerais, incluindo Belo Horizonte, Itabira, Nova Era, João Monlevade, Cariacica, Vila Velha, Serra, Colatina e Baixo Guandu, entre outras.

Entre os resultados apresentados pelos projetos em 2025 estão:

  • mais de 300 pessoas com memórias registradas;
  • mais de 5 mil fotografias produzidas em cada iniciativa;
  • 80 jovens capacitados em fotografia e audiovisual;
  • 192 horas de atividades formativas;
  • 21 apresentações culturais;
  • instalações artísticas em sete municípios;
  • exposições integradas ao Circuito da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte.

Segundo os responsáveis, a iniciativa foi viabilizada por meio do Recurso para Preservação da Memória Ferroviária da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), com articulação e parceria da Vale.

Preto Filho afirma que o pioneirismo do projeto também está ligado ao fato de ter sido uma das primeiras iniciativas culturais aprovadas dentro do mecanismo vinculado à preservação da memória ferroviária.

“É um dispositivo de engajamento social que promove legitimidade e percepção do território através de relacionamento e presença real junto das comunidades por onde a Vale transaciona e interfere”, afirma.

Os projetos devem continuar até 2028, ampliando o número de municípios atendidos e expandindo as ações culturais e educativas ao longo da EFVM.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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