Expresso União, do Grupo Comporte, renuncia à linha Goiânia–Catalão e reforça redesenho silencioso do transporte intermunicipal em Goiás

Ônibus da Expresso União em Catalão (GO)

Decisão confirma tendência de ajuste de mercado por inviabilidade econômica e sobreposição de linhas, com regulação atuando mais como homologadora do que indutora

ALEXANDRE PELEGI

A Agência Reguladora de Goiás (AGR) homologou a renúncia da Expresso União Ltda, empresa do Grupo Comporte, da família Constantino, ao Termo de Autorização nº 298/2025, que permitia a operação da linha intermunicipal nº 1029800, ligando Goiânia a Catalão, via Bela Vista de Goiás, São Miguel do Passa Quatro e Orizona. A empresa alegou inviabilidade econômica da operação, sustentando que o trajeto já é integralmente atendido por outras operadoras, o que comprometeria a demanda necessária para sua manutenção.

Pela legislação estadual, a renúncia é uma prerrogativa da própria autorizatária e não depende de anuência do poder regulador, cabendo à AGR apenas formalizar a extinção da autorização. Com isso, a linha deixa de ser operada pela Expresso União, sem impacto imediato na oferta ao usuário, já que o eixo permanece atendido por outras empresas.

É a partir desse caso concreto — que combina sobreposição de linhas, decisão unilateral da operadora e atuação formal da regulação — que se desenvolve a análise a seguir sobre o atual modelo do transporte intermunicipal em Goiás.

1. Sobreposição de linhas: concorrência ou redundância?

O ponto central da decisão é a constatação de que o mercado já atende plenamente o trecho por outras operadoras. A existência de duas linhas alternativas — uma praticamente idêntica no trajeto — evidencia um fenômeno recorrente no estado: a sobreposição operacional.

Nas coberturas anteriores, esse padrão já aparecia como um efeito direto do modelo de autorização. Ao permitir que múltiplos operadores atuem em rotas similares, o sistema amplia a oferta no papel, mas não necessariamente na prática. O resultado é fragmentação de demanda e redução da viabilidade econômica — exatamente o argumento usado pela Expresso União.

Ou seja: não se trata de falta de demanda estrutural entre Goiânia e Catalão, mas de diluição dessa demanda entre operadores.

2. Renúncia como instrumento de ajuste de mercado

A decisão reafirma um aspecto chave do modelo regulatório goiano: a renúncia é prerrogativa unilateral da empresa e independe de anuência do regulador.

Esse ponto, que já vinha sendo destacado em análises anteriores, mostra que o sistema opera com baixa capacidade de retenção ou indução por parte do poder público. Diferente de contratos de concessão, onde há obrigações de continuidade, aqui a lógica é mais próxima de um mercado aberto.

Na prática, isso cria um mecanismo de “autoajuste”:

* linhas economicamente inviáveis tendem a ser abandonadas;
* operadores se reposicionam conforme a rentabilidade;
* o regulador atua a posteriori, apenas homologando.

A decisão em questão deixa isso explícito ao afirmar que não cabe veto à renúncia.

3. Continuidade do serviço: garantida, mas sem coordenação

Do ponto de vista do usuário, a decisão não gera descontinuidade — já que outras empresas operam o mesmo trecho. Esse é um dos pilares que sustentam o modelo: a ideia de que o mercado garante cobertura mínima.

No entanto, matérias anteriores já indicavam um risco estrutural: a ausência de coordenação central pode gerar:

* excesso de oferta em trechos rentáveis (como Goiânia–Catalão);
* escassez em ligações menos atrativas;
* dificuldade de planejamento integrado da rede.

Ou seja, o sistema resolve a continuidade pontual, mas não necessariamente a eficiência global.

4. O papel limitado da regulação

A decisão também reforça um padrão institucional observado nas reportagens sobre Goiás: a agência reguladora atua mais como instância formal do que como planejadora ativa da rede.

Ao afirmar que a renúncia “independe da anuência do ente regulador”, a própria decisão delimita o papel da AGR:

* não há avaliação de impacto sistêmico mais amplo;
* não há mecanismo de compensação ou redistribuição de oferta;
* não há exigência de manutenção mínima da linha.

Esse modelo contrasta com sistemas mais estruturados, onde o poder público define a rede e os operadores executam.

5. Tendência: consolidação e seleção natural

A saída da Expresso União desse mercado específico pode indicar um movimento maior de consolidação:

* operadores mais competitivos permanecem;
* linhas redundantes tendem a desaparecer;
* o sistema se ajusta pela lógica econômica, não pela lógica de política pública.

Esse processo já vinha sendo apontado em análises anteriores como uma “seleção natural” do setor — mas com efeitos ambíguos.

Conclusão: a renúncia da linha Goiânia–Catalão não é apenas uma decisão administrativa. Ela sintetiza o estágio atual do transporte intermunicipal em Goiás:

* um modelo aberto, baseado em autorizações;
* forte liberdade empresarial;
* ajuste por mercado, não por planejamento;
* regulação com papel predominantemente formal.

Funciona para garantir continuidade em eixos fortes, como este. Mas deixa em aberto uma questão central, já levantada em outras matérias: quem garante o equilíbrio da rede como um todo?

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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