Ônibus a biometano atendem metas ambientais, mas Brasil ainda carece de dados consolidados, aponta coordenador da Comissão de Meio Ambiente da ANTP
Publicado em: 14 de abril de 2026
Análise técnica de Olimpio Alvares destaca potencial da tecnologia para reduzir emissões, mas reforça necessidade de padronização nacional
ALEXANDRE PELEGI
Os ônibus movidos a biometano vêm se consolidando como alternativa viável para a descarbonização do transporte público no Brasil, mas ainda enfrentam um desafio relevante: a ausência de dados nacionais consolidados que orientem com precisão políticas públicas e decisões operacionais.
A avaliação é do engenheiro mecânico Olimpio Álvares, formado pela Poli/USP e coordenador da Comissão de Meio Ambiente da Associação Nacional de Transporte Públicos (ANTP), que analisou os parâmetros técnicos e regulatórios da tecnologia no país.
O Diário do Transporte tem acompanhado as apostas de Governos e fabricantes no combustível.
Na última sexta-feira (10), por exemplo, o diretor da Scania, Marcelo Gallão conversou com o editor-chefe e criador do Diário do Transporte, Adamo Bazani, e com a editora-chefe da TechniBus, Marcia Pinna, que revelou a criação de uma linha de modelos de ônibus para o mercado da capital paulista. Em Goiás, a aposta também é alta (veja ao fim a cobertura no local)
Relembre
Segundo Olímpio, quando substituem veículos a diesel, os ônibus a biometano podem reduzir em 100% as emissões de CO₂ fóssil no escapamento, atendendo integralmente às exigências da Lei Municipal nº 16.802/2018, de São Paulo.
Escapamento não é ciclo de vida
Um dos pontos centrais destacados por Olimpio Álvares é a confusão recorrente entre dois conceitos distintos:
– Emissões no escapamento, consideradas pela legislação paulistana;
– Emissões de ciclo de vida (ACV), que incluem toda a cadeia — da fabricação ao descarte do veículo.
De acordo com o especialista, embora estudos internacionais indiquem reduções de até 80% a 90% nas emissões totais em comparação ao diesel, o Brasil ainda não dispõe de estudos próprios suficientemente robustos para confirmar esses números com segurança.
Combustível carbono-neutro
O biometano, explica Olimpio, é um combustível renovável cuja queima não altera o balanço de carbono da atmosfera. Isso ocorre porque o CO₂ emitido já foi previamente capturado no ciclo biológico da biomassa.
Por esse motivo, na metodologia adotada em São Paulo (Planfrota/SPTrans), o fator de emissão de CO₂ fóssil para o biometano é considerado zero g/km, o mesmo critério aplicado aos ônibus elétricos no uso final da energia.
A análise também mostra desempenho favorável em relação aos poluentes locais:
– Material particulado (MP): cerca de 0,004 g/km, praticamente desprezível e com baixa toxicidade;
– Óxidos de nitrogênio (NOx): emissões abaixo da faixa entre 0,4 e 0,6 g/km que corresponde aos ônibus diesel modernos padrão Euro 6 equipados com SCR.
Segundo Olimpio Álvares, esses indicadores demonstram que a tecnologia não compromete as metas de qualidade do ar urbano e pode contribuir para sua melhoria.
Falta padronização brasileira
Apesar do potencial, o especialista alerta para uma lacuna técnica importante: o país ainda não tem fatores de emissão oficiais consolidados para diferentes tipos de ônibus a biometano.
Ele defende a realização de estudos abrangentes no Brasil, incluindo diversas tipologias de veículos — de micro-ônibus a articulados — para definição de parâmetros mais precisos a serem utilizados em ferramentas como a Planfrota.
Na conclusão, Olimpio Álvares afirma que os ônibus a biometano:
– atendem às exigências ambientais vigentes;
– não representam obstáculo às metas de descarbonização; e
– podem ser adotados em larga escala como solução complementar aos veículos elétricos.
A expansão da tecnologia no Brasil, já presente em cidades como São Paulo e Goiânia, tende a avançar à medida que o país aprofunde seus estudos técnicos e consolide parâmetros próprios para avaliação ambiental, afirma Alvares.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
GOIÂNIA
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Relembre
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Temos tecnologia plenamente disponivel aqui mesmo no Brasil, além de “matéria-prima” em abundância.
Por mais consideráveis que sejam os investimentos necessários, eles são muito inferiores ao que é necessário para a eletrificação.
Faltam apenas a vontade e a determinação políticas, pois trata-se de uma reestruturação que levará bem mais tempo do que um mandato de prefeito ou governador.
E aí precisamos de gestores competentes e que se disponham a iniciar o empreendimento, sem aquele mediocre “medinho” de que o seu sucessor venha a se beneficiar eleitoralmente.