Ônibus a biometano atendem metas ambientais, mas Brasil ainda carece de dados consolidados, aponta coordenador da Comissão de Meio Ambiente da ANTP

Análise técnica de Olimpio Alvares destaca potencial da tecnologia para reduzir emissões, mas reforça necessidade de padronização nacional

ALEXANDRE PELEGI

Os ônibus movidos a biometano vêm se consolidando como alternativa viável para a descarbonização do transporte público no Brasil, mas ainda enfrentam um desafio relevante: a ausência de dados nacionais consolidados que orientem com precisão políticas públicas e decisões operacionais.

A avaliação é do engenheiro mecânico Olimpio Álvares, formado pela Poli/USP e coordenador da Comissão de Meio Ambiente da Associação Nacional de Transporte Públicos (ANTP), que analisou os parâmetros técnicos e regulatórios da tecnologia no país.

O Diário do Transporte tem acompanhado as apostas de Governos e fabricantes no combustível.

Na última sexta-feira (10), por exemplo, o diretor da Scania, Marcelo Gallão conversou com o editor-chefe e criador do Diário do Transporte, Adamo Bazani, e com a editora-chefe da TechniBus, Marcia Pinna, que revelou a criação de uma linha de modelos de ônibus para o mercado da capital paulista. Em Goiás, a aposta também é alta (veja ao fim a cobertura no local)

Relembre

ENTREVISTA: Scania e Caio desenvolvem diferentes configurações de ônibus a biometano para a capital paulista

Segundo Olímpio, quando substituem veículos a diesel, os ônibus a biometano podem reduzir em 100% as emissões de CO₂ fóssil no escapamento, atendendo integralmente às exigências da Lei Municipal nº 16.802/2018, de São Paulo.

Escapamento não é ciclo de vida

Um dos pontos centrais destacados por Olimpio Álvares é a confusão recorrente entre dois conceitos distintos:

Emissões no escapamento, consideradas pela legislação paulistana;

Emissões de ciclo de vida (ACV), que incluem toda a cadeia — da fabricação ao descarte do veículo.

De acordo com o especialista, embora estudos internacionais indiquem reduções de até 80% a 90% nas emissões totais em comparação ao diesel, o Brasil ainda não dispõe de estudos próprios suficientemente robustos para confirmar esses números com segurança.

Combustível carbono-neutro

O biometano, explica Olimpio, é um combustível renovável cuja queima não altera o balanço de carbono da atmosfera. Isso ocorre porque o CO₂ emitido já foi previamente capturado no ciclo biológico da biomassa.

Por esse motivo, na metodologia adotada em São Paulo (Planfrota/SPTrans), o fator de emissão de CO₂ fóssil para o biometano é considerado zero g/km, o mesmo critério aplicado aos ônibus elétricos no uso final da energia.

A análise também mostra desempenho favorável em relação aos poluentes locais:

Material particulado (MP): cerca de 0,004 g/km, praticamente desprezível e com baixa toxicidade;

Óxidos de nitrogênio (NOx): emissões abaixo da faixa entre 0,4 e 0,6 g/km que corresponde aos ônibus diesel modernos padrão Euro 6 equipados com SCR.

Segundo Olimpio Álvares, esses indicadores demonstram que a tecnologia não compromete as metas de qualidade do ar urbano e pode contribuir para sua melhoria.

Falta padronização brasileira

Apesar do potencial, o especialista alerta para uma lacuna técnica importante: o país ainda não tem fatores de emissão oficiais consolidados para diferentes tipos de ônibus a biometano.

Ele defende a realização de estudos abrangentes no Brasil, incluindo diversas tipologias de veículos — de micro-ônibus a articulados — para definição de parâmetros mais precisos a serem utilizados em ferramentas como a Planfrota.

Na conclusão, Olimpio Álvares afirma que os ônibus a biometano:

atendem às exigências ambientais vigentes;

não representam obstáculo às metas de descarbonização; e

podem ser adotados em larga escala como solução complementar aos veículos elétricos.

A expansão da tecnologia no Brasil, já presente em cidades como São Paulo e Goiânia, tende a avançar à medida que o país aprofunde seus estudos técnicos e consolide parâmetros próprios para avaliação ambiental, afirma Alvares.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

GOIÂNIA

O Diário do Transporte esteve em Goiânia em março na entrega das primeiras unidades de 501 no total de ônibus biometano para o sistema metropolitano

Relembre

VÍDEO: Conheça em primeira mão os ônibus articulados a biometano do Sistema BRT de Goiânia. Diário do Transporte no local

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Comentários

Comentários

  1. Santiago disse:

    Temos tecnologia plenamente disponivel aqui mesmo no Brasil, além de “matéria-prima” em abundância.
    Por mais consideráveis que sejam os investimentos necessários, eles são muito inferiores ao que é necessário para a eletrificação.

    Faltam apenas a vontade e a determinação políticas, pois trata-se de uma reestruturação que levará bem mais tempo do que um mandato de prefeito ou governador.
    E aí precisamos de gestores competentes e que se disponham a iniciar o empreendimento, sem aquele mediocre “medinho” de que o seu sucessor venha a se beneficiar eleitoralmente.

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