Compra da Expresso JK e das operações interestaduais da Santa Maria, noticiada em primeira-mão pelo Diário do Transporte, expõe dilema entre discurso de ruptura e peso da regulação

Imagem ilustrativa criada por IA

Para especialista Ilo Löbel da Luz, aquisição de empresas autorizatárias marca mudança de posição da plataforma, que deixa de atuar apenas como contestadora do modelo regulado e passa a integrar o sistema sob regras da ANTT. Diário do Transporte trouxe a informação em primeira-mão ainda em 28 de março de 2026 por meio de apuração de Adamo Bazani

ALEXANDRE PELEGI

A compra da Expresso JK e das operações interestaduais regulares da Santa Maria pela Buser representa mais do que uma expansão empresarial. Na avaliação do advogado e consultor especializado em transporte rodoviário de passageiros Ilo Löbel da Luz, o movimento funciona como uma admissão de limites do modelo que projetou a plataforma no mercado brasileiro.

O editor-chefe e criador do Diário do Transporte, Adamo Bazani, trouxe a informação em primeira-mão ainda em 28 de março de 2026.

Vale ressaltar que, no caso da empresa Transportes Santa Maria, do ABC Paulista, a aquisição não abrange os serviços de fretamento, que continua com a família fundadora que atua há mais de 50 anos neste mercado.

Relembre:

Holding da Buser adquire CNPJ da Transportes Santa Maria, do ABC Paulista, para operações rodoviárias interestaduais regulares. JK já havia sido adquirida

Para Ilo, a operação indica que a empresa percebeu que o fretamento colaborativo em circuito aberto “tem um teto de vidro” e, por isso, decidiu buscar sustentação no ambiente formal da regulação.

A compra da Expresso JK e da Santa Maria pela Buser é uma confissão estratégica”, afirma. “A empresa percebeu que o fretamento colaborativo em circuito aberto tem um teto de vidro e decidiu que é hora de trocar o papel de estilingue pelo de vidraça”.

Na leitura do especialista, ao assumir o controle de transportadoras tradicionais, a Buser altera também sua posição no setor. “A plataforma deixa de apenas questionar o sistema para se tornar parte dele”, resume.

Entre o discurso de inovação e a lógica da autorização

A mudança, porém, abre uma série de dúvidas sobre como a empresa pretende conviver com dois universos que, até aqui, estiveram em permanente tensão: o da tecnologia com apelo de disrupção e o da operação sujeita às amarras regulatórias da ANTT.

Ilo observa que a principal questão passa a ser a convivência entre os modelos nos mercados em que Expresso JK e Santa Maria já possuem autorização. Segundo ele, será preciso ver se a Buser insistirá no fretamento colaborativo nessas rotas ou se, na prática, reconhecerá que o modelo que durante anos sustentou sob o discurso de “grupo fechado” perdeu espaço diante da necessidade de operar sob regime regular.

Como ficará a convivência de modelos nos mercados onde a JK e a Santa Maria já possuem autorização?”, questiona. “A Buser pretende insistir no fretamento colaborativo nessas linhas ou admitirá que, sob a luz do regime regular, o modelo de grupo de amigos virou peça de museu?

Para o consultor, há uma contradição estrutural nesse movimento. “É um desafio curioso tentar soprar e acender a vela simultaneamente”, diz, ao apontar a dificuldade de sustentar, ao mesmo tempo, o discurso de flexibilidade do fretamento e a rigidez jurídica típica das linhas autorizadas.

O olhar sobre o clandestino pode mudar

Outro ponto levantado por Ilo envolve a nova posição da Buser diante do debate sobre irregularidades no setor. Ao tornar-se controladora de empresas detentoras de linhas oficiais, a companhia passa a ter interesse direto na defesa do mercado regulado — justamente o ambiente que antes criticava com frequência.

Agora que é detentora de linhas oficiais, qual será o discurso da Buser contra o transporte clandestino?”, provoca.

Na avaliação do especialista, a mudança de lugar pode alterar também a narrativa. “Será fascinante observar a empresa questionando transportadoras que usam apenas o TAF para simular o serviço regular”, afirma. E acrescenta, em tom crítico: “Nada como um CNPJ de autorizatária para mudar o ponto de vista de quem ensinou o mercado a contornar as regras”.

Também permanece em aberto, segundo Ilo Löbel da Luz, a estratégia operacional que será adotada a partir da aquisição. Uma hipótese é que a Buser use as novas autorizações como guarda-chuva para absorver e enquadrar parte de seus parceiros dentro do regime regular. Outra possibilidade é a manutenção de duas frentes paralelas, uma vinculada às empresas autorizatárias e outra à lógica original da plataforma.

A estratégia será usar as novas autorizações para legalizar os frotistas parceiros dentro do regime regular ou a empresa manterá duas operações distintas?”, indaga.

Para ele, trata-se de uma equação delicada. “Resta saber se o sistema suportará esse malabarismo jurídico sem sofrer um curto-circuito operacional”, afirma.

No fundo, avalia o especialista, a operação acaba reforçando uma velha máxima do setor: a inovação tecnológica pode melhorar a jornada do passageiro, simplificar vendas, dar escala comercial e ampliar capilaridade, mas não elimina o papel central da regulação.

Ao trocar a liberdade do fretamento colaborativo pelas amarras da autorização, a plataforma admite que, no transporte brasileiro, a tecnologia pode abrir portas, mas é o carimbo da ANTT que mantém a casa aberta”, resume Ilo.

De rebelde a síndico

Na conclusão de Ilo Löbel da Luz, o setor assiste agora a uma mudança de papel. A empresa que se projetou como questionadora da ordem vigente passa a ocupar um lugar mais próximo ao das companhias tradicionais que, durante anos, estiveram em seu campo de crítica.

No fim das contas, entre o clique no aplicativo e o bilhete no guichê, o mercado assiste a uma metamorfose onde o rebelde de ontem se torna o síndico de hoje”, afirma.

E encerra com uma dúvida que, para ele, será decisiva nos próximos capítulos dessa transformação: “Resta saber se os passageiros e os órgãos de fiscalização vão comprar essa nova passagem”.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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