Adesão ao Vai de Graça revela peso estrutural da tarifa no orçamento das famílias do DF, avalia pesquisadora da UnB

Crescimento de até 70% na demanda por ônibus e metrô indica existência de demanda reprimida; em regiões como o SCIA (Cidade Estrutural), famílias mais pobres chegam a comprometer até 37% da renda com transporte

ALEXANDRE PELEGI

O aumento expressivo da demanda no transporte público do Distrito Federal após a adoção da gratuidade em domingos, feriados e datas festivas expõe um problema mais profundo: o peso da tarifa no orçamento das famílias, sobretudo nas regiões administrativas mais vulneráveis. A avaliação é da mestre e doutora em Planejamento Urbano e Regional Carla Brito Furlan Pourre, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB).

Os resultados da pesquisa mostram que, em regiões administrativas como o SCIA (Cidade Estrutural), o comprometimento da renda das famílias mais pobres com transporte chega a 37%. Em localidades como Paranoá, Recanto das Emas, Fercal e Varjão, esse peso alcança cerca de 25% da renda”, afirma a pesquisadora.

Segundo ela, os dados evidenciam desigualdades socioespaciais significativas e indicam que o modelo atual de financiamento do transporte público, baseado majoritariamente na tarifa paga pelo usuário, limita o acesso pleno à cidade. “Quando o custo do deslocamento consome uma parcela significativa da renda familiar, o acesso a saúde, educação, cultura e lazer também se torna limitado”, destaca.

A forte adesão ao programa Vai de Graça — que elevou em até 70% o número de passageiros no sistema de ônibus e metrô aos domingos — não representa, na avaliação da professora, apenas um aumento pontual de demanda. “A adesão massiva sinaliza que havia uma população excluída do uso pleno do transporte público por razões puramente econômicas”, ressalta.

O programa foi implantado em maio de 2025 e, desde então, tem ampliado significativamente o número de viagens em períodos de gratuidade. Antes da medida, cerca de 270 mil passageiros utilizavam o sistema aos domingos. Com a tarifa zero, esse número saltou para aproximadamente 500 mil usuários.

A análise da pesquisadora se apoia em indicadores desenvolvidos ao longo de sua trajetória acadêmica, voltados à mensuração do desempenho e da equidade no transporte urbano. “A aplicação empírica desses indicadores permitiu avaliar o comprometimento da renda familiar com transporte sob a perspectiva da equidade socioespacial, evidenciando desigualdades estruturais até então pouco quantificadas no Distrito Federal”, explica.

Para Carla Pourre, a experiência recente do DF reforça a necessidade de revisão do modelo de financiamento do setor. “É preciso buscar meios de aliviar o custo da passagem para o usuário e, ao mesmo tempo, redefinir o modelo de financiamento do transporte público, hoje fortemente dependente da tarifa”, aponta.

Ela reconhece, no entanto, a complexidade desse desafio. “Encontrar o valor de tarifa equilibrado, que consiga atender aos anseios tanto da população quanto da governança urbana, é um grande desafio discutido por pesquisadores e gestores públicos”, observa.

Diante do avanço de iniciativas de gratuidade no país, a pesquisadora destaca o papel central da política tarifária na organização das cidades. “Políticas tarifárias impactam diretamente a estrutura de oportunidades urbanas. Discutir transporte é discutir inclusão social, desenvolvimento econômico e qualidade de vida”, afirma.

Por fim, ela avalia que o tema tende a ganhar ainda mais relevância no debate público. “Diante da expansão dos programas de gratuidade e da centralidade do tema na agenda pública, é natural que o debate sobre financiamento e tarifa zero esteja presente na campanha eleitoral deste ano”, conclui.

Sobre a pesquisadora Carla Brito Furlan Pourre: https://www.linkedin.com/in/carllapourre/

 Pesquisadora Carla Brito Furlan Pourre

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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