DIA DA MULHER: Pioneira no jornalismo para mobilidade fala da evolução dos transportes e lembra de casos como uma greve de ônibus de nove dias e do trem de São Paulo a Porto Alegre
Publicado em: 8 de março de 2026
Com 50 anos de carreira, Regina Helena Teixeira Alonso está na ativa. Um dos ícones da comunicação dos transportes vem de uma escola onde jornalismo era feito na rua, junto com o povo
ADAMO BAZANI
São praticamente 50 anos comunicando sobre transportes.
Desde a época em que a CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos), empresa pública de ônibus e gerenciamento da cidade de São Paulo, era referência mundial de mobilidade, passando pelas promessas e as frustrações da retomada da malha ferroviária nacional e como uma repórter raiz, farejando a notícia e estando junto ao povo, em campo, a jornalista Regina Helena Teixeira Alonso se tornou um dos ícones do jornalismo para os transportes, inspirando gerações e gerações seguintes, inclusive deste repórter que, ao ler muitas de suas matérias de arquivo, desfrutou de verdadeiras aulas sobre história do setor e sobre como é ser profissional de imprensa de verdade.
E, neste Dia Internacional da Mulher, o Diário do Transporte faz questão de homenagear, conversando com Regina, não somente as mulheres, mas a luta diária para o jornalismo de verdade “não morrer”.
Regina é de uma época na qual a participação feminina na mídia era ainda muito pequena e, nos transportes, praticamente nula.
A jornalista, em plena atividade e vigor, hoje proprietária da “Ponto Final Consultoria e Assessoria de Imprensa e Comunicação”, com 72 anos de idade e “três netos maravilhosos” como faz questão de ressaltar, começou em 1976 no Jornal da Tarde, jornalístico da capital paulista pertencente ao Grupo de O ESTADO de S.PAULO.
Regina lembra que, na vanguarda, o JT (como era conhecido o jornal) já tinha uma participação feminina, mas não em todas as editorias. Inicialmente, mais na área de Variedades e algumas nas áreas de Política, Economia e Geral.
“Lugar de repórter é na rua. E foi nas ruas que fiz reportagens com passageiros dos ônibus urbanos, acompanhei os trabalhos de escavação, construção e, posteriormente, inauguração de várias estações metroviárias, acidentes com trens das extintas FEPASA e Rede Ferroviária Federal e greves do transporte coletivo, com todo o caos gerado em uma cidade com crescimento urbano acelerado e desordenado. Um tempo de uso de máquinas de escrever e BIPs, para quem não sabe, um dispositivo usado pelas redações para enviar mensagens curtas aos repórteres que, na sequência, entravam em contato com as chefias por meio dos “orelhões”. Carregávamos dezenas de fichas telefônicas. Pesquisas eram feitas no arquivo do jornal, em antigos jornais e revistas, para se inteirar dos fatos passados. Manual de redação e dicionários eram companhias obrigatórias. Mas era um tempo de competentes revisores nas redações. O processo era mais lento, mas também mais trabalhoso e gratificante.” – é assim que Regina Helena resumiu como era e, usufruindo e utilizando as atuais ferramentas tecnológicas, como sempre deve ser o jornalismo: retratar a realidade, o interesse é do fato em si, o propósito, é a informação pela informação.
IA (Inteligência Artificial), Wikipédia, Google, Chat GPT,clippings facilitados….tudo isso é válido, mas só como ferramenta.
Porque jornalismo pode ter de tudo….menos do artificial. É a razão que não deixa de se emocionar. É o olhar técnico que não deixa de ter a empatia. É a neutralidade que não deixa de se apaixonar, de se indignar…
Regina lembra de fatos memoráveis dos transportes que ela não só viu, mas vivenciou e, como jornalista, ajudou a escrever e deixar registrados na história, como uma greve de ônibus de nove dias em São Paulo e da viagem do trem de São Paulo a Porto Alegre
Cobri muitos fatos marcantes, como a expansão dos ônibus clandestinos e a municipalização dos transportes na gestão de Luíza Erundina. Atuei no período de privatização da CMTC. Um dos episódios que mais me marcou foi a greve dos motoristas de ônibus em 1992, que parou a cidade de São Paulo por nove dias, com mais de 800 ônibus depredados e milhões de passageiros prejudicados. Outro, foi uma viagem de trem de São Paulo a Porto Alegre, época de planos federais para expansão da malha ferroviária de transporte de passageiros. É interessante ver a evolução da tecnologia no transporte público. Acompanhei a operação dos primeiros ônibus articulados e biarticulados. E experiências que não tiveram continuidade como os ônibus de dois andares e os ônibus movidos a gás natural.
A pedido e, com insistências, deste repórter, Regina enviou ao Diário do Transporte um breve e delicioso relato muito mais que se sua carreira, mas de como evoluiu a mobilidade e o jornalismo para transportes.
Logo abaixo, o Diário do Transporte relembra uma de suas matérias marcantes: sobre os ônibus clandestinos que se tornaram depois lotações, em seguida, cooperativas, e hoje são poderosas empresas na cidade de São Paulo.
HISTÓRIA DE 50 ANOS DE JORNALISMO PARA OS TRANSPORTES
O transporte urbano mudou? Nestes quase 50 anos de atuação no setor, principalmente na cidade de São Paulo, a resposta é sim. Houve avanços significativos no planejamento operacional, na tecnologia veicular, na forma de controle do número de passageiros transportados e na própria comunicação entre poder público, empresas operadoras e os clientes do serviço de transporte coletivo urbano.
Nos anos 70, havia uma disputa quase irracional entre as empresas pelo passageiro, já que elas dependiam da tarifa para cobrir os custos operacionais (situação que persiste em algumas cidades). A consequência eram linhas com superlotação de veículos, regiões da cidade mal atendidas, itinerários mal planejados e passageiros insatisfeitos.
Os avanços, em São Paulo, começaram na década de 80, com a separação da tarifa paga pelo passageiro da tarifa de remuneração, paga às empresas pela prestação dos serviços, melhor planejamento das linhas e melhor atendimento das áreas mais periféricas da cidade. No entanto, o transporte público continua relegado a disputar espaço no sistema viário. Não há modernização da frota, agora com adoção de veículos ambientalmente sustentáveis, que consiga vencer a barreira dos congestionamentos de trânsito que provocam atrasos na operação dos ônibus, fazendo o passageiro perder tempo desnecessário nos seus deslocamentos.
Voltando agora aos anos 70, comecei no jornalismo estagiando na Gazeta de Santo Amaro, em 1974, quando cursava a antiga faculdade de Comunicação Objetivo, hoje, UNIP. A decisão de ser jornalista veio cedo, ainda no final do curso ginasial, hoje ensino fundamental. Não pensava em outra opção. E não foi nada fácil convencer a família de que essa era a profissão escolhida. Gostava de ler, gostava de escrever e, desde cedo, lia os jornais impressos que meu pai levava para casa.
Em 1976, me candidatei para cobrir férias no Jornal da Tarde (do grupo O Estado de S. Paulo), na editoria de Variedades. Em 1977, fui efetivada na Geral do JT, para cobertura de cidades. O repórter Randau Marques (falecido em 2020) estava deixando a cobertura de transporte e trânsito para se dedicar a reportagens sobre meio ambiente. Foi quando comecei a atuar nesse setor, onde venho trabalhando há quase 50 anos. Mas na Geral do JT, onde permaneci de 1977 a 1992, também fazia reportagens sobre patrimônio histórico, enchentes, administração pública, urbanismo.
Lugar de repórter é na rua. E foi nas ruas que fiz reportagens com passageiros dos ônibus urbanos, acompanhei os trabalhos de escavação, construção e, posteriormente, inauguração de várias estações metroviárias, acidentes com trens das extintas FEPASA e Rede Ferroviária Federal e greves do transporte coletivo, com todo o caos gerado em uma cidade com crescimento urbano acelerado e desordenado.
Um tempo de uso de máquinas de escrever e BIPs, para quem não sabe, um dispositivo usado pelas redações para enviar mensagens curtas aos repórteres que, na sequência, entravam em contato com as chefias por meio dos “orelhões”. Carregávamos dezenas de fichas telefônicas. Pesquisas eram feitas no arquivo do jornal, em antigos jornais e revistas, para se inteirar dos fatos passados. Manual de redação e dicionários eram companhias obrigatórias. Mas era um tempo de competentes revisores nas redações. O processo era mais lento, mas também mais trabalhoso e gratificante.
A redação do Jornal da Tarde já tinha uma representatividade feminina nos anos 70, com mais mulheres na área de Variedades e algumas nas áreas de Política, Economia e Geral. Ano a ano o número de mulheres na redação foi aumentando. Já no setor de transportes de passageiros a presença feminina era quase inexistente, tanto nas áreas técnicas e administrativas, como na operação.
Depois do Jornal da Tarde, trabalhei na Comunicação da extinta CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos), na SPTrans (São Paulo Transporte), na EMTU (Empresas Metropolitana de Transportes Urbanos) e, de 2013 a 2020, diretamente no SPUrbanuss (Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo). Interessante ter a visão de três lados diferentes do mesmo setor.
Cobri muitos fatos marcantes, como a expansão dos ônibus clandestinos e a municipalização dos transportes na gestão de Luíza Erundina. Atuei no período de privatização da CMTC. Um dos episódios que mais me marcou foi a greve dos motoristas de ônibus em 1992, que parou a cidade de São Paulo por nove dias, com mais de 800 ônibus depredados e milhões de passageiros prejudicados. Outro, foi uma viagem de trem de São Paulo a Porto Alegre, época de planos federais para expansão da malha ferroviária de transporte de passageiros.

Uma das greves de ônibus mais longas de São Paulo ficou na história da cidade
É interessante ver a evolução da tecnologia no transporte público. Acompanhei a operação dos primeiros ônibus articulados e biarticulados. E experiências que não tiveram continuidade como os ônibus de dois andares e os ônibus movidos a gás natural.
Hoje, a participação da mulher no jornalismo é muito mais expressiva, e isso é ótimo! Temos ótimas profissionais atuando, especialmente na cobertura da área de transportes. A mídia especializada, como o Diário do Transporte, faz um trabalho importante, aprofundando os assuntos e dando voz aos profissionais do setor.

Numa época, era possível ir de São Paulo a Porto Alegre de trem
Minha recomendação para os profissionais de jornalismo que ingressam no mercado: leiam muito (bons livros, de grandes escritores, e não postagens na internet), sejam curiosos, persistentes e apaixonados pelo que fazem. E que não tenham medo de perguntar e aprender.
Esta reportagem de Regina Helena foi fundamental para uma matéria do Diário do Transporte de 22 de janeiro de 2022, intitulada “HISTÓRIA: Quando os ônibus clandestinos viraram lotação em São Paulo”
Já a publicação de Regina foi 20 anos antes, em novembro de 1992, da revista Carga & Transporte, assinada pela jornalista Regina Helena Teixeira, retratando o momento em que os clandestinos viraram lotação. – Relembre clicando neste link, com várias fotos: https://diariodotransporte.com.br/2017/01/22/historia-quando-os-onibus-clandestinos-viraram-lotacao-em-sao-paulo/

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

