Sistema Jaé identificou fraudes em cadastros de gratuidades e acionou Polícia Civil no Rio
Publicado em: 5 de março de 2026
Em entrevista para o Diário do Transporte, CEO da plataforma de bilhetagem explica como o sistema detectou inconsistências nos registros, e na sequência colaborou com investigação que apura uso de imagens geradas por IA para emissão irregular de cartões
ALEXANDRE PELEGI
A investigação sobre fraudes no sistema de bilhetagem eletrônica Jaé, utilizado no transporte municipal do Rio de Janeiro, começou após inconsistências serem detectadas pelos próprios mecanismos de monitoramento da plataforma. A empresa comunicou as autoridades e passou a colaborar com a Polícia Civil, que abriu inquérito por meio da Delegacia de Defraudações.
Quem conta todo esse processo é o presidente da empresa, Leonardo Ceragioli.
Segundo as apurações, funcionários terceirizados que atuavam em postos de atendimento teriam validado cartões emitidos com fotografias geradas artificialmente, além de dados inconsistentes, como CPFs inexistentes e documentos adulterados. Os cartões eram usados por terceiros para acessar gratuitamente ônibus municipais, BRT, VLT, vans e outros modais.
O prejuízo estimado inicialmente ultrapassa R$ 64 mil, mas a investigação ainda busca dimensionar a extensão do esquema.
Após identificar as irregularidades, Ceragioli conta que os funcionários envolvidos foram desligados. A equipe do local, onde a fraude foi detectada, assumiu as funções e o Jaé registrou ocorrência policial. O episódio também chama atenção para um novo tipo de tentativa de fraude em sistemas digitais: o uso de ferramentas de inteligência artificial para gerar imagens faciais sintéticas.
Para entender como o esquema foi detectado e quais medidas estão sendo adotadas, o Diário do Transporte conversou com o CEO do sistema Jaé, Leonardo Ceragioli.
Diário do Transporte – Como o sistema identificou as fraudes nos cadastros de gratuidades?
CEO do Jaé: As inconsistências foram detectadas pelos nossos sistemas de monitoramento e auditoria, que analisam periodicamente os dados inseridos na plataforma. Identificamos padrões atípicos em alguns cadastros, com inconsistências nas imagens e nos dados informados, o que acionou nossos protocolos internos de verificação.
Diário do Transporte – Que tipo de mecanismos permitiram chegar a esses indícios de irregularidade?
CEO do Jaé: O sistema cruza informações com bases oficiais de dados, como a da Receita Federal, e também aplica análises de padrão de comportamento para identificar registros que fogem do perfil habitual de cadastramento. Quando algo sai desse padrão, o caso é encaminhado para análise do time de Prevenção a Fraudes.
Diário do Transporte – O que foi feito quando as irregularidades foram confirmadas?
CEO do Jaé: Encerramos o contrato dos funcionários envolvidos, substituímos todo o quadro do posto onde o problema foi identificado e registramos a ocorrência junto à Delegacia de Defraudações. A partir daí, passamos a colaborar com as investigações.
Diário do Transporte – As investigações apontam que parte das validações foi feita por atendentes. Qual é o papel humano nesse processo de emissão de cartões?
CEO do Jaé: O cadastro inicial pode ser realizado em postos de atendimento por operadores treinados. Depois disso, as informações passam por processos automatizados de validação e por mecanismos de controle que podem suspender registros com inconsistências até que sejam analisados pela área de prevenção a fraudes.
Diário do Transporte – Houve também registros fora do horário normal de funcionamento dos postos. O sistema consegue monitorar esse tipo de operação?
CEO do Jaé: Sim. Todas as operações ficam registradas no sistema e são monitoradas. Isso permite identificar atividades fora dos padrões operacionais e rastrear exatamente quando e como cada ação foi realizada.
Diário do Transporte – O uso de inteligência artificial para gerar imagens faciais falsas representa um novo desafio para sistemas de bilhetagem?
CEO do Jaé: Sem dúvida. O uso indevido de ferramentas de inteligência artificial já é observado em vários setores. Ao mesmo tempo, as tecnologias de segurança e detecção também evoluem constantemente para mitigar esse tipo de tentativa de fraude.
Diário do Transporte – Que medidas foram adotadas após a descoberta do caso?
CEO do Jaé: Reforçamos os mecanismos de monitoramento e controle e intensificamos as orientações internas sobre os procedimentos de segurança. O sistema também mantém rotinas periódicas de verificação de cadastros para identificar eventuais inconsistências.
Diário do Transporte – O episódio pode ter impacto no equilíbrio do sistema ou na política de gratuidades?
CEO do Jaé: Não. O caso foi identificado em estágio inicial e o volume envolvido não tem impacto relevante sobre o equilíbrio do sistema. O prejuízo foi estimado e o problema já foi estancado.
Diário do Transporte – Que mensagem o sistema gostaria de deixar aos passageiros e beneficiários das gratuidades?
CEO do Jaé: O benefício de gratuidade é pessoal e intransferível. Mantemos mecanismos permanentes de monitoramento para garantir o uso correto do sistema e, sempre que irregularidades são identificadas, as medidas cabíveis são adotadas.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


