Apagão de mão de obra no transporte: o que a Geração Z está ensinando a gestores e consultores

Para o especialista Ilo Löbel da Luz, o “não” dos jovens profissionais revela a necessidade urgente de rever cultura, liderança e propósito no setor

ALEXANDRE PELEGI

A frase “Não sei o que quero ser, mas sei o que não quero ser”, da escritora Clarice Lispector no romance Perto do Coração Selvagem, ajuda a iluminar um debate cada vez mais frequente em reuniões empresariais: a dificuldade de contratar e reter jovens talentos.

Para o especialista Ilo Löbel da Luz, o chamado “apagão” de mão de obra não é desinteresse — é transformação. E o setor de transporte precisa interpretar corretamente esse sinal.

O jovem não está rejeitando o trabalho. Está rejeitando relações de trabalho que não fazem mais sentido”, afirma. “Isso é um recado direto para gestores e consultores do transporte.”

Segundo Ilo, o ambiente de mudanças rápidas — impulsionado por tecnologia, Inteligência Artificial e novas formas de organização — torna inviável exigir planos de carreira rígidos.

Como alguém pode prometer dez anos de fidelidade a uma função que talvez nem exista da mesma forma daqui a cinco?”, questiona. “O mapa está mudando. A empresa que não muda junto perde talento.”

Para ele, o “não” virou mecanismo de defesa e critério profissional. “Essa geração tem clareza do que não aceita: burnout romantizado, chefia tóxica, ausência de propósito. Isso não é fragilidade. É filtro.

No setor de transporte, as lições são práticas. Ilo destaca três.

A primeira é cultural: discurso precisa virar prática. Não adianta falar em mobilidade sustentável e manter ambientes internos insustentáveis.”

A segunda é estratégica: propósito é ativo competitivo. Transporte público tem impacto social direto. Se o gestor não comunica isso de forma autêntica, desperdiça uma força enorme de atração.”

A terceira é liderança: comando vertical perdeu eficiência. O jovem quer participação, clareza e coerência.”

Para o especialista, o “apagão” pode ser, na verdade, um desalinhamento estrutural.

Talvez não falte gente querendo trabalhar no transporte. Talvez falte revisão de modelo”, diz. “Quando a empresa entende que o ‘não’ é diagnóstico e não rebeldia, começa a evoluir.

E conclui com um alerta ao setor:

Se continuarmos dizendo que o problema é a geração, vamos continuar com dificuldade de contratar. Se aceitarmos que o problema pode ser o formato, abrimos espaço para inovação também na gestão de pessoas.”

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. PEDRO RODRIGUES disse:

    Apagão profissional esta batendo aporta de todas grandes empresas sabendo da virada de chave venho preparando como profissional na área
    para colaborar com a melhor forma de compartilhamento profissional e liderança de equipe.

  2. JEFFERSON DE SOUSA disse:

    Os dois lados tem dificuldades sim, mas o setor de transporte vai sofrer muito se não mudar a mentalidade. Eu gosto de ser motorista de ônibus interestadual, mas me recuso a trabalhar em qualquer empresa e não aceito qualquer salário nem qualquer jornada de trabalho. Trabalhar na dupla nem pensar. Minhas prioridades são : MINHA SAUDE, MINHA FAMÍLIA, MEUS RENDIMENTOS. Se uma empresa não oferece condições para isso, não passo nem na porta. Outro problema é que, se depender de mim, meus filhos nunca passarão na porta de uma empresa para ser motorista. Hoje temos temos informações sobre qualquer empresa na internet, fica fácil saber quem presta ou não.

  3. Rodrigo Zika! disse:

    Una coisa importante é que a geração Z não está mudando apenas a área rodoviária e sim todas, não aceitam qualquer coisa e querem qualidade de vida mas fugindo da CLT para ter mais flexibilidade de folgas e salário maior, eu sou geração Y e já penso assim por morar em SP capital que é uma cidade corrida e se você mora na periferia levará no mínimo 3 horas diárias entre sua casa e a empresa no transporte público e a pé caso seja na região central, então a geração Z está mudando a forma de como trabalhar já estando ciente que não terá aposentadoria porque a natalidade no Brasil está caindo sem volta.

  4. Maria Betania disse:

    Essa geração é incrível, e está causando uma revolução não só no mercado de trabalho, mas também nas escolas, é maravilhoso trabalhar e aprender com eles, que são muito criativos e inovadores.

  5. Celso Negrão disse:

    Só rindo…veículos de transporte serão automatizados pela tecnologia. Muitas regras são impostas pela CLT, não pelas empresas. Mexer com IA implica em conhecimento, não em comportamento, quem não tem conhecimento vai ter problema. As novas gerações acham que tudo é de graça, o Estado tem que oferecer, isso é comunismo. Não temos gênios no Brasil, temos uma população acomodada. Depois com a quantidade de acidentes que temos país, não é a nova geração que resolverá o problema, temos 4 gerações para trabalhar…

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