Eletromobilidade

Secretário ministerial de Transportes do Chile apresenta experiência do país com ônibus elétricos em Fórum do Detro-RJ

Modelo chileno combina subsídio permanente e integração tarifária; para 2026, capital do país já atinge taxa de 68% de eletrificação da frota 

ALEXANDRE PELEGI

com Luiz Henrique Romagnoli, do Podcast do Transporte

A Região Metropolitana de Santiago, no Chile, consolidou-se como a cidade com a maior frota de ônibus elétricos do mundo fora da China, superando grandes centros europeus e norte-americanos. Atualmente, 58% dos cerca de 7 mil ônibus em circulação já são elétricos, percentual que deve chegar a 68% ainda em 2026, segundo o secretário regional ministerial de Transportes da Região Metropolitana, Rodrigo Valadares.

Em entrevista concedida na manhã desta quarta-feira, 04 de fevereiro de 2026, após participação em palestra no Fórum de Transição Energética no Transporte Público do Estado do Rio de Janeiro, promovido pelo DETRO-RJ, o secretário falou ao Diário do Transporte sobre a experiência chilena com a eletrificação da frota.

“Estamos muito orgulhosos de sermos a cidade fora da China com mais ônibus elétricos no mundo. Muitas pessoas imaginam que isso estaria em cidades como Paris ou Amsterdã, mas hoje é Santiago. E essa é uma experiência que fazemos questão de compartilhar com o Brasil, assim como aprender com vocês”, afirmou Valadares.

Estado planeja, regula e subsidia; setor privado investe e opera

De acordo com o secretário, o sistema chileno se apoia em três pilares bem definidos: planejamento público, regulação estatal e subsídio ao transporte, enquanto o setor privado é responsável pelo investimento e pela operação.

“Temos uma vertente privada, que investe e opera o transporte, e uma vertente pública, que subsidia, regula e planeja. Cada ator cumpre seu papel. Isso cria um sistema mais estável e menos vulnerável a falhas de mercado”, explicou.

Essa estrutura, segundo Valadares, permite que a política de eletrificação não dependa de governos específicos.

“Esperamos que o próximo governo, que assume em 11 de março, aprofunde essa política. A eletrificação precisa ser uma política de Estado, que transcenda presidentes e governos. Esse é o sonho de qualquer operador: estabilidade.”

Ônibus com padrão elevado e foco em segurança

Os ônibus elétricos da rede metropolitana de Santiago seguem um padrão elevado de qualidade, tanto para usuários quanto para motoristas. Os veículos contam com acessibilidade universal, piso baixo, Wi-Fi, portas USB, além de assentos mais largos.

Pensamos também nas pessoas mais altas, para que não seja incômodo sentar. E para os motoristas, há sensores de fadiga, sensores de ponto cego e cabines mais protegidas, o que torna o trabalho mais seguro e eficiente”, disse.

Há, inclusive, modelos com especificações semelhantes às de ônibus rodoviários e testes com veículos de dois andares (double-decker), reforçando o padrão técnico adotado.

Custos menores e benefícios ambientais

Apesar do maior investimento inicial, o secretário destacou que os ônibus elétricos apresentam reduções significativas nos custos ao longo da operação.

Temos cerca de 49% de redução no custo de aquisição, 44% a menos no custo de manutenção e aproximadamente 69% de economia no consumo energético em relação ao diesel”, detalhou.

Segundo Valadares, o custo operacional de um ônibus elétrico gira em torno de um terço do custo de um ônibus a diesel, além de benefícios adicionais.

Há uma externalidade positiva muito importante, que é a redução do ruído. Isso melhora a qualidade de vida dos passageiros, dos motoristas e também das comunidades por onde os ônibus circulam.”

Tarifa subsidiada e integração total

O transporte público em Santiago opera com tarifa regulada e subsídio estatal permanente, o que garante previsibilidade financeira ao sistema. Atualmente, a passagem custa menos de um dólar, em torno de US$ 0,80 (cerca de R$ 4,20).

Existe uma lei permanente de subsídio ao transporte público, que dá segurança tanto aos operadores quanto ao próprio Estado”, afirmou.

Há ainda tarifas reduzidas para estudantes e idosos e um sistema completo de integração tarifária, permitindo o uso de ônibus, metrô e trens dentro de um período de até duas horas com uma única tarifa.

Corredores exclusivos e fiscalização rigorosa

Para garantir eficiência operacional, Santiago conta com cerca de 400 quilômetros de faixas e corredores exclusivos para ônibus, além de paradas estruturadas, onde os veículos só podem embarcar e desembarcar passageiros em pontos definidos.

A infraestrutura é essencial. O ônibus não para em qualquer lugar. Há paradas específicas, como abrigos, e isso organiza o sistema”, explicou.

O uso indevido dessas faixas por veículos particulares é punido com multas que variam entre US$ 40 e US$ 80.

Eletroterminais públicos e modelo modular

A infraestrutura de recarga é outro ponto central do modelo chileno. Atualmente, existem 45 eletroterminais na Região Metropolitana, planejados e regulados pelo Estado.

Os privados investem, mas é o Estado que planeja e regula. Isso permite que, se houver necessidade de troca de operador, a infraestrutura já esteja pronta”, afirmou.

O sistema é estruturado de forma modular, envolvendo diferentes agentes: investidor em eletromobilidade, gestor dos terminais, gestor da frota e operador.

Meta de 100% até 2035 e experiência pioneira em Copiapó

A meta nacional é atingir 100% de eletrificação do transporte público até 2035, em alinhamento com compromissos internacionais como o Acordo de Paris.

Atualmente estamos em 68% e seguimos avançando. O objetivo dos 100% é para 2035”, reforçou.

Além de Santiago, o Chile já conta com um caso emblemático: Copiapó, primeira cidade da América do Sul a operar 100% de ônibus elétricos, em projeto implementado durante o governo do presidente Gabriel Boric.

É motivo de muita alegria termos uma cidade totalmente elétrica. Agora, nosso papel é fiscalizar para que a operação funcione bem e entregue todos os benefícios esperados”, concluiu o secretário.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes 

com Luiz Henrique Romagnoli, do Podcast do Transporte

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