Eletromobilidade

Licitação intermunicipal do RJ aposta em integração, bilhetagem e biometria para reorganizar o transporte

Raphael Salgado, presidente do DETRO-RJ

Em painel final do primeiro dia do Fórum de Transição Energética, Raphael Salgado, presidente do DETRO-RJ, detalha bastidores, escolhas do edital e o legado do primeiro processo licitatório da história do transporte intermunicipal fluminense

ALEXANDRE PELEGI

O painel que fechou o primeiro dia do Fórum de Transição Energética no Transporte Público do Estado do Rio de Janeiro, nesta terça-feira, 03 de fevereiro de 2025, funcionou como uma síntese do próprio evento e colocou a licitação do transporte intermunicipal no centro do debate. Integração entre modais, bilhetagem eletrônica e biometria facial foram apresentados como os instrumentos que sustentam o novo modelo proposto pelo governo fluminense.

Participaram da discussão Raphael Salgado, presidente do DETRO; Alexandre Daiuto, subsecretário de Integração e Bilhetagem da Secretaria de Estado de Transporte e Mobilidade Urbana do Rio de Janeiro; e Melissa Sartori, gerente de Marketing e Produto da Mais.Mobi. A mediação foi do professor Willian Aquino, representante da ANTP no Rio de Janeiro.

Logo na abertura, Willian Aquino destacou o caráter histórico do momento e a relação direta entre licitação e cidadania.

“Essa licitação não é apenas um contrato. Ela é a institucionalização definitiva do transporte intermunicipal, algo previsto há mais de quarenta anos e que nunca saiu do papel”, afirmou o moderador.

Desde o início de sua fala, Raphael Salgado reforçou o peso simbólico e institucional do processo.

“Essa licitação está prevista desde a criação do DETRO. Em mais de quarenta anos de história, ela nunca aconteceu. Nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar que estaria à frente de um processo como esse”, disse.

Construção coletiva e respeito institucional

Segundo o presidente do DETRO, o edital é resultado de um longo processo de diálogo entre órgãos públicos e equipes técnicas.

“Foram mais de dois anos e meio de trabalho. Se eu disser que cinco por cento do edital teve contribuição minha, já é muito. Isso é fruto de um esforço coletivo, de muita gente qualificada”, afirmou Salgado.

Ao abordar a estrutura do edital, Willian Aquino ressaltou a escolha por um modelo que prioriza o usuário.

“O edital deixa claro que a seleção será pela menor tarifa. Não há cobrança de outorga e, quando houver sobra econômica, ela retorna para o próprio sistema, na mesma região. Isso é modicidade tarifária aplicada na prática”, disse.

Salgado reforçou que o desenho do edital respeita as competências institucionais, especialmente na bilhetagem.

“Quando me deparei com um anexo inteiro tratando de bilhetagem, eu fui direto: isso não é competência do DETRO. A solução foi estabelecer que a bilhetagem do sistema intermunicipal será aquela definida pela Secretaria de Transporte. Gestão pública se faz com diálogo”, afirmou.

Integração como eixo do modelo

Ao conduzir o debate, Willian Aquino enfatizou que a licitação vai além da simples oferta de linhas.

“Não é uma licitação de ônibus. É uma licitação de sistema. Ela exige integração com metrô, trem, barcas e pressupõe controle de demanda para dimensionar corretamente a oferta”, explicou.

Essa visão foi reforçada por Raphael Salgado.

“Não adianta ter ônibus novos, elétricos ou a gás, se eles não estiverem conectados aos trilhos e aos outros modos. Transporte público precisa funcionar como sistema, não como ilhas”, afirmou.

Bilhetagem e biometria como instrumentos de gestão

Ao tratar do controle da demanda, Willian Aquino apontou a bilhetagem como elemento central do novo modelo.

“Sem saber exatamente quem usa, quem paga e quem é isento, não existe planejamento possível. A bilhetagem é a chave para dimensionar oferta, controlar gratuidades e integrar o sistema”, disse.

Nesse ponto, Raphael Salgado destacou o papel da tecnologia.

“A biometria não é um fim em si mesma. Ela é uma ferramenta de gestão, de proteção do recurso público e de garantia de que o benefício chegue a quem realmente precisa”, afirmou.

A gerente de Marketing e Produto da Mais.Mobi/RioCard, Melissa Sartori, apresentou no painel dados sobre o uso da biometria facial como instrumento de antifraude e proteção do subsídio público no Bilhete Único Intermunicipal.

“A bilhetagem no Rio sempre teve como objetivo principal coibir a fraude. Hoje, trabalhamos em três pilares: cadastro, recarga e uso. A biometria é um facilitador importante, mas faz parte de um ecossistema maior de controle”, afirmou.

Segundo Melissa, apenas em 2025 o sistema identificou mais de 2,6 milhões de eventos suspeitos, resultando no bloqueio de cerca de 200 mil cartões.

“Toda vez que há fraude, alguém que realmente precisa do benefício deixa de ser atendido. O prejuízo é coletivo: para o Estado, para o operador e para o passageiro”, disse.

Ela destacou ainda o caráter inédito da biometria em vans intermunicipais.

“A van não tem roleta. Foi necessário redesenhar completamente a operação, reposicionar o validador e a câmera. Hoje, a captura acontece na porta, com sinal visual para o motorista. É um projeto inovador no Brasil”, afirmou.

Legado e cidadania

Na parte final do painel, Willian Aquino trouxe uma reflexão sobre o papel social do transporte.

“Transporte é cidadania. Quando o sistema é confiável, integrado e acessível, ele resgata usuários perdidos e passa a ser usado também pela classe média. É assim que os sistemas funcionam nos países desenvolvidos”, afirmou.

Raphael Salgado encerrou destacando o legado do processo.

“Isso não é a vitória de um gestor ou de um órgão. É uma vitória do Estado do Rio de Janeiro e, principalmente, dos usuários, que hoje utilizam um sistema aquém do que merecem”, disse.

Segundo ele, a licitação deve alcançar cerca de cinco mil ônibus na Região Metropolitana, com exigência de renovação de frota e incorporação de tecnologias menos poluentes. O edital está em fase final de análise pelos órgãos de controle, com expectativa de lançamento na primeira quinzena de março.

“Daqui a alguns anos, quero poder dizer que ajudei a construir um processo que deu regra clara ao operador e um transporte melhor para quem depende dele todos os dias”, concluiu Salgado.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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