Decisões estratégicas, e não modismos, definirão o sucesso da tecnologia no transporte por ônibus, afirma Emerson Grandi, CEO da Praxio
Publicado em: 27 de janeiro de 2026
Executivo projeta os principais temas para 2026 e analisa IA, uso de dados, cibersegurança e os desafios reais da eletrificação
ALEXANDRE PELEGI
A Praxio é uma das principais empresas brasileiras de tecnologia aplicada à gestão do transporte por ônibus, com soluções voltadas a áreas como manutenção, suprimentos, controle operacional, custos e uso estratégico de dados. Integrante do ecossistema nstech, a companhia acompanha de perto as transformações tecnológicas, regulatórias e operacionais que vêm redesenhando o setor.
Em entrevista ao Diário do Transporte nesta terça-feira, 27 de janeiro dc 2027, o CEO da Praxio e vice-presidente de Mobilidade da nstech, Emerson Grandi, analisa os principais temas que devem pressionar a gestão das empresas de ônibus em 2026 e faz um alerta direto: o futuro não será definido por quem adotar mais tecnologia, mas por quem fizer escolhas mais inteligentes sobre como utilizá-la.
Segundo o executivo, falar de futuro no transporte coletivo não é um exercício de futurologia.
“Não se trata de tentar adivinhar cenários. É um convite à reflexão. Muitos dos desafios que vão marcar 2026 já estão colocados hoje, mas nem sempre entram no centro das decisões estratégicas”, afirma.
Inteligência artificial: promessa alta, risco de frustração
Para Grandi, a inteligência artificial se consolidou como a grande promessa recente do setor, criando forte pressão sobre as áreas de tecnologia das empresas. “Existe uma expectativa enorme por ‘entregar IA’, e é aí que começam os problemas”, diz.
Ele aponta dois erros recorrentes. O primeiro é a adoção de soluções que se vendem como inteligência artificial, mas que, na prática, são apenas automações básicas. “Isso não gera valor concreto e ainda atrasa movimentos mais estratégicos”, avalia.
O segundo erro, segundo o executivo, é ainda mais frequente: implementar tecnologia sem revisar processos, indicadores, fluxos e cultura organizacional.
“Sem clareza de objetivo, até a IA mais avançada vira apenas um verniz moderno sobre problemas antigos”, afirma.
Cibersegurança deixa de ser tema técnico
Outro ponto que, na avaliação de Grandi, ainda é subestimado no setor é a cibersegurança. “Ela costuma ser lembrada apenas quando algo dá errado, mas esse modelo já não se sustenta”, diz.
Com sistemas cada vez mais integrados e sofisticados, os riscos aumentaram. “A própria inteligência artificial pode ser usada tanto para defesa quanto para ataque. Por isso, a cibersegurança deixou de ser um assunto restrito à TI e passou a ser um tema de diretoria”, afirma.
Para 2026, o executivo defende que o risco cibernético seja tratado com a mesma profundidade do risco financeiro. “Hoje eles são inseparáveis. Um ataque pode comprometer a operação, a confiança dos clientes e a estabilidade da empresa.”
Dados: justificar decisões ou orientar escolhas?
Ao tratar do uso de dados, Grandi provoca gestores com uma pergunta direta: os dados estão sendo usados para definir as próximas ações ou apenas para justificar decisões já tomadas?
“Essa pergunta revela uma mudança de paradigma que ainda não foi totalmente assimilada pelo setor”, diz. Segundo ele, muitos gestores ainda olham para os dados de forma retrospectiva, como confirmação do passado, quando o mercado exige uma postura preditiva.
O executivo cita exemplos de custos invisíveis, como perdas em compras, gastos administrativos e ineficiências aparentemente pequenas. “No dia a dia parecem irrelevantes, mas no acumulado anual representam valores significativos”, afirma.
Em um contexto de discussões sobre tarifa zero, mudanças no marco regulatório, reforma tributária e pressão crescente por eficiência, Grandi avalia que a gestão de dados precisa assumir um papel verdadeiramente estratégico.
Eletrificação: a mudança vai além do ônibus
A transição para ônibus elétricos também aparece como um dos temas centrais para os próximos anos. Grandi lembra que, em 2025, os emplacamentos de ônibus elétricos no Brasil cresceram mais de 170%, totalizando 849 unidades, segundo dados da Fenabrave.
O Diário do Transporte noticiou os números em primeira mão.
Relembre:
Ônibus elétricos fecham 2025 com alta de 170%. Eletra-Caio na liderança, de acordo com a Fenabrave
Apesar do avanço, os entraves seguem concentrados na infraestrutura e, principalmente, na operação.
“A transição não é apenas sobre trocar o ônibus. Ela exige rever escalas, janelas de recarga e cronogramas de manutenção”, explica.
Segundo o executivo, trata-se de um novo paradigma operacional.
“São frotas que não se abastecem em poucos minutos, não podem ser alocadas em qualquer linha e não permitem improvisos de última hora. Energia deixa de ser apenas um insumo e passa a ser um dado dinâmico.”
Menos moda, mais estratégia
Ao projetar 2026, Grandi avalia que a racionalização do uso da tecnologia será inevitável. “Não será por moda, mas por necessidade”, afirma.
Para ele, o maior risco para o setor é justamente não parar para refletir agora. “O futuro da gestão no transporte por ônibus não será definido por quem adota mais tecnologia, mas por quem faz melhores escolhas sobre como, por que e para quê utilizá-la.”
Grandi conclui destacando o posicionamento da Praxio nesse cenário.
“Desenvolvemos tecnologia com foco em decisões melhores, processos mais claros e uso inteligente de dados, sempre considerando a complexidade real da operação do transporte por ônibus.”
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


Concordo plenamente!
A descarbonização das frotas urbanas deve acontecer de maneira gradual, empregando-se uma ou mais tecnologias possíveis de se adquirir e operar conforme a realidade estrutural e financeira de cada cidade.
A descarbonização deve estar focada muito mais e efetivamente na qualidade ambiental, e muito menos nos discursos e apelos eleitoreiros.
É preciso cautela pra não cairmos na “sindrome do trem-bala brasileiro”: Aquele equívoco de se querer apostar tudo apenas no mais caro e sofisticado, seduzido pela pompa e visibilidade, e não chegando-se a alugar algum.