Quer transporte público de qualidade? Então aceite perder espaço para o carro

Discurso recorrente ignora que transporte público só melhora com prioridade no viário — exatamente o que desagrada quem não quer abrir mão do seu veículo particular

ALEXANDRE PELEGI

Há uma frase clássica no repertório do brasileiro que anda de carro e gosta de parecer racional, moderno e preocupado com a cidade:

“Quando o transporte público tiver qualidade, eu deixo o carro em casa.”

É uma frase bonita, educada, quase cívica. O problema é que ela sempre vem no tempo verbal mais confortável possível: o futuro indefinido. Um tempo em que nada precisa acontecer de fato.

O detalhe que raramente entra na conversa é simples, técnico e amplamente conhecido por qualquer especialista em mobilidade urbana: transporte público só tem qualidade quando tem prioridade no sistema viário. Sem faixa exclusiva, sem corredor segregado, sem preferência semafórica, sem espaço urbano dedicado, ônibus e trólebus são apenas carros grandes presos no mesmo congestionamento.

E é exatamente aí que a boa vontade acaba.

Porque a prioridade ao transporte público implica, inevitavelmente, menos espaço para o automóvel particular. E isso, curiosamente, incomoda profundamente o mesmo cidadão que exige ônibus rápido, frequente, confortável e pontual.

O discurso muda de tom num passe de mágica. A faixa exclusiva “atrapalha o trânsito”. O corredor “estrangula a via”. O BRT “não foi bem pensado”. O semáforo inteligente “segura demais os carros”. Em comum, todas essas críticas têm um ponto central: o desconforto de quem dirige sozinho um veículo de mais de uma tonelada para transportar uma única pessoa.

Cria-se então um raciocínio circular que se retroalimenta, digno de manual de paradoxos urbanos:

O transporte público não presta porque fica preso no trânsito. Mas não pode ganhar prioridade porque isso piora o trânsito. E o trânsito só existe porque todo mundo usa carro. Mas ninguém deixa o carro porque o transporte público não presta…

É a cobra comendo o próprio rabo — em baixa velocidade e ocupando duas faixas.

No fundo, a discussão raramente é sobre qualidade do transporte público. É sobre manutenção de privilégios travestidos de preocupação coletiva. O carro não é apenas um meio de deslocamento; virou extensão da casa, da identidade e, em muitos casos, do status social. Abrir mão dele não é uma decisão técnica: é quase uma afronta pessoal.

Para o engenheiro e consultor Claudio de Senna Frederico, vice-presidente da ANTP, esse conflito não nasce de falhas do sistema de transporte, mas de uma lógica social mais profunda.

“O ponto central é mostrar que o transporte coletivo não sofre por falhas próprias, mas sim porque a sociedade é desigual e tende a marginalizá-lo. O mercado valoriza o individual, o exclusivo, aquilo que cria distinção social. O coletivo, por natureza mais democrático, acaba visto como algo de segunda categoria. Essa é a lógica que precisamos questionar.”

Essa hierarquia simbólica ajuda a explicar por que o transporte público permanece preso à condição de promessa eterna. Sempre precisa melhorar um pouco mais antes de “merecer” novos usuários. Enquanto isso, o carro segue como prioridade absoluta, ocupando ruas, avenidas, orçamentos públicos e o imaginário urbano.

Apoiar o transporte público, no discurso, é fácil. Difícil mesmo é aceitar o único caminho que funciona no mundo inteiro: ceder espaço. Sem isso, a promessa de deixar o carro em casa continuará sendo apenas isso — uma promessa que nunca sai da garagem.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

Informe Publicitário
Assine

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

     
Comentários

Comentários

  1. Santiago disse:

    Sim! Priorizar o viário ao transporte publico, o que requer suprimir-se uma boa parte do espaço hoje ocupado pelo transporte individual. Esse é mesmo o caminho!

    Porém estamos infestados de gestores públicos que buscam apenas o voto imediato vendendo discursos e aparências, enquanto evitam trabalhar de verdade e assumir riscos políticos.
    Ao mesmo tempo alguns técnicos e pesquisadores, por melhores intenções que tenham, deixam de complementar os seus conhecimentos acadêmicos com uma imersão mais aprofundada nos verdadeiros porquês das nossas realidades locais. Entregam relatórios conceitualmemte corretos, mas que na prática deixam importantes lacunas em aberto.

    1. Santiago disse:

      Do lado dos operadores regulares, uma ótima medida é a plataforma digital compartilhada pelos grupos JCA e Aguia Branca, a qual permite conciliar horários desejados com tarifas mais baixas.
      Ou seja, as próprias operadoras já vem se mexendo e tratando de fazer a parte delas!

  2. J. Alberto disse:

    Penso que o governo falha ao não ensinar as pessoas, principalmente crianças, que o viário é um recurso escasso.

    Quando o assunto é dinheiro, imagino que a população tenha uma consciência bem maior. Dinheiro é escasso tanto no sentido relativo como no absoluto. E muita gente entende esse conceito.

    Acho que, se as pessoas puderem enxergar o viário dessa forma também – sendo ensinadas a enxergar isso -, a conscientização será bem maior.

  3. luiz fernandes de oliveira disse:

    RODIZIO

  4. Licínio Vega disse:

    Adoro automóveis. E que eles PROSPEREM nos grandes centros!

  5. juniorcapela disse:

    Tudo que foi dito aqui, é bonito, é lindo, um discurso que prioriza o viário para o transporte público, em detrimento do transporte individual.
    Na teoria, esse discurso é lindo, mas na prática, não é bem assim que funciona…

    Quem em sã consciência, vai deixar de andar no conforto de um veículo particular, seja próprio, táxi ou aplicativo, mesmo com um custo maior, para usar o péssimo serviço de ônibus, com um custo baixíssimo, “só porque foi dada prioridade ao ônibus”??

    Quem anda de veículo particular, quer conforto e pontualidade, mesmo que isso signifique uma hora a mais no trânsito, as pessoas já programam suas rotas com transporte individual, contando com isso.

    Uma coisa é a pessoa ficar uma hora dentro de um ônibus, lotado, em pé, sem segurança, sem conforto algum.
    Outra coisa é a pessoa estar dentro de um veículo particular, sozinha, com conforto.

    De que adianta, por exemplo, um ônibus da cidade de São Paulo, chegar ao meu destino vinte minutos ou meia hora mais cedo, mas, parando em tudo quanto é ponto de ônibus, lotado, muitas vezes viajando em pé, desconhecidos encostando em você, preocupação com o celular ou a carteira nos bolsos da calça.

    Sem contar a espera, em pé, nos pontos para esse ônibus passar, porque a demora em passar um ônibus, pode ultrapassar uma hora ou mais, na rua ou em qualquer terminal.

    Sem contar as constantes quebras no meio do percurso.

    Talvez, se a prefeitura criasse linhas executivas, com ônibus novos e modernos, com passageiros só viajando sentado, como existia na época da CMTC, eu arriscaria pagar mais caro e deixar de usar veículo particular.

    Para mim, não é apenas a questão do ônibus de São Paulo andar mais rápido, isso não é suficiente para fazer eu e a maioria migrar do transporte individual para o público.

    Só o simples fato de um ônibus andar em corredores exclusivos, vias segregadas, ou qualquer inovação que resulte APENAS em ganho de alguns minutos, é pouco para seduzir quem anda de transporte individual.

    Há uma parcela considerável que pagaria mais caro, desde que houvesse conforto e pontualidade, coisas que o sistema atual não oferece.
    Eu, e muita gente, ainda prefere o transporte individual, mesmo com mais demora por causa do trânsito, mas com conforto, do que o transporte público, “mais rápido”, mas sem nenhum conforto e pontualidade.

    Isso infelizmente, é algo que não está nos planos da prefeitura, criar linhas executivas, com ônibus novos e modernos, atendendo com conforto e pontualidade, para que mais pessoas deixem o transporte individual e migrem para o público.

    Esse é um nicho que não está sendo estudado pela prefeitura, e é essa parcela da população que também precisa ser olhada, a que usa transporte individual por falta de conforto e pontualidade no transporte público, que tem condições de usar o transporte público e pagar mais caro, desde que atendam os requisitos que eu citei.

  6. Rodrigo Zika! disse:

    Vamos ser sinceros pobre é contra o transporte público? Se pegar os bairros de classe média e ricos de SP só andam de carro ou motorista de app e esses bairros possuem qualidade de vida com muitas linhas de transporte público incluindo em muitos bairros o metrô, o pobre que vai ao centro trabalhar não tem como usar carro próprio porque pega muito trânsito e o estacionamento é um valor absurdo, quem faz isso é gerente ou quem trabalha e empresas grandes e está em um cargo alto ganhando bem. Os pobres que trabalham com carro são autônomos e muitos nem trabalham no centro porque usam mais as marginais, isso acaba sendo um absurdo porque o pobre que necessita mais não tem muita opção de transporte público e os intervalos são maiores, além disso a maioria está longe de estações de trem e metrô, a questão é que sem novos corredores priorizando os ônibus não mudará nada, faixa de ônibus vários veículos invadem e não resolve nada.

  7. Rodrigo Zika! disse:

    Esqueci uma coisa, como o Brasil é extremamente pobre existe junto aquela idéia em cidades grandes principalmente da ostentação, e nisso inclui ter carro ou moto então muitos querem isso nem que seja pra ficar endividado mas a maioria não usa pra trabalho, por isso sou a favor em cidades igual aqui em SP que só compensa veículo moderno caso seja pra trabalhar, porque pra deixar na garagem é só gasto e o pobre quando usa pra trabalho é autônomo.

  8. The Aviator disse:

    Infelizmente o BRT na minha cidade “liga nada a lugar nenhum”, tem faixa segregada mas o transporte é antiquado e lotado e sou obrigado a utilizar meu veículo. Governo que não quer resolver problemas cria esse nos contra eles. Tem que construir boa infraestrutura e deixar opções para as pessoas.

Deixe uma resposta para SantiagoCancelar resposta

Descubra mais sobre Diário do Transporte

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading