Eletromobilidade

Liverpool, Inglaterra, abandona ônibus a hidrogênio e migra para frota elétrica a bateria

Decisão envolve os 20 ônibus a hidrogênio do modelo Alexander Dennis Enviro400FCEV, adquiridos entre 2022 e 2023

Decisão da autoridade regional de transporte aponta custos elevados e dificuldades no abastecimento de hidrogênio verde; região investe em eletrificação como solução mais madura e confiável

ALEXANDRE PELEGI

A Liverpool City Region Combined Authority (LCRCA), autoridade regional responsável pelo planejamento e pela política de transportes no noroeste da Inglaterra, anunciou a descontinuidade de seu programa de ônibus movidos a hidrogênio e a migração da frota planejada para veículos 100% elétricos a bateria. A decisão foi confirmada em dezembro de 2025 e marca uma inflexão relevante no debate internacional sobre tecnologias de emissão zero para o transporte coletivo urbano.

Segundo a LCRCA, a mudança ocorreu após uma revisão técnica e econômica que identificou custos elevados de operação, além de dificuldades recorrentes na obtenção de hidrogênio verde em escala e com regularidade, o que comprometeu a confiabilidade do serviço. Diante desse cenário, a autoridade avaliou que os ônibus elétricos a bateria oferecem, no momento, maior previsibilidade operacional, maturidade tecnológica e viabilidade financeira.

Liverpool está localizada no noroeste da Inglaterra, às margens do rio Mersey, próxima ao mar da Irlanda, a cerca de 280 quilômetros de Londres. A cidade possui aproximadamente 500 mil habitantes, enquanto a Liverpool City Region soma cerca de 1,6 milhão de pessoas, configurando uma das principais regiões metropolitanas do país.

Histórico do projeto de hidrogênio em Liverpool

A entrada dos ônibus a hidrogênio na região remonta a 2022, quando o fabricante britânico **Alexander Dennis apresentou ao público o Enviro400FCEV, um ônibus de duas plataformas alimentado por célula de combustível (fuel cell), como parte de sua nova geração de veículos zero emissão — tendo a Liverpool City Region Combined Authority como cliente de lançamento. O Enviro400FCEV, um double-decker de cerca de 11,1 metros de comprimento, foi projetado para transportar até 88 passageiros (73 sentados e espaço dedicado para dois passageiros em cadeira de rodas) e usava uma combinação de célula de combustível a hidrogênio e um sistema elétrico avançado para entregar desempenho alinhado às necessidades de ônibus urbanos de grande capacidade.

Esse modelo foi exibido em 2022 na Euro Bus Expo em Birmingham como o primeiro de uma nova série de ônibus movidos a hidrogênio, com tecnologia desenvolvida para atender aos requisitos operacionais de cidades como Liverpool. A plataforma integrava tecnologia de condução elétrica de última geração com célula de combustível modular da Ballard e armazenamento de hidrogênio em tanques de alta pressão, com reabastecimento previsto em cerca de cinco minutos — semelhante ao tempo de abastecimento de um ônibus diesel tradicional.

Posteriormente, a LCRCA encomendou 20 unidades do Enviro400FCEV, com a expectativa de implantá-los principalmente na linha 10A — uma das mais movimentadas da região, ligando Liverpool a St Helens via Knowsley.

Os primeiros Enviro400FCEVs começaram a chegar em 2023, com alguns veículos entrando em serviço em rotas locais. No entanto, a operação regular foi interrompida por dificuldades em manter um abastecimento consistente de hidrogênio verde, deixando boa parte da frota fora de operação por longos períodos. Mesmo após a identificação de uma fonte de hidrogênio e tentativas de retorno ao serviço em 2024, os ônibus continuaram a ser utilizados de forma esporádica, o que acabou influenciando a decisão da LCRCA de converter toda a frota para tecnologia elétrica a bateria em 2025.

Autoridade regional concentra planejamento e investimentos

A Liverpool City Region Combined Authority foi criada em 2014 e reúne seis governos locais — Liverpool, Sefton, Wirral, Knowsley, St Helens e Halton — sob uma estrutura regional de governança. Desde 2017, a região conta com um prefeito metropolitano eleito, modelo semelhante ao adotado em áreas como Londres e Manchester.

No transporte público, a LCRCA é responsável por definir estratégias regionais de mobilidade, coordenar investimentos em ônibus e trens metropolitanos, administrar subsídios e liderar o processo de re-regulamentação do sistema de ônibus, com maior controle público sobre rotas, tarifas e padrões de serviço. É nesse contexto que a autoridade vem priorizando soluções consideradas mais robustas para garantir a continuidade e a qualidade do transporte coletivo.

A migração para ônibus elétricos faz parte de um pacote mais amplo de investimentos estimado em cerca de £ 1,6 bilhão, voltado à renovação da frota, modernização de garagens, implantação de infraestrutura de recarga, expansão de corredores e medidas de prioridade ao ônibus, além de sistemas de bilhetagem integrada.

Sinalização para o debate internacional

Ao abandonar o hidrogênio e priorizar a eletrificação por baterias, Liverpool não está isolada. A decisão se soma a um movimento recente de reavaliação crítica de projetos baseados em células a combustível em outras cidades europeias, especialmente onde os custos e a logística do hidrogênio verde se mostraram incompatíveis com a operação cotidiana do transporte urbano.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Dijon, na França. Em 2025, a Dijon Métropole decidiu abandonar seus planos de introduzir ônibus urbanos a hidrogênio, após estudos apontarem viabilidade econômica insuficiente e fragilidade na cadeia de fornecimento da tecnologia. A cidade optou por concentrar investimentos em ônibus elétricos a bateria, mantendo o hidrogênio apenas em aplicações específicas já contratadas, como parte da frota de coleta de resíduos.

Outras experiências europeias também vêm demonstrando cautela crescente. Mesmo em países que lideraram projetos-piloto com ônibus a célula de combustível na década passada — como Alemanha, Países Baixos e Reino Unido — operadores e autoridades passaram a reduzir a escala ou limitar o hidrogênio a nichos muito específicos, diante da rápida evolução dos ônibus elétricos, da queda no custo das baterias e da maior previsibilidade da infraestrutura de recarga.

Nesse contexto, a decisão de Liverpool ganha peso simbólico adicional. A cidade foi cliente de lançamento de um dos mais avançados modelos de ônibus a hidrogênio da Europa, o Enviro400FCEV, apresentado em 2022 como vitrine tecnológica do setor. Ainda assim, a experiência prática mostrou que, ao menos no curto e médio prazo, a tecnologia a bateria oferece um caminho mais robusto para sistemas urbanos intensivos, onde regularidade, custo operacional e confiabilidade pesam mais do que a promessa tecnológica.

O recuo de Liverpool e Dijon não representa o fim do hidrogênio no transporte coletivo, mas reforça a percepção de que essa solução tende a permanecer restrita a aplicações muito específicas, enquanto os ônibus elétricos a bateria se consolidam como a principal alternativa de descarbonização para o transporte urbano na Europa — um debate que começa a ganhar contornos semelhantes também no Brasil.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Santiago disse:

    O Hidrogênio Verde tem um gigantesco potencial.
    Liverpool até tentou induzir a sua viabilidade comercial, e está de parabéns por essa corajosa tentativa!
    Infelizmente porém, tudo indica que ainda esteja cedo para que o Hidrogênio Verde comece a “chegar às prateleiras”.

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