Consultor Ilo Löbel da Luz afirma que crise de motoristas vai além da mão de obra, impacta a segurança operacional e transforma retenção e bem-estar em fatores de competitividade; Letícia Pineschi, conselheira da Abrati, afirma que escassez não é mais uma tendência futura, e já altera a competitividade das empresas
ALEXANDRE PELEGI
A escassez de motoristas deixou de ser um alerta distante e passou a ocupar o centro do debate global sobre o futuro do transporte rodoviário de passageiros. A Busworld 2025, realizada em Bruxelas, evidenciou que a falta de profissionais já interfere diretamente na competitividade das empresas, nas estratégias de expansão e até nas discussões regulatórias em diferentes países.
Em artigo de análise sobre o evento, a empresária e advogada Letícia Pineschi, conselheira da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati), destacou que o problema não pode mais ser tratado como pontual ou restrito a determinados mercados.
“A falta de motoristas não é mais uma tendência futura. Ela já altera a competitividade das empresas, redefine estratégias de expansão e influencia decisões regulatórias em diferentes países”, avaliou Letícia Pineschi.
Segundo ela, a fotografia global apresentada na Busworld revela um cenário preocupante, marcado pelo envelhecimento da força de trabalho e pela dificuldade de atrair novas gerações para uma profissão essencial à mobilidade coletiva.
“Do Brasil à Europa, dos países asiáticos aos norte-americanos, o déficit de motoristas cresce ao mesmo tempo em que o setor discute tecnologia, inteligência artificial e transição energética”, observou.
O contraste, segundo Letícia, é nítido: apesar dos avanços tecnológicos, o transporte rodoviário segue dependente, no curto e médio prazo, de um recurso humano insubstituível.
“Ao mesmo tempo em que empresas e autoridades discutem ônibus autônomos, inteligência artificial e energia limpa, o setor segue dependente de um recurso humano insubstituível. A pergunta-chave deixou de ser ‘como teremos mais motoristas?’ e passou a ser ‘como tornamos a profissão desejada, sustentável e competitiva em um mundo em transformação?’”, afirmou.
É a partir dessa reflexão que se insere a análise do advogado e consultor do setor de transporte rodoviário de passageiros Ilo Löbel da Luz, para quem a escassez de motoristas escancara uma falha estrutural na forma como o setor historicamente tratou a gestão de pessoas.
“O transporte rodoviário enfrenta hoje um apagão de mão de obra porque, por muito tempo, o motorista foi visto apenas como custo operacional. A escassez é consequência direta da falta de investimento na sustentabilidade da carreira”, afirmou Ilo.
Segundo o consultor, a discussão costuma se limitar à dificuldade de contratar novos profissionais, sem enfrentar o ponto central: a baixa atratividade da profissão diante das exigências atuais de qualidade de vida e perspectiva de desenvolvimento.
“É comum ouvir que as novas gerações não querem ser motoristas, mas raramente o setor se pergunta se está oferecendo uma carreira compatível com as expectativas de quem entra hoje no mercado de trabalho”, avaliou.
Qualidade de vida e segurança caminham juntas
Para o consultor, no transporte rodoviário de passageiros a gestão de pessoas não é apenas uma pauta trabalhista, mas um tema diretamente ligado à segurança operacional.
“Um motorista descansado entrega muito mais do que um bom atendimento. Ele entrega segurança. Na estrada, a inconsistência não gera reclamação, gera risco — e risco pode significar acidente”, alertou.
Ilo ressalta que experiências recentes de outros segmentos de serviços mostram que produtividade não está associada ao número de horas trabalhadas, mas à capacidade de manter profissionais engajados, saudáveis e concentrados.
“Produtividade não é tempo ao volante. É qualidade de vida, atenção e capacidade de tomar boas decisões ao longo da jornada. Isso impacta diretamente a segurança viária”, disse.
Tecnologia sem capacitação vira obstáculo
Outro ponto destacado pelo consultor é o paradoxo tecnológico vivido pelo setor. Embora os ônibus estejam cada vez mais modernos, com sistemas avançados de assistência à condução e ferramentas digitais, a falta de treinamento adequado pode afastar profissionais.
“Estamos colocando veículos altamente tecnológicos nas mãos de pessoas que, muitas vezes, não tiveram acesso a uma formação estruturada. Sem capacitação, a tecnologia deixa de ser aliada e passa a ser um fator de exclusão”, afirmou.
Segundo ele, a modernização deve ser usada para melhorar a experiência do motorista, reduzindo desgaste físico e carga cognitiva, e não como um discurso de substituição do profissional.
“Ferramentas como ADAS, apoio à condução e gestão inteligente de rotas existem para tornar o trabalho mais seguro, menos exaustivo e mais atraente. Isso é fundamental para atrair e reter motoristas”, explicou.
O custo invisível de não mudar
Na avaliação de Ilo Löbel da Luz, a resistência de parte do setor em rever escalas, políticas de bem-estar e planos de carreira está associada ao receio de aumento de custos. No entanto, ele alerta que o custo de não mudar é ainda maior.
“A pergunta não deveria ser se a conta de uma nova escala fecha, mas quanto custa manter o modelo atual. Ônibus parados por falta de motorista, turnover elevado, passivos trabalhistas e riscos de acidentes são prejuízos reais”, afirmou.
Para o consultor, a escassez de motoristas é um sinal claro de que o modelo chegou ao limite e precisa ser revisto de forma estrutural.
“Se o setor quer ser moderno, seguro e sustentável, precisa começar por quem torna tudo isso possível. A valorização do motorista não é discurso social, é estratégia de sobrevivência”, concluiu.
Alexandre Pelegi
Jornalista especializado em transportes
Tags SEO: escassez de motoristas, transporte rodoviário de passageiros, gestão de pessoas, Busworld 2025, Abrati, segurança viária, Ilo Löbel da Luz, Letícia Pineschi, mão de obra no transporte, carreira de motorista
