Atraso na revisão de contratos de ônibus ameaça 13º salário e capital paulista corre risco de greve
Publicado em: 6 de dezembro de 2025
Empresas alegam asfixia financeira e travamento burocrático na Prefeitura; impasse sobre revisão de custos que dura seis anos pode paralisar a capital nos próximos dias; SMT afirma que segue honrando com compromissos financeiros junto às concessionárias
ALEXANDRE PELEGI
O sistema de transporte público por ônibus da capital paulista vive uma escalada de tensão que pode culminar em uma greve nos próximos dias, segundo relatos de trabalhadores e operadores. Nas garagens, motoristas e cobradores demonstram incerteza quanto ao pagamento do 13º salário, enquanto as concessionárias afirmam não ter caixa para honrar o compromisso. O setor aponta como causa principal o desequilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão, agravado pelo atraso na chamada revisão quadrienal — uma atualização obrigatória de custos que deveria ter ocorrido há dois anos.
O que é a revisão quadrienal — e por que ela se tornou o centro do impasse
Os contratos de concessão assinados em 2019 preveem, em sua Cláusula Nona, que a cada quatro anos a Prefeitura deve revisar todos os parâmetros de custos, consumos, remuneração e indicadores econômico-financeiros do sistema. Essa revisão — conhecida como revisão quadrienal — serve para recalibrar o contrato com a realidade dos custos do setor, garantindo equilíbrio para ambas as partes.
Na prática, trata-se do processo em que se reavalia o valor da hora operacional, o comportamento da demanda, o custo da frota, os insumos, salários, financiamento e indicadores como o CMPC (Custo Médio Ponderado de Capital) — a taxa que determina quanto custa financiar o serviço. A revisão é indispensável para manter a sustentabilidade contratual e evitar que as empresas operem no negativo.
O problema: a atualização nunca foi concluída. O sistema já opera há mais de seis anos sem que essa revisão obrigatória tenha sido finalizada, acumulando distorções que hoje afetam diretamente a saúde financeira das concessionárias.
FIPE foi contratada para avaliar custos e parâmetros, mas trabalho travou
Para conduzir tecnicamente a revisão quadrienal, a Prefeitura contratou a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) como verificador independente. O Contrato nº 02/SMT.SETRAM/2024, firmado em 11 de abril de 2024, foi celebrado por dispensa de licitação, com valor total de R$ 1.118.000,00.
O objetivo da contratação era validar os custos apresentados pelas concessionárias; recalcular parâmetros essenciais, como o CMPC; revisar premissas técnico-operacionais; e embasar o processo de reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos.
Parte do estudo chegou a ser desenvolvida, com análises de custos operacionais, comportamento da demanda e atualização de indicadores financeiros. No entanto, pelo que a reportagem apurou com algumas concessionárias, elas alegam que não foram chamadas para a etapa de manifestação prévia, prevista no rito e necessária para o contraditório técnico antes do envio do material ao Tribunal de Contas do Município (TCM).
Mesa técnica com o TCM
Uma mesa técnica realizada em 7 de julho de 2025, no Tribunal de Contas do Município, reuniu SPTrans, SMT, FIPE e auditores do TCMSP para discutir o relatório da revisão quadrienal e suas premissas. O encontro abordou temas como metodologia de custos, análises por lote, taxa de remuneração do capital e impactos contratuais. Apesar de permitir o mapeamento das divergências técnicas, nenhum encaminhamento definitivo foi formalizado após a reunião.
Dias depois, a Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito (SMT) solicitou ao TCM o sobrestamento do processo (suspensão temporária da análise, interrompendo a tramitação até nova deliberação), alegando necessidade de reavaliar parâmetros apresentados. Desde então, não houve divulgação pública sobre quais itens estão em revisão nem qual o novo cronograma para a conclusão da revisão quadrienal.
Por que o CMPC pesa nesta revisão
O CMPC — taxa que combina custo da dívida e custo do capital próprio — é central na revisão. O valor utilizado em 2019 já não reflete o ambiente econômico atual.
Desde então, o setor enfrentou pandemia e queda abrupta da demanda; inflação elevada de peças e insumos; forte aumento dos juros; e elevação dos custos trabalhistas.
Sem atualizar esse indicador, os cálculos de equilíbrio permanecem defasados, impossibilitando uma recomposição contratual minimamente realista.
Asfixia financeira e risco real de paralisação
Com a revisão atrasada e sem repasses retroativos — estimados pelas empresas desde maio de 2024 — as concessionárias afirmam que:
- não dispõem de caixa suficiente para pagar o 13º salário;
- esgotaram sua capacidade de endividamento bancário;
- enfrentam crescente pressão de fornecedores e credores.
Diante desse cenário, motoristas e cobradores sinalizam que, se as empresas não quitarem o 13º salário da categoria, a greve será deflagrada, o que pode deixar milhões de paulistanos sem transporte às vésperas do fim de ano.
Um labirinto burocrático ainda sem saída
O cenário atual evidencia uma paralisia administrativa:
- A revisão quadrienal não foi concluída, apesar de ser obrigatória.
- A FIPE entregou parte dos estudos, mas estes não passaram pela etapa formal de contraditório.
- O TCM recebeu o material, mas o processo foi sobrestado pela SMT.
- Não há clareza pública sobre os parâmetros que serão revisados novamente.
- As concessionárias afirmam não ter caixa para obrigações trabalhistas.
- O risco de greve é concreto e pode ocorrer nos próximos dias.
Conclusão
O impasse prolongado da revisão quadrienal transformou um procedimento técnico em uma crise operacional profunda. A falta de transparência nos próximos passos, a indefinição sobre o estudo da FIPE e as dificuldades financeiras das concessionárias criaram um ambiente de incerteza que ameaça a continuidade do serviço.
Sem uma decisão rápida sobre parâmetros, indicadores e recomposição contratual, São Paulo corre o risco de enfrentar uma grave crise do transporte coletivo, com impacto direto sobre trabalhadores, empresas e milhões de passageiros.
Posição da SPTrans
O Diário do Transporte solicitou informações à SPTrans, que diante de vários questionamentos sobre a situação descrita acima, respondeu com a seguinte nota:
A Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte e a SPTrans esclarecem que seguem honrando com os compromissos financeiros junto às concessionárias do transporte público municipal, incluindo a remuneração mensal pelo serviço prestado pelas empresas. A análise dos estudos de revisão quadrienal dos contratos de concessão do transporte público está no Tribunal de Contas do Município. A FIPE atuou como verificador independente.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



As empresas estão no “sufoco financeiro”, mesmo recebendo R$ 6 bilhões por ano de subsídios??? E choramingam isso bem na hora de pagar o 13° aos seus funcionários???
Não cola, e não tem graça nenhuma!!!
Acusavam a CMTC de custar caro aos cofres públicos porque ela era “estatal e deficitária”, e de tanto se tocar-esse-disco ela foi extinta e o seu imenso e valioso espólio repartido entre os amigos-do-rei.
Hoje temos um sistema plenamente privatizado que presta um serviço insuficiente e desrespeitoso ao seu público, que paga mal e super-explora os seus funcionários, que negligência a manutenção dos seus veiculos, e que demanda bilionários e crescentes subsídios que os empresários sempre alegam serem “insuficientes”.
– Privatiza que melhora, né???
Falou tudo meu caro parabéns pela sua colocação
Será mesmo que sambaiba e expresso irão pagar so dia 30/12
Falou pelos cotovelos sem saber de nada, não sabe quanto custa operar o sistema então seria melhor ficar de boca calada! o fato dos numeros serem grande demais para sua cabeça não implica dizer que é o suficiente para operar o sistema!
Estamos a beira de colapso no sistema! Mão de obra está em falta , salários defasados ! Não vai demorar para a acabe esse acordo coletivo e as empresas brigarem por motoristas
Os subsídios existem justamente porque a passagem de R$ 5,00 jamais cobriria todas as obrigações que o próprio contrato impõe. Mas ainda tem gente que acredita que transporte funciona com mágica — ou com “moda” inventada a cada ano.
Quero ver alguém comprar um ônibus hoje e colocar Wi-Fi, ar-condicionado, monitoramento, tecnologia embarcada caríssima, operar grátis aos domingos, pagar folha salarial, manutenção, peças, combustível, e no fim ainda ouvir que “o empresário é o vilão”. Vai lá. Faz as contas. Depois me diz se o problema é mesmo de quem investe — muitas vezes usando dinheiro de outros negócios apenas para manter a empresa respirando.
Enquanto isso, a prefeitura aparece sorrindo ao lado de carros elétricos como se estivesse reinventando o futuro. Quer inovação de verdade? Pagar por um serviço simples, funcional e de qualidade, sem sufocar quem opera e sem iludir quem usa.
Porque eu pergunto: que lógica tem uma cidade inteira enfeitada de Natal e os ônibus parados? Aí eu fico pensando… já imaginou, Ricardo Nunes?
Eu queria saber aonde estão estes 1000 onibus elétrico? Acredito que na fábrica em Botucatu por que na empresa em que trabalho só tem meia dúzia e um monte de bomba para trabalhar nesse calor infernal tudo sucatiado .por que a sptrans nao convoca esses ônibus para amostral para eles vê a situação dessa.s bombas
Sindicato político sempre inventarão greve, por mim privatizava tudo igual CPTM e metrô.
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