Pesquisa da UFRJ aponta migração acelerada de usuários do transporte coletivo para motos no Rio de Janeiro e reforça urgência de prioridade aos sistemas públicos

Foto: Prefeitura do Rio de Janeiro

Levantamento mostra que agilidade nos deslocamentos, mesmo com maiores riscos associados, tem guiado escolhas pelas duas rodas, mas dados indicam caminho de volta possível se houver redução nos tempos de viagem

ARTHUR FERRARI

Uma pesquisa conduzida pela Coppe/UFRJ expôs a velocidade com que o transporte coletivo vem perdendo espaço na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O estudo, baseado em 2.616 entrevistas realizadas entre 18 de junho e 1º de agosto em 22 municípios, indica que a opção pelas motos — particulares ou por aplicativos — tem crescido diretamente em função do tempo excessivo gasto nos deslocamentos urbanos.

O levantamento revela que a escolha pela moto ocorre apesar da percepção de risco: 57% dos usuários afirmam sentir-se inseguros. Ainda assim, a busca por viagens mais rápidas e porta a porta tem prevalecido. Quando perguntados se substituiriam a moto pelo ônibus caso o trajeto fosse mais ágil, 78% responderam afirmativamente. Entre esses, 42% migrariam se a viagem de ônibus fosse até cinco minutos mais curta; 24,18% aceitariam trocar se o tempo fosse igual; e 11% fariam a mudança com redução de 15% no percurso.

Os dados deixam claro que o tempo de viagem se tornou o fator decisivo, superando custo e segurança. O resultado direto dessa migração é um círculo vicioso: quanto mais pessoas abandonam o transporte coletivo por alternativas individuais, mais o sistema perde velocidade, eficiência e competitividade — e esse efeito é cumulativo.

Mesmo assim, o estudo mostra espaço para recuperação da demanda. Segundo a Coppe, 98% dos entrevistados declararam poder utilizar outros meios de transporte. O ônibus foi citado como principal alternativa por 67%. Para essa mudança ocorrer, 28% apontaram redução no tempo como requisito, 14% destacaram a diminuição de custos e 13% mencionaram melhorias de qualidade. Apenas 8% afirmaram não pretender usar o transporte coletivo.

O levantamento mapeou ainda o perfil e os deslocamentos de quem prioriza motos. Cerca de 74% das viagens duram até 20 minutos, e dois terços dos usuários gastam até R$ 10 por trajeto. Mais de 65% utilizam a moto mais de três vezes por semana. As origens mais frequentes são Baixada Fluminense (28%), Leste Fluminense (19%), Zona Norte do Rio (18%), Zona Oeste (12%), região Central (11%) e Zona Sul (5%).

O estudo será apresentado nesta sexta-feira (05) durante a 22ª edição do Rio de Transportes, congresso técnico-científico organizado pela Coppe/UFRJ no Museu do Amanhã, na Praça Mauá, no Rio de Janeiro (RJ). O painel terá início às 8h45.

As propostas indicadas pelos pesquisadores reforçam a necessidade de priorização ao transporte público. A criação de faixas exclusivas e preferenciais para ônibus, combinada com integração entre modos, regularidade, maior oferta e reforço da segurança em pontos e terminais, aparece como estratégia central para reduzir tempos de viagem e reverter a perda de passageiros. A Coppe destaca que incentivos tarifários, isoladamente, têm impacto limitado se não forem acompanhados por ganhos operacionais.

Em sua análise técnica, Eunice Horácio, professora do Cefet/RJ e gerente de Mobilidade da Semove, afirmou: “Sem prioridade viária, o transporte coletivo perde sua atratividade. O passageiro tem optado por viagens mais rápidas e previsíveis em transportes individuais, mesmo pondo em risco a sua segurança. Este modelo agrava os congestionamentos, causando impactos negativos no bem-estar da população e na produtividade do trabalhador. Investir em faixas preferenciais e exclusivas tem um custo baixo, mas possibilita ganhos operacionais importantes com a redução do tempo de viagem nos ônibus”, disse.

Arthur Ferrari, para o Diário do Transporte

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