SPTrans mostra na Arena ANTP como a virada digital deve reorganizar o transporte por ônibus em São Paulo

Apresentação de técnicos da gestora do sistema da capital detalhou o uso de dados, monitoramento em tempo real, integração entre modais e políticas públicas orientadas por evidências para melhorar a experiência de 7 milhões de passageiros por dia.

ALEXANDRE PELEGI

O debate sobre tecnologia no transporte público ganhou centralidade na Arena ANTP 2025. Em um momento em que municípios buscam reorganizar seus sistemas diante de novas dinâmicas de mobilidade — horários mais dispersos, aumento das viagens fora do pico tradicional, necessidade de integração real entre modais e pressão dos usuários por previsibilidade — a discussão sobre inteligência operacional deixou de ser vista como sofisticada e passou a ser tratada como infraestrutura básica.

A crescente digitalização não está sendo impulsionada apenas por tendências internacionais, mas por uma exigência concreta das cidades brasileiras: operar sistemas complexos, altamente capilares e expostos a condições adversas, com capacidade de resposta em tempo real. São Paulo, que concentra o maior sistema de ônibus do país, tornou-se exemplo emblemático dessa necessidade. Ao mesmo tempo em que expande políticas de acesso, cria novas redes de alta demanda — como o Aquático e o futuro BRT Aricanduva — e avança na transição energética, enfrenta o desafio de coordenar diariamente mais de 13 mil veículos distribuídos em 1.320 linhas.

É nesse contexto que a participação da SPTrans no congresso se tornou um dos pontos mais observados da programação. O painel apresentou, de maneira técnica, como a empresa tem estruturado sua virada digital e quais elementos estão guiando a reorganização da operação. Com falas alinhadas e baseadas em dados, os representantes detalharam como a cidade está migrando para um modelo de gestão orientado por informação qualificada, simulação de cenários e ação integrada entre modais — requisitos considerados essenciais para garantir um transporte previsível, transparente e capaz de responder à velocidade real da cidade.

O atual processo de modernização da SPTrans está diretamente vinculado à licitação referente à concessão e à operação do sistema de ônibus de São Paulo, concluída em 2019, na qual a incorporação de dados, sistemas de inteligência operacional e integração modal foram destacados como elementos centrais do edital. Nesse certame, a Clever Devices saiu vencedora, com proposta de quase R$ 1 bilhão, assumindo a implementação de plataformas de planejamento de serviços, despacho assistido por computador e localização automática de veículos, sistemas de informação aos passageiros em tempo real, monitoramento da integridade da frota e análise de dados operacionais.

Essa base contratual e tecnológica moldou o plano apresentado no palco da Arena ANTP 2025, no qual a SPTrans destacou como pretende reorganizar o sistema de ônibus da capital com foco em previsibilidade, integração e experiência do usuário.

No painel, moderado pela jornalista Fátima Mesquita, da ANTP, participaram Jeanete de Lazare Laginhas (Superintendente de Planejamento e Avaliação de Mobilidade), Eduardo Castellani Gomes dos Reis (Gerência de Avaliação de Mobilidade e Experiência dos Usuários) e Caio Vinicius de Moura Luz (Diretor de Planejamento de Transporte).

O Painel: foco na experiência do passageiro

A superintendente de Planejamento e Avaliação de Mobilidade, Jeanete de Lazare Laginhas, iniciou a apresentação explicando que a reorganização da operação parte de uma revisão das dimensões de qualidade: expectativa, oferta, entrega e percepção. Para ela, o transporte público voltou a ser analisado como experiência — e não apenas como serviço técnico.

A experiência do usuário não muda só com tecnologia; muda com planejamento, com padrões claros e, principalmente, com informação confiável no momento em que ele mais precisa, afirmou.

Jeanete destacou que o novo Sistema de Monitoramento e Gestão Operacional (SMGO) foi concebido para atuar em uma cidade que já não segue padrões fixos de pico. “A dinâmica da cidade muda o tempo inteiro. A gente precisa de flexibilidade — e de tecnologia para isso”, explicou. Ela reforçou que a comunicação passou a ser entendida como parte da infraestrutura: “O passageiro precisa saber se haverá desvio, alagamento ou mudança de ponto. A tecnologia tem que servir para dar essa previsibilidade.

O gerente de Avaliação de Mobilidade e Experiência dos Usuários, Eduardo Castellani Gomes dos Reis, aprofundou o tema central da transformação: a confiabilidade dos dados. Segundo ele, não há sistema avançado capaz de funcionar sem base sólida.

“Nenhuma inteligência artificial salva dado ruim. O passageiro até aceita atraso — o que ele não aceita é informação errada”, afirmou.

Eduardo chamou atenção para a mudança de comportamento dos usuários: “O usuário acha que sabe a hora do ônibus porque sempre fez o mesmo trajeto. Mas hoje a cidade é outra. A ideia é permitir que ele se planeje de verdade.” Ele também ressaltou que integração vai muito além de tarifa: “Integração não é só tarifa ou infraestrutura física. É o passageiro descer do trem já sabendo que o ônibus está chegando — ou que vale pegar outro caminho.

O diretor de Planejamento de Transporte, Caio Vinicius de Moura Luz, apresentou os números que justificam a robustez do sistema tecnológico: São 13 mil veículos, 1.320 linhas, 2,3 milhões de quilômetros rodados por dia — 59 voltas na Terra diariamente — e 7 milhões de passageiros. Não existe nada parecido.” Para ele, a capilaridade do sistema é a tradução mais direta do papel social do transporte público:

96% da população de São Paulo tem um ponto de ônibus a 300 metros de casa. Isso é inclusão social.”

Caio detalhou como a análise de dados tem orientado políticas públicas recentes. O Mamãe Tarifa Zero, por exemplo, surgiu do cruzamento de dados de deslocamento e horários de creches: “O programa tem mais de 99% de aprovação das usuárias e já integra o Plano de Metas da cidade.” Eduardo complementou explicando a criação das linhas temáticas Paulistar, fruto da análise das viagens aos domingos: “Descobrimos que lugares de lazer e centros religiosos eram os grandes polos. Daí nasceram as Paulistar.”

Os impactos diretos da modernização também foram apresentados. O Aquático São Paulo reduziu viagens antes superiores a uma hora para cerca de 20 minutos. A ampliação da frota de ônibus elétricos trouxe ganhos percebidos dentro da operação. “Os motoristas elogiam a redução de ruído. É conforto pra quem dirige — e pra quem viaja”, relatou Caio.

Em resposta à plateia, Eduardo reconheceu que o deslocamento até o ponto tem sido incorporado às análises: “Tecnicamente, deveríamos olhar só pro ônibus. Mas não dá. A experiência começa no caminho até o ponto. Estamos criando indicadores pra medir isso.

O painel mostrou que a virada digital da SPTrans não é apenas tecnológica — é estrutural. Trata-se de reorganizar processos, padronizar critérios, integrar áreas e transformar a operação em uma plataforma que lê a cidade em tempo real. O uso de dados qualificados, a capacidade de monitoramento contínuo e a integração informacional entre modais foram apresentados como bases para aumentar a previsibilidade, reduzir incertezas e melhorar a experiência de quem depende do ônibus todos os dias.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
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Comentários

Comentários

  1. Santiago disse:

    Este é o grande desafio e fator decisivo pra alavancar o transporte público e manter passageiros no sistema, e atrair de volta os muitos passageiros que o abandonaram.
    A Inteligência Operacional é a alma do sistema, juntamente com a infraestrutura física. O ônibus em si é apenas a ferramenta mais visível do sistema, e a etapa mais fácil (basta só encomendá-lo ao fabricante).
    Finalmente os gestores públicos começam a entender e aceitar isso!

  2. Davi medes disse:

    Tem que se preocupar,com o sistema como um todo , tecnologias são bem vindas , tantos para os passageiros como para as empresas e não se esquecendo do principal que nem foi citado e nem é citado o motorista sem ele não há sistema, cadê a Caio que não faz um cocpit melhor para os motoristas bancos melhores para o motorista? Está na hora de pensar em conforto para o motorista as empresas valorizarem os motoristas já estão sem motoristas e vai pior a cada ano que passa !

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