Arena ANTP 2025: sem comunicação, o transporte público perde a disputa pela atenção — e pelo passageiro

Da esquerda para a direita: Alexandre Pelegi, Dimas Barreira, Ana Carolina Nunes e Lúcio Mesquita

Em painel com especialistas como Lúcio Mesquita, Ana Carolina Nunes e Dimas Barreira, o recado foi direto: quando o passageiro se sente informado, respeitado e parte de um sistema coletivo, o transporte deixa de ser apenas deslocamento — e passa a ser pertencimento

ALEXANDRE PELEGI

O painel “Amor e Ódio no Transporte Coletivo: a Comunicação pode virar esse jogo?”, realizado na Arena ANTP 2025, abriu espaço para um debate que foi além da operação e da infraestrutura: a relação emocional do passageiro com o transporte coletivo urbano.

A proposta foi clara: a crise de confiança no transporte não é apenas operacional, mas comunicacional. O usuário se sente distante de um sistema que não fala com ele, que não o informa no momento certo e que, por isso, o faz acreditar que o transporte coletivo é um problema — e não uma solução.

“Mais do que avisos operacionais, a comunicação deve ser estratégica. Ela cria confiança, reduz insatisfações e constrói uma cultura de valorização do transporte público”, destacou a abertura do painel, moderado por Alexandre Pelegi, do Diário do Transporte e da ANTP, além de editor do Podcast do Transporte e da Revista dos Transportes Públicos.

Participaram da discussão o jornalista Lúcio Flávio de Souza Mesquita Filho, radicado há mais de 30 anos na Inglaterra (hoje resididno em Bristol) e com mais de duas décadas de atuação na BBC de Londres; a especialista Ana Carolina Nunes, doutora em Administração Pública e Governo pela FGV e diretora da associação Cidadeapé; e o empresário Dimas Barreira, presidente do Sindiônibus do Ceará e conselheiro da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) e do Instituto MDT (Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte).

A experiência londrina: consistência, simplicidade e presença constante

Primeiro a falar, Lúcio Mesquita trouxe o olhar de quem vive há décadas no Reio Unido e testemunhou a transformação do transporte público em marca de orgulho nacional. Ex-editor e executivo da BBC, e hoje consultor sênior da INNOVATION Media Consulting, ele destacou três princípios que explicam o sucesso londrino: consistência, simplicidade e presença constante.

“Em Londres, onde quer que você vá, a linguagem é a mesma — o símbolo, a fonte, a lógica das cores. Isso cria familiaridade e reduz o atrito. O passageiro não precisa decifrar o sistema; ele o reconhece”, afirmou.

A simplicidade, disse, é outro pilar: “Toda organização precisa decidir onde colocar a complexidade. Londres a esconde nos bastidores e mantém a experiência simples para o usuário. Aqui, muitas vezes, a confusão é empurrada para o passageiro.

E completou: “No ônibus em que vim hoje, da Nove de Julho até aqui, não havia um único cartaz útil. Nenhuma conversa com o passageiro. É o oposto do que se faz em Londres, onde o sistema fala com você o tempo todo. Comunicação não é custo — é parte da experiência.

Informação no ponto: quando o sistema se cala, o passageiro se perde

A especialista Ana Carolina Nunes, diretora da associação Cidade a Pé, trouxe o olhar da cidadania e da mobilidade ativa. Para ela, informar o passageiro é um direito fundamental, não um complemento.

“O texto do PL do Marco Legal do Transporte Público, o PL 3278/2021, em debate no Congresso, fala em informar o passageiro no ponto de embarque ou por aplicativo. Eu discordo do ‘ou’. Tem que ser ‘e’. Quem depende do transporte não pode ser obrigado a ter celular ou internet para se orientar”, afirmou.

Ana destacou problemas simples, mas recorrentes: avisos de desvio de itinerário que trazem apenas listas de ruas, sem mapas, e pontos de ônibus que não exibem nenhuma informação. “O passageiro descobre o desvio quando o ônibus não passa. Isso mina a confiança.”

Ela também criticou a substituição de mapas físicos por QR Codes nos trens da CPTM. “Isso exclui parte dos usuários e destrói o hábito de leitura do espaço. Mapas ensinam as pessoas a entender a cidade. Sem eles, a pessoa perde autonomia.”

“Comunicação pública precisa ser compreensível para quem usa o serviço. É preciso testar a informação com o público, não com quem a produz”, concluiu.

“O usuário virou cliente — e tem escolha”

O empresário Dimas Barreira, presidente do Sindiônibus, alertou que a comunicação tornou-se questão de sobrevivência.

“Hoje, comunicar bem é condição básica para existir. Fortaleza transporta menos da metade dos passageiros de dez anos atrás, e muitos simplesmente viraram a página. Acham que se livraram do transporte coletivo, e isso é o mais grave”, afirmou.

Barreira lembrou que o passageiro agora é um cliente com poder de escolha. “Quem comunica melhor hoje são as plataformas privadas, não o transporte público. Elas criaram vínculo emocional. Nós ainda não.”

Ele também ressaltou o impacto ambiental da perda de usuários: “Cada pessoa que deixa o ônibus e vai para o carro ou moto aumenta em doze vezes sua pegada de carbono. Todo mundo fala em sustentabilidade, mas o transporte coletivo é o verdadeiro aliado do planeta.”

“A comunicação tem de mostrar que o ônibus é solução, não problema. Se não fizermos isso, o transporte vai desaparecer do mapa das prioridades públicas”, resumiu.

Comunicação como política pública e instrumento de governança

No encerramento, o moderador destacou que a liderança da comunicação deve partir do poder concedente, mas envolver toda a cadeia produtiva — operadores, fabricantes, empresas de tecnologia e gestores de terminais.

“O ônibus elétrico rende foto e manchete, mas informação boa rende confiança — e passageiro de volta”, observou Pelegi.

Mesquita acrescentou que mudar comportamento requer política pública articulada: “É incentivo e restrição. Londres e Bristol estão tornando o carro menos conveniente. O cidadão precisa sentir que o transporte público é o caminho mais fácil e lógico.”

O que faz sentido anunciar dentro do transporte?

Provocada pela representante da Rede C40 de Cidades, a mesa também discutiu o uso dos espaços publicitários do transporte. Ana Carolina Nunes defendeu critérios éticos de veiculação, restringindo anúncios que promovam apostas, combustíveis fósseis ou serviços concorrentes irregulares.

“É surreal ver propaganda de aplicativo de moto no abrigo de um ponto de ônibus. Isso mina a credibilidade do sistema e confunde o passageiro”, disse.

Barreira lembrou que o setor tentou construir uma campanha nacional inspirada no “Agro é pop”, mas sem continuidade. “Precisamos de constância e conteúdo coletivo. O transporte precisa se afirmar como serviço essencial, como parte da identidade urbana.”

“As pessoas e o poder público estão desistindo do transporte público”

O painel terminou com uma constatação unânime: sem comunicação, o transporte coletivo perde a disputa pela atenção — e, sem atenção, perde o passageiro.

A frase final de Dimas Barreira ecoou entre os participantes:

“As pessoas e o poder público estão desistindo do transporte público.”

O alerta é duro, mas necessário. Reconquistar o amor do passageiro começa com algo simples — e urgente: voltar a falar com ele.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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