A “gratuidade premium” que ameaça os ônibus-leito do Brasil

Consultor Ilo Löbel da Luz vê na ampliação indiscriminada de benefícios o mesmo erro que inviabilizou as companhias aéreas de baixo custo: políticas bem-intencionadas, mas economicamente letais

ALEXANDRE PELEGI

“Estamos repetindo, no transporte rodoviário, o mesmo erro que já afastou as companhias low-cost do setor aéreo”, alerta o consultor Ilo Löbel da Luz, especialista em regulação da ANTT e mobilidade de passageiros. Ele se refere ao movimento crescente de projetos de lei e decisões judiciais que buscam estender gratuidades — como as do Estatuto do Idoso e da Lei do Passe Livre — para todos os tipos de serviços interestaduais, inclusive os de padrão mais elevado, como executivo, semileito, leito e cama.

“É uma leitura perigosa e equivocada da lei. Esses benefícios sempre foram previstos para o serviço básico, o chamado convencional. Forçar sua aplicação irrestrita desestrutura o modelo de negócios do transporte rodoviário e compromete o futuro do setor”, explica o consultor.

Ilo traça um paralelo direto com a aviação civil. “No debate sobre as bagagens, muita gente achou que a cobrança era uma injustiça. Mas o que se esquece é que o modelo low-cost depende disso. É o que permite tarifas mais baixas para quem viaja leve, e serviços adicionais pagos para quem precisa de mais conforto. Quando o governo interfere e impede essa diferenciação, mata-se a inovação.”

Segundo ele, o mesmo raciocínio vale para os ônibus:

“O transporte público interestadual precisa ter liberdade para oferecer diferentes níveis de serviço e preço. A gratuidade no convencional é socialmente justa, mas estendê-la ao leito-cama é o mesmo que obrigar uma companhia aérea a oferecer classe executiva gratuita para determinados passageiros. Isso simplesmente inviabiliza o modelo.”

Para Ilo, o problema é mais profundo do que a questão econômica: é institucional.

“Estamos legislando pelo clamor popular, sem avaliar as consequências técnicas. As leis que tratam das gratuidades não determinaram que o benefício se estenda a todos os serviços — elas delegaram ao Poder Executivo e à ANTT a tarefa de regulamentar o alcance desse direito. Se o legislador tivesse pretendido incluir serviços seletivos, teria escrito isso de forma clara.”

O consultor lembra que a diversidade de serviços — do convencional ao leito-cama — é o que mantém o setor competitivo, incentiva a melhoria da frota e cria espaço para novos investimentos.

“Se a Justiça ou o Congresso impuserem a gratuidade total, o custo será repassado a todos. E o resultado é previsível: as empresas deixarão de oferecer serviços diferenciados, os passageiros terão menos opções, e o sistema perderá qualidade e eficiência.”

A analogia com o setor aéreo volta no fechamento da análise de Ilo:

“Da mesma forma que a bagagem grátis matou as low-costs, a gratuidade premium pode decretar o fim dos ônibus-leito. No fim das contas, quem perde é o passageiro — paga mais caro por um serviço mais pobre.”

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Tiago disse:

    “Se o legislador tivesse pretendido incluir serviços seletivos, teria escrito isso de forma clara”

    De maneira análoga: Se o legislador tivesse pretendido EXcluir serviços seletivos, teria escrito isso de forma clara.
    Ele não escreveu. Então o juiz decide.

  2. Santiago disse:

    A gratuidade para casos específicos visa garantir o direito básico de mobilidade a esses grupos, o que já está plenamente GARANTIDO pelo serviço convencional.
    E porque no convencional? Porque é o padrão de serviço obrigatório a toda e qualquer operadora regular, sendo o único padrão que todas as concessionárias são obrigadas por lei a operá-lo.

    Já o serviços Executivo, Leito, Leito-Cama, entre outros, são comodidades extras. Tratam-se de serviços opcionais, utilizados por uma escolha do consumidor, e que portanto devem sim ser pagos, sem qualquer gratuidade obrigatória.
    Os legisladores que tentam impor a gratuidade também a estes serviços, o fazem sem qualquer base técnica e movidos pelo mero populismo rasteiro em favor das suas carreiras pessoais. Um flagrante abuso de autoridade e malversação do cargo.

    1. Santiago disse:

      A principal controvérsia em torno das gratuidades é: Quem paga a conta???
      Afinal o serviço prestado tem custos e despesas. Ele não caiu do céu, e nem brotou da parede.
      Nos ônibus urbanos com bilhetagem, as prefeituras remuneram às concessionárias.
      No caso dos rodoviários, não consta que haja qualquer remuneração.
      É muito facil legislar decretos custeados pelo bolso alheio. Basta não se ter qualquer bom-senso, e estar pouco se lixando para o mundo real..

    2. José Antônio Queiroz disse:

      Perfeito Santiago. Esse consultor não passa de puxa-saco das empresas desprezando prerrogativas que são respeitadas no mundo todo.
      Ele recusa comentar que as Empresas começaram a boicotar os idosos, deficientes etc retirando os ônibus convencionais das linhas e os poucos que tem eles impoem uma tremenda burocracia institucional e até fisica para “ferrar” o pessoal. A ANTT não tem nenhum interesse em resolver esse impasse. Se você procura ajuda , eles dizem que vão fiscalizar e que se dane o usuário aqui mencionado.
      Ô pior está nas linhas interestaduais. Algumas linhas estaduais como a mineira SARITUR atende muito bem esses usuários. Outras , até neste serviço ignora os usuários.
      É reclamar diretamente à Presidência da República e ao STF.
      Um abraço.

  3. Renato Carlos Pavanelli. disse:

    Que tal para as empresas não perderem, cobrar 50% do valor normal de idosos e das pessoas que se beneficiem. É uma ideia que deveria ser pensada e colocar na planilha. Quem sabe equilibra para todas às partes.
    Renato Carlos Pavanelli. Limeira,SP.

  4. BOM DIA,SOU DEFICIENTE VISUAL, NÃO VEJO NADA DE ANORMAL O DIREITO DO IDOSO E PESSOAS COM DEFICIENCIA,TER O DIREITO A GRATUIDADE,UMA VEZ QUE NÓS TRABALHAMOS MUITO,JA VIAJAMOS MUITO,TUFO PAGO COM NOSSO SUOR, TEMOS QUE BRIGAR POR NOSSOS DIREITO E POR MAIS BENEFÍCIOS, PARA TODOS OS IDOSOS E PESSOAS COM DEFICIÊNCIA,,PARA AQUELES QUE GANHAM ATÉ 3 SALÁRIOS MÍNIMOS .O GOVERNO JA REPASSA PARA AS EMPRESAS O CHAMADO SUBSÍDIO FISCAL,JA ESTA BOM DEMAIS OBRIGADO VAMOS A LUTA POR MAIS BENEFÍCIOS.

  5. Washington disse:

    Gratuidade sempre custa para alguém, daqui a pouco não teremos mais transporte rodoviário de qualidade, já está difícil atrair novos clientes, por conta de busers, bla bla car, etc, fazer política com dinheiro dos outros é muito fácil.

  6. Pal Kunkanen disse:

    Acontece que as empresas não oferecem mais ônibus convencional. Basta ir em uma rodoviária e tentar achar uma linha. É tudo executivo e leito. Porque o consultor não falou das taxas que estão cobrando. São Paulo – Guarapuava via Expresso Nordeste no clickbus 54,00 reais de taxa. Fui no guichê 18 reais. A senhor tem taxa porque somos terceirizados. Ou seja, essas empresas só pensam nelas e no lucro.

  7. Tony disse:

    As empresas colocam o mínimo possível de carros convencionais na linha e completam o restante o restante com executivo, semi-leito e leito que são mais lucrativos para elas. Com isso sobram menos assentos elegíveis para os beneficiários.

  8. Thalles Ferreira disse:

    Primeiro que não foi bagagem grátis que matou as low cost aéreas, tanto que hoje não tem bagagem e continua não tendo low cost. As bagagens foram um fator, dentre tantos outros, que atrapalharam as companhias. Usar esse argumento como único é simplesmente canalhice. É tentar distorcer a discussão.

    No caso a ser discutido, a lei foi criada num momento onde basicamente só existia o ônibus convencional e alguns poucos serviços executivos, há bem mais de uma década. Hoje o cenário é o oposto, praticamente todas as companhias excluíram o serviço convencional para agregar valor no transporte rodoviário, que perdia a competição com as aéreas, isso num cenário pré pandemia ainda.

    O transporte RJ-SP, que enxergo como referência para o país por se tratar das 2 maiores metrópoles, possui hoje muito pouco serviço “convencional”. A Viação 1001, talvez a maior empresa que funciona nesse trajeto, criou mecanismos para atender apenas o obrigatório da lei, minimizando e dificultando ao máximo a aquisição desse tipo de passagem. A aquisição deve ser feita pessoalmente em guichê, limitada a 2 passagens por ônibus que tem frequência diária. Basicamente garantem o direito a uma dezena ou menos de idosos/PCD num universo de milhares de passagens diárias que vendem. Um cenário totalmente distinto da realidade atual em comparação com a implantação da lei, quando bancos ainda mal tinham internet banking, quando praticamente não haviam compras de passagem online, quando até banheiro num ônibus era luxo. O cara não querer que o benefício se modernize junto com o serviço é absurdo.

  9. Rodolfo disse:

    A gratuidade apenas em convencional é injusta, porque hoje a frota de ônibus convencional é muito reduzida e não cobre a maior parte dos destinos. Ela deveria ser extendida para ônibus executivos e semi leito. Mas falar de extender para leito e leito cama aí já fica injusto pras operadoras, já que esses são serviços diferenciados com valor de passagem mais elevado.

  10. Maria Luiza Gomes de Carvalho disse:

    Fui comprar uma passagem com o idjovem e mesmo com 50% de desconto não tinha mais ônibus convencional, eles alegam que tem que comprar com 2 meses de antecedência. Um absurdo isso!

  11. Paula Suellen Pereira De Oliveira disse:

    Precisa liberar mesmo o passe livre a outro ônibus pois as maioria das empresas não tem ônibus convencional dificultando a gente viajar quando coloca 1 por semana e duas vagas difícil precisa ser todos os dias ter duas vagas e não um por semana 90 por cento das empresas não tem esse ônibus convencional pura mentira. Apoio em todos os ônibus a empresa não vai perder nada as pessoas pagantes irá continuar viajando sempre querem exclui os menos favorecido

  12. Vanessa Rodríguez disse:

    A opinião desse consultor é preconceituosa e capacitista , achar que as pessoa que tem direito a gratuidade seja limitada somente no ônibus convencional que tem pouca demanda para o público que necessita do transporte interestadual. O jornalista Alexandre deveria se possionar em favor das das pessoas que necessita desse tipo de transporte e não se possinar contra a prioridade que é direito e não favor .Espero que ANTT libere o direito pra todas as classes do convencional ao leito para o público que te direito a prioridade.

  13. JONAS NOGUEIRA MONTEIRO disse:

    Quem paga a conta quando um prefeito, governador ou a presidência decreta gratuidade ??? Quem paga é aquele que trabalha e produz. Ex. O governo federal quer tarifa zero para transportes em todos os municípios. CUSTO de 100 BILHOES DE REAIS, Quem vai pagar a conta ?? Quem te garante que uma prefeitura manipule dados para aumentar números de passageiros ??

  14. EDVALDO disse:

    Queria ver alguém dar gratuidade se o governo fosse obrigado a pagar pelo serviço, fazer caridade com o dinheiro dos outros é muito fácil. Hipocrisia pura

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