Para Lúcio Gregori, que idealizou o Tarifa Zero, “o transporte coletivo é tratado como business, e não como direito”
Publicado em: 18 de outubro de 2025
Ex-secretário de Transportes de Luiza Erundina (1989-1992), Gregori defende que o transporte público gratuito é antes de tudo uma proposta política de redistribuição da riqueza e de redefinição da cidade
ALEXANDRE PELEGI
Engenheiro e urbanista, Lúcio Gregori é reconhecido como o idealizador da proposta de Tarifa Zero para o transporte público.
À frente da Secretaria Municipal de Transportes de São Paulo na gestão de Luiza Erundina (1989–1993), foi o principal formulador do projeto que propunha a gratuidade total nas passagens de ônibus da capital paulista.
O plano previa uma reforma tributária progressiva, na qual os setores que mais se beneficiam do transporte coletivo contribuiriam para o financiamento do sistema, e não apenas a prefeitura.
Apesar do apoio da prefeita, a proposta não foi aprovada pela Câmara Municipal, mas tornou-se referência histórica para debates e movimentos sociais que vieram depois — entre eles o Movimento Passe Livre (MPL).
Três décadas depois, a ideia de Gregori segue inspirando cidades e gestores que buscam alternativas para um modelo de transporte mais justo, acessível e sustentável.
Em entrevista ao Diário do Transporte, conduzida por Alexandre Pelegi, Gregori, hoje com 89 anos, voltou a defender a proposta. Para ele, o transporte público brasileiro continua sendo tratado como um negócio, e não como um direito social, o que inviabiliza seu funcionamento pleno e democrático.
“O sistema se tornou inviável dentro da lógica tarifária”
Segundo Gregori, o ponto de partida para a Tarifa Zero foi o reconhecimento de que o modelo de financiamento baseado apenas na cobrança de tarifa é insustentável.
“O sistema foi ficando cada vez mais inviável numa base tarifária. Pra funcionar adequadamente, a tarifa teria de ser inacessível à população. Então, a solução é radicalizar: fazer um subsídio total, e com isso viabilizar o sistema economicamente.”
Ele defende que o transporte deve ser financiado por toda a sociedade, especialmente pelos setores econômicos que mais se beneficiam dele.
“Não dá pra tratar transporte público como um negócio qualquer. É preciso reformular as fontes de financiamento e enxergar o sistema como serviço essencial, não como business.”
“Tarifa Zero é uma proposta política, não técnica”
Gregori alerta que reduzir a discussão a cálculos econômicos desvia o foco da verdadeira natureza da proposta.
“O Tarifa Zero é uma proposta política sobre duas coisas fundamentais: a distribuição da riqueza e a forma de gestão da cidade. Hoje o sistema é organizado para garantir o business — o capital — e só depois se vê como fica o passageiro.”
Na visão dele, implantar a gratuidade exige um redesenho urbano e político profundo, incluindo a redistribuição do espaço viário.
“Setenta e cinco por cento do espaço das ruas é ocupado por automóveis. Se queremos transporte público de verdade, temos que ampliar faixas exclusivas e reduzir as de carros. Isso muda o modelo econômico da cidade.”
“A PEC 25 pode mudar o jogo”
Durante a entrevista, Gregori lembrou que ainda não está garantido constitucionalmente o transporte como direito social, mas há um avanço em curso.
“A PEC 25, que ainda não foi votada, estabelece que o transporte coletivo passa a ser um direito. Quando isso for aprovado, o cidadão poderá exigir judicialmente esse direito. É uma mudança estrutural.”
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 25/2023, em tramitação no Congresso Nacional, pretende incluir o transporte como direito social no artigo 6º da Constituição Federal, ao lado de saúde, educação, moradia e trabalho. Se aprovada, obrigará União, Estados e Municípios a tratarem o transporte público como serviço essencial de cidadania, e não como mercadoria sujeita à lógica de mercado (leia mais sobre o assunto no fim da entrevista).
“O transporte público virou refúgio dos que não têm opção”
Com olhar crítico sobre a desigualdade urbana, Gregori lamenta que o transporte coletivo tenha se tornado um serviço restrito aos mais pobres.
“Ele vai ficando cada vez mais reduzido pra quem não tem outra alternativa. E como essas pessoas têm pouco recurso, o sistema acaba virando um lixão, desculpe a expressão.”
Para o engenheiro, a transformação exige repensar o papel do transporte na economia.
“A mobilidade é hoje um grande negócio — combustível, seguros, aplicativos. E tudo isso pesa contra o transporte coletivo.”
“Tarifa Zero é um desafio estrutural, mas irreversível”
Apesar das dificuldades, Gregori acredita que a Tarifa Zero seguirá crescendo.
“Existem hoje cerca de 130 cidades com algum tipo de Tarifa Zero no Brasil. São soluções locais. Mas quando se fala em São Paulo, aí entra o big business. É outra conversa.”
Ele reconhece, contudo, que o tema ganhou força política, mesmo entre antigos críticos.
“Lula, que era contra, hoje defende. E agora deputados também passaram a levantar essa bandeira. A Tarifa Zero virou discurso político, mas ainda falta transformar em política pública real.”
Um legado que permanece atual
Trinta anos após a primeira proposta de Tarifa Zero, Gregori mantém o mesmo diagnóstico que apresentou no início dos anos 1990: o transporte público será inviável enquanto for regido pela lógica de mercado.
“Não é uma questão técnica, é política. O transporte é um direito que estrutura a cidadania. E enquanto ele for tratado como negócio, continuaremos presos no congestionamento — social e econômico — que paralisa o país.”
O que propõe a PEC 25
A proposta de emenda constitucional apresentada pela deputada Luiza Erundina e outros parlamentares — a PEC 25/2023 — pretende incluir o transporte público entre os direitos sociais previstos na Constituição Federal, ao lado de saúde, educação, moradia e trabalho.
Na prática, o texto busca mudar a natureza jurídica do transporte coletivo, reconhecendo-o como serviço essencial de cidadania, e não como mercadoria submetida à lógica de mercado. A proposta cria as bases para um Sistema Único de Mobilidade, com planejamento integrado entre União, Estados e Municípios, que assegure acessibilidade universal, integração entre modais e financiamento contínuo.
O texto também autoriza a adoção de mecanismos específicos de custeio, como contribuições vinculadas ao uso do sistema viário e de veículos automotores, voltadas ao financiamento do transporte coletivo urbano. O objetivo é diluir o peso da tarifa sobre o usuário e distribuir de forma mais justa o custo do sistema entre todos os setores que dele se beneficiam.
Ainda em tramitação na Câmara dos Deputados, a PEC 25 é vista por Gregori como um passo decisivo para consolidar o transporte público como direito constitucional efetivo de mobilidade, condição necessária para que políticas como a Tarifa Zero deixem de ser experimentos locais e passem a integrar um novo pacto urbano de justiça social.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



Primeiro. Nós já temos vários outros direitos sociais muito mais prioritários, e ainda bem longe de conseguirem atender plenamente à população. Os quais demandam muito mais urgência e recursos, e sendo muito mais aguardados pela população e pelo País.
E é deles que vamos abater a contrapartida pública do financiamento à tarifa-zero???
Segundo. As empresas que existem e empregam na formalidade, já pagam uma grande carga tributária além do proprio vale-transporte. E a grande maioria delas são pequenas e micro-empresas, que aliás geram também a grande maioria dos empregos brasileiros.
Então vamos tributá-las ainda mais, para que fibanciem a contrapartida privada da tarifa-zero??? Inclusive subindo-lhes a régua, para que cubram também a parte do setor informal (aquele que é invisível mas existe)???
Do transporte público a população espera basicamente quatro coisas:
– Intervalos decentes e previsíveis, sem longas e extenuantes esperas nos pontos, que lhes garanta a pontualidade nos seus compromissos.
– Conforto (não luxo) pra se viajar com dignidade tanto sentado(a) quanto em pé, sem lotações sub-humanas.
– Gestão viária mais eficiente, que garanta aos coletivos a maior agilidade e priorização no trânsito.
– Uma TARIFA (sim) amigável e que lhe caiba no orçamento pessoal e familiar. Tanto no dia-a-dia dos compromissos, quanto nos dias e momentos de lazer.
A população só deseja um transporte que ela pode pagar, e que funcione com a devida eficiência e o devido respeito a quem o utiliza.
E é para isso que existe o subsídio público, basta que o poder publico disponha-se a emprega-lo devidamente naquilo que é realmente necessário!
Concordo
“Tarifa Zero” é respeitar o “Direito de ir e vir” na prática. Obrigada
A ideia é boa! Mas por outro lado será uma fonte de corrupção, como é a coleta de lixo ! Toda política pública feita encima de estatísticas, causa um risco grande de exagero nos números e custo com valores duvidosos pelo serviço.
Sou o Engenheiro responsável pelo Tarifa Zero de Leopoldina MG. Aqui conseguimos um projeto economicamente viável. Passamos pelas fases onde vimos a inviabilidade do sistema de Catraca e com novos roteamento conseguimos atender a todos SEM SACRIFICAR AS EMPRESAS. De tudo, acho que foi o único erro dessa proposta inicial.