IA nos contratos de concessão pode garantir transparência, empoderar o passageiro e fortalecer relação entre poder público e operador, diz Gabriel Jacondino, da Motiva Trilhos
Publicado em: 29 de setembro de 2025
Executivo destaca em entrevista ao Diário do Transporte que o debate sobre concessões deixou para trás o antigo tabu entre privatização e gestão estatal; segundo ele, os contratos só fazem sentido quando geram melhorias percebidas pelo usuário
ALEXANDRE PELEGI
A discussão sobre concessões no transporte público brasileiro deixou para trás o antigo tabu que opunha privatização e gestão estatal. Hoje, o desafio está em construir modelos que garantam previsibilidade, transparência e eficiência ao longo de contratos que duram décadas. Essa foi a tônica da entrevista concedida ao Diário do Transporte por Gabriel Jacondino, gerente de concessões da Motiva Trilhos, durante o Smart Cities 2025.
Motiva e a evolução das concessões
A Motiva surgiu em 2025 a partir do reposicionamento do Grupo CCR, consolidando-se como a maior empresa de mobilidade e infraestrutura do Brasil. Seu portfólio reúne quase 40 ativos em 13 estados, com três frentes principais: Rodovias, Trilhos e Aeroportos.
No transporte sobre trilhos, opera as linhas 4-Amarela e 5-Lilás do metrô de São Paulo, as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda da rede metropolitana, o metrô de Salvador e o VLT Carioca, no Rio de Janeiro. Somados, esses sistemas transportam centenas de milhões de passageiros por ano.
Ao relembrar a experiência de Salvador, cujo contrato foi assinado pela CCR em 2013, Jacondino destaca que aquele projeto foi pioneiro ao integrar trilhos e ônibus, mas ressalta que os modelos de concessão evoluíram muito desde então. “O grande salto foi a mudança no modelo de remuneração. Antes, tudo estava atrelado à tarifa paga pelo passageiro, frágil diante de crises como a pandemia. Hoje, São Paulo e outros estados caminham para o pagamento por disponibilidade: a concessionária entrega oferta, e a tarifa passa a ser tratada como política pública.”
Contratos mais maduros, iso de IA e foco no passageiro
Essa mudança também se reflete na forma como os contratos são conduzidos. “Em vez de impor parâmetros prévios, o Estado e a concessionária trabalham juntos para definir regras que façam sentido à operação. É uma relação mais madura, de cooperação.”
Apesar dos avanços, a mensuração de resultados ainda é um desafio. “Mesmo em 2025, muitos contratos usam planilhas Excel. Isso é coisa do século passado. Precisamos incorporar sistemas inteligentes, capazes de processar informações em tempo real. Os indicadores devem servir não só para fiscalização, mas também para dar ao usuário clareza sobre o serviço que recebe.”
Jacondino lembra que uma concessão não pode ser tratada como um negócio comum. “Estamos falando de contratos de 25 a 30 anos, muito além do ciclo normal dos negócios. Isso exige regras claras, boa fiscalização e capacidade de lidar com imprevistos.” Ele aponta também a mudança na cultura regulatória. “Antes prevalecia o comando e controle. Hoje falamos em consensualismo e regulação responsiva. Isso permite atravessar crises de forma construtiva.”
O executivo cita como exemplo as linhas 8 e 9 em São Paulo, quando sanções que poderiam resultar em multas acabaram convertidas em investimentos no sistema ETCS (European Train Control System) – tecnologia que substitui sinais fixos por comunicação direta com a cabine e monitoramento contínuo da velocidade, permitindo reduzir intervalos e aproximar a operação dos trens metropolitanos ao padrão de metrô. “É um benefício direto para a sociedade”, resume.
Outro ponto central é o financiamento. “Muitos ainda acreditam que o subsídio vai para o bolso do empresário. Mas, na verdade, sustenta um serviço essencial para a economia. Quando uma prefeitura anuncia ônibus grátis no domingo, é o subsídio que viabiliza. A grande discussão agora é a fonte de financiamento: hoje, quase tudo vem do cofre público. Até que ponto o transporte individual, que não paga nada, não deveria contribuir?”
Na visão de Jacondino, a tecnologia pode ser a ponte entre contratos e cidadãos. “As concessões acumulam milhares de indicadores, mas como isso chega ao usuário? A inteligência artificial pode transformar dados de fiscalização em informação em tempo real, dando transparência e empoderando quem de fato paga pelo serviço.” Para ele, é nesse ponto que o passageiro se torna central. “Os contratos só fazem sentido quando geram melhorias percebidas pelo usuário: intervalos menores, viagens previsíveis, mais segurança e conforto. É o passageiro quem valida, todos os dias, se a política pública está funcionando.”
Integração e futuro das concessões
Essa centralidade do usuário também se expressa no debate sobre integração metropolitana. “A integração depende tanto de governança quanto de tecnologia. O Rio já separou bilhetagem de operação, aumentando a transparência. Em São Paulo, há projetos para modernizar a gestão metropolitana.”
O próximo passo, diz, é inevitável: a interoperabilidade. “Na Holanda, um único cartão permite viajar pelo país todo. Aqui ainda usamos cartões distintos para ônibus, trens e até municípios diferentes. Mas essa realidade não vai se sustentar: a pressão da sociedade levará à integração plena.”
Com esse horizonte, Jacondino conclui que o debate sobre concessões já está consolidado.
“Concessão não é privatização. É um mecanismo jurídico robusto, que garante investimentos e melhora serviços. O mercado participa quando há confiança e regras claras, gerando competição e ganhos para todos. A questão hoje não é mais se haverá concessão, mas qual modelo melhor atende ao interesse público.”
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


