Eletromobilidade

Para além dos ônibus elétricos: São Paulo precisa de calçadas sombreadas, despavimentação seletiva e espaços de refúgio climático

Quem mora em áreas mais densas e afastadas passa horas no transporte coletivo, muitas vezes em condições precárias de conforto

Com 585 mil atendimentos na Operação Altas Temperaturas em 2024, especialistas da USP alertam que transporte limpo é fundamental, mas insuficiente diante do calor extremo sem políticas de arborização e redes de oásis urbanos

ALEXANDRE PELEGI

Nas últimas décadas, a cidade se acostumou a ver prefeitos disputando quem mais recapeia ruas e avenidas. Só na gestão Ricardo Nunes, já foram destinados bilhões de reais para programas de asfaltamento, com o discurso de que o “chão liso” é sinônimo de modernidade e eficiência. Mas, em meio à emergência climática, a política de cobrir ainda mais a cidade de asfalto contrasta com a ausência de um plano consistente de arborização e cuidado de praças de bairro.

Na prática, especialistas alertam que o desafio não é apenas recapear, mas também despavimentar: abrir espaço para árvores, faixas drenantes e áreas verdes que aliviem o estresse térmico da população. Foi com essa perspectiva que a professora Denise Duarte, da FAU-USP, defendeu, em reunião do Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CADES), a criação de uma rede de oásis urbanos integrados ao transporte coletivo.

Esse desequilíbrio estrutural serviu como pano de fundo para a 269ª reunião plenária do Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CADES), realizada em 10 de setembro de 2025, onde especialistas, gestores públicos e conselheiros debateram as estratégias para enfrentar o calor extremo em São Paulo.

A professora Denise Duarte, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), abriu seu discurso propondo uma mudança de paradigma:

“Precisamos enxergar onde está o formigueiro humano que se desloca todos os dias. Terminais de ônibus, estações de trem e metrô são os lugares estratégicos para criar refúgios climáticos. Ali está a massa trabalhadora que mais sofre com os deslocamentos longos e com a exposição ao calor.”

Desigualdade, densidade e longas jornadas

Denise alertou que o impacto do calor não é homogêneo: atinge com mais força quem mora na periferia e depende do transporte coletivo no dia a dia.

“Quem mora em áreas mais densas e afastadas passa horas no transporte coletivo, muitas vezes em condições precárias de conforto. Essa população é a mais vulnerável porque tem menos alternativas de adaptação em casa e no bairro.”

Ela desenhou um panorama urbano desigual:

“As áreas centrais têm torres, prédios e adensamento imobiliário intenso, mas proporcionalmente menos moradores. Nas franjas urbanas, onde vivem famílias numerosas em espaços reduzidos, o calor se torna insuportável.”

Ruas, calçadas e despavimentação seletiva

A pesquisadora defendeu que não se trata apenas de parques grandiosos, mas de intervenções sutis, porém transformadoras no tecido urbano.

“Não vamos voltar a andar em estradas de terra, mas é possível sim repensar o excesso de pavimento. Despavimentar trechos de quadras, criar faixas drenantes, abrir espaço para árvores. Cada metro recuperado ajuda a infiltrar água e reduzir a temperatura.”

Sobre o desenho das calçadas, ela enfatizou:

“A rua é o maior espaço público que temos. É preciso desenhá-la para as pessoas, com sombra, água potável e mobiliário urbano que alivie o estresse térmico.”

E trouxe dados de pesquisa aplicada:

“Nossas simulações microclimáticas mostram que é possível melhorar a sensação térmica em até 10 ou 12 graus com o uso combinado de arborização, mudança de coberturas e tratamento de superfícies. Isso significa salvar vidas durante ondas de calor.”

Operação Altas Temperaturas: de resposta emergencial a política estrutural

Como demonstração de que a cidade já reconhece a urgência térmica, Denise lembrou o papel da Operação Altas Temperaturas. Criada em 2023, a iniciativa ativou tendas em momentos críticos e trouxe à tona a vulnerabilidade térmica da população.

Em seu primeiro ano, foram cerca de 98 mil atendimentos em apenas sete dias de ativação. Em 2024, a operação atingiu mais de 585 mil pessoas, distribuindo 1,2 milhão de itens (água, frutas, chá). No dia em que foi reativada em fevereiro de 2025, espalharam-se 10 tendas pelas cinco regiões da cidade, com 37.714 atendimentos, distribuição de 37.584 garrafas de água, 6.223 copos de chá gelado, 6 mil frutas, 2.000 copos via Sabesp e 59 animais atendidos.

Ela ressaltou:

“A operação pode se transformar em uma rede permanente de oásis urbanos, estruturada ao longo de corredores e terminais de transporte. O calor extremo não é mais exceção, é parte do cotidiano da cidade.”

Exemplos internacionais e lições locais

Denise buscou inspiração em cidades que já operam oásis urbanos integrados ao tecido urbano:

“Sacramento, na Califórnia, investiu por décadas em sombreamento de ruas. Hoje, visto do alto, parece um brócolis em meio ao deserto. É possível fazer da cidade um oásis melhor que o clima regional.”

E lembrou que a legislação urbana precisa evoluir:

“Revisões recentes de Plano Diretor e Lei de Uso do Solo não ajudaram na pauta climática. Termos de Compensação Ambiental também precisam entrar no século 21: cortar árvore e compensar mal não fecha a conta.”

Próximos passos sugeridos no debate
  1. Transformar a Operação Altas Temperaturas em infraestrutura permanente de oásis urbanos.
  2. Direcionar arborização com base em mapas de risco térmico e demandas de transporte coletivo.
  3. Criar pilotos medidos em corredores e terminais com monitoramento microclimático real (temperatura, umidade, vento, radiação).
  4. Redesenhar ruas e calçadas: implantar faixas drenantes, ampliar sombreamento, instalar água potável e abrigo térmico no mobiliário.
  5. Educação ambiental articulada: escolas, centros esportivos, mobilidade ativa como rede de refúgio e conscientização.

Participantes que se manifestaram no debate
  • Liliane Neiva Arruda Lima – Coordenadora-geral do CADES

  • Denise Duarte – Professora da FAU-USP

  • Eduardo Storópoli – Reitor da Uninove

  • Rosélia Mikie Ikeda – Coordenadora do CPA

  • Flavio Luís Jardim Vital – Conselheiro

  • Suzana Guinsburg Saldanha – Conselheira

  • Ana Maria Rodrigues – Conselheira (Campo Limpo/M’Boi Mirim)

  • José Ramos de Carvalho – Conselheiro

  • Carlos Alberto de Moraes Borges – Secovi-SP

  • Oliver Paes de Barros de Luccia – Sehab / Programa Mananciais

  • Gabriela Pinheiro Lima Chabbouh – UMA-Paz

  • Maria de Fátima Saharovsky – Conselheira (extremo sul)

  • Maria do Carmo Lotfi – Conselheira (Santo Amaro/Parque do Chuvisco)

  • Claudio de Campos – Conselheiro

  • Marco Lacava – Conselheiro


Serviço

O que é o CADES
O Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de São Paulo (CADES) é um órgão colegiado de caráter consultivo e deliberativo que reúne representantes do poder público, da sociedade civil e da academia. Criado em 1992, o conselho discute, propõe e acompanha políticas ambientais e urbanas da cidade, funcionando como espaço de participação social em temas como arborização, mudanças climáticas, resíduos sólidos, mobilidade sustentável e uso do solo.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
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Comentários

Comentários

  1. Santiago disse:

    Complementando o Passo Sugerido n° 4:
    – A Prefeitura deve ser a responsável pela manutenção das calçadas da cidade. E deixar de empurrar essa atribuição aos proprietários dos imóveis lindeiros.
    A calçada é um logradouro público, de uso público, para a circulação pública das pessoas. E portanto cabe exclusivamente ao Poder Público a construção, o cuidado e a manutenção das calçadas.

  2. Marcelo de Souza Oliveira disse:

    Sugestão para profa. Denise: Considerando os corretores de ônibus, seria viável criar “bosques” que acompanhassem todo o percurso…?
    Seria Uma maneira de “isolar ” e “controlar ” os impactos diretos das emissões de CO2 e o ruído dos ônibus em circulação …!??!

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