Para além dos ônibus elétricos: São Paulo precisa de calçadas sombreadas, despavimentação seletiva e espaços de refúgio climático
Publicado em: 27 de setembro de 2025
Com 585 mil atendimentos na Operação Altas Temperaturas em 2024, especialistas da USP alertam que transporte limpo é fundamental, mas insuficiente diante do calor extremo sem políticas de arborização e redes de oásis urbanos
ALEXANDRE PELEGI
Nas últimas décadas, a cidade se acostumou a ver prefeitos disputando quem mais recapeia ruas e avenidas. Só na gestão Ricardo Nunes, já foram destinados bilhões de reais para programas de asfaltamento, com o discurso de que o “chão liso” é sinônimo de modernidade e eficiência. Mas, em meio à emergência climática, a política de cobrir ainda mais a cidade de asfalto contrasta com a ausência de um plano consistente de arborização e cuidado de praças de bairro.
Na prática, especialistas alertam que o desafio não é apenas recapear, mas também despavimentar: abrir espaço para árvores, faixas drenantes e áreas verdes que aliviem o estresse térmico da população. Foi com essa perspectiva que a professora Denise Duarte, da FAU-USP, defendeu, em reunião do Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CADES), a criação de uma rede de oásis urbanos integrados ao transporte coletivo.
Esse desequilíbrio estrutural serviu como pano de fundo para a 269ª reunião plenária do Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CADES), realizada em 10 de setembro de 2025, onde especialistas, gestores públicos e conselheiros debateram as estratégias para enfrentar o calor extremo em São Paulo.
A professora Denise Duarte, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), abriu seu discurso propondo uma mudança de paradigma:
“Precisamos enxergar onde está o formigueiro humano que se desloca todos os dias. Terminais de ônibus, estações de trem e metrô são os lugares estratégicos para criar refúgios climáticos. Ali está a massa trabalhadora que mais sofre com os deslocamentos longos e com a exposição ao calor.”
Desigualdade, densidade e longas jornadas
Denise alertou que o impacto do calor não é homogêneo: atinge com mais força quem mora na periferia e depende do transporte coletivo no dia a dia.
“Quem mora em áreas mais densas e afastadas passa horas no transporte coletivo, muitas vezes em condições precárias de conforto. Essa população é a mais vulnerável porque tem menos alternativas de adaptação em casa e no bairro.”
Ela desenhou um panorama urbano desigual:
“As áreas centrais têm torres, prédios e adensamento imobiliário intenso, mas proporcionalmente menos moradores. Nas franjas urbanas, onde vivem famílias numerosas em espaços reduzidos, o calor se torna insuportável.”
Ruas, calçadas e despavimentação seletiva
A pesquisadora defendeu que não se trata apenas de parques grandiosos, mas de intervenções sutis, porém transformadoras no tecido urbano.
“Não vamos voltar a andar em estradas de terra, mas é possível sim repensar o excesso de pavimento. Despavimentar trechos de quadras, criar faixas drenantes, abrir espaço para árvores. Cada metro recuperado ajuda a infiltrar água e reduzir a temperatura.”
Sobre o desenho das calçadas, ela enfatizou:
“A rua é o maior espaço público que temos. É preciso desenhá-la para as pessoas, com sombra, água potável e mobiliário urbano que alivie o estresse térmico.”
E trouxe dados de pesquisa aplicada:
“Nossas simulações microclimáticas mostram que é possível melhorar a sensação térmica em até 10 ou 12 graus com o uso combinado de arborização, mudança de coberturas e tratamento de superfícies. Isso significa salvar vidas durante ondas de calor.”
Operação Altas Temperaturas: de resposta emergencial a política estrutural
Como demonstração de que a cidade já reconhece a urgência térmica, Denise lembrou o papel da Operação Altas Temperaturas. Criada em 2023, a iniciativa ativou tendas em momentos críticos e trouxe à tona a vulnerabilidade térmica da população.
Em seu primeiro ano, foram cerca de 98 mil atendimentos em apenas sete dias de ativação. Em 2024, a operação atingiu mais de 585 mil pessoas, distribuindo 1,2 milhão de itens (água, frutas, chá). No dia em que foi reativada em fevereiro de 2025, espalharam-se 10 tendas pelas cinco regiões da cidade, com 37.714 atendimentos, distribuição de 37.584 garrafas de água, 6.223 copos de chá gelado, 6 mil frutas, 2.000 copos via Sabesp e 59 animais atendidos.
Ela ressaltou:
“A operação pode se transformar em uma rede permanente de oásis urbanos, estruturada ao longo de corredores e terminais de transporte. O calor extremo não é mais exceção, é parte do cotidiano da cidade.”
Exemplos internacionais e lições locais
Denise buscou inspiração em cidades que já operam oásis urbanos integrados ao tecido urbano:
“Sacramento, na Califórnia, investiu por décadas em sombreamento de ruas. Hoje, visto do alto, parece um brócolis em meio ao deserto. É possível fazer da cidade um oásis melhor que o clima regional.”
E lembrou que a legislação urbana precisa evoluir:
“Revisões recentes de Plano Diretor e Lei de Uso do Solo não ajudaram na pauta climática. Termos de Compensação Ambiental também precisam entrar no século 21: cortar árvore e compensar mal não fecha a conta.”
Próximos passos sugeridos no debate
- Transformar a Operação Altas Temperaturas em infraestrutura permanente de oásis urbanos.
- Direcionar arborização com base em mapas de risco térmico e demandas de transporte coletivo.
- Criar pilotos medidos em corredores e terminais com monitoramento microclimático real (temperatura, umidade, vento, radiação).
- Redesenhar ruas e calçadas: implantar faixas drenantes, ampliar sombreamento, instalar água potável e abrigo térmico no mobiliário.
- Educação ambiental articulada: escolas, centros esportivos, mobilidade ativa como rede de refúgio e conscientização.
Participantes que se manifestaram no debate
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Liliane Neiva Arruda Lima – Coordenadora-geral do CADES
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Denise Duarte – Professora da FAU-USP
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Eduardo Storópoli – Reitor da Uninove
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Rosélia Mikie Ikeda – Coordenadora do CPA
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Flavio Luís Jardim Vital – Conselheiro
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Suzana Guinsburg Saldanha – Conselheira
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Ana Maria Rodrigues – Conselheira (Campo Limpo/M’Boi Mirim)
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José Ramos de Carvalho – Conselheiro
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Carlos Alberto de Moraes Borges – Secovi-SP
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Oliver Paes de Barros de Luccia – Sehab / Programa Mananciais
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Gabriela Pinheiro Lima Chabbouh – UMA-Paz
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Maria de Fátima Saharovsky – Conselheira (extremo sul)
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Maria do Carmo Lotfi – Conselheira (Santo Amaro/Parque do Chuvisco)
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Claudio de Campos – Conselheiro
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Marco Lacava – Conselheiro
Serviço
O que é o CADES
O Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de São Paulo (CADES) é um órgão colegiado de caráter consultivo e deliberativo que reúne representantes do poder público, da sociedade civil e da academia. Criado em 1992, o conselho discute, propõe e acompanha políticas ambientais e urbanas da cidade, funcionando como espaço de participação social em temas como arborização, mudanças climáticas, resíduos sólidos, mobilidade sustentável e uso do solo.



Complementando o Passo Sugerido n° 4:
– A Prefeitura deve ser a responsável pela manutenção das calçadas da cidade. E deixar de empurrar essa atribuição aos proprietários dos imóveis lindeiros.
A calçada é um logradouro público, de uso público, para a circulação pública das pessoas. E portanto cabe exclusivamente ao Poder Público a construção, o cuidado e a manutenção das calçadas.
Sugestão para profa. Denise: Considerando os corretores de ônibus, seria viável criar “bosques” que acompanhassem todo o percurso…?
Seria Uma maneira de “isolar ” e “controlar ” os impactos diretos das emissões de CO2 e o ruído dos ônibus em circulação …!??!