“Mobilidade é inclusão social”: para André Costa, da Motiva Trilhos, “tempo de deslocamento é oportunidade de vida”

André Costa (à direita), com Lívia Suarez, CEO e coordenadora da Bicipr3ta, Salvador (BA)

Diretor das Linhas 8 e 9 da ViaMobilidade destaca papel do transporte sobre trilhos para reduzir desigualdades e criar novas oportunidades

ALEXANDRE PELEGI

A mobilidade urbana é uma das ferramentas mais importantes de inclusão social. Para André Costa, diretor da Motiva Trilhos responsável pelas Linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, operadas pela ViaMobilidade, transporte de qualidade não se limita a levar passageiros de um ponto a outro: ele abre portas para emprego, educação, saúde e melhora a qualidade de vida.

Em entrevista ao Diário do Transporte, Costa reforçou que, enquanto metrô e trem ganham eficiência por circularem em via segregada, o verdadeiro desafio está na interligação com outros modais, em especial o ônibus, que ainda disputa espaço com o automóvel.

“As pessoas chegam à estação, mas muitas vezes não conseguem seguir viagem com a mesma eficiência. Sem uma rede integrada, parte do ganho do trilho se perde.”

Integração e tempo como ativos sociais

O executivo defende que as grandes cidades precisam de soluções intermodais racionais, que combinem trilhos, ônibus, vans sob demanda, bicicletas e micromobilidade, sempre apoiadas em integração tarifária.

“É fundamental que todos os modais sejam remunerados de forma justa e transparente. Só assim o benefício chega de fato ao passageiro.”

Para ele, tempo é um ativo social.

“Onde o transporte público eficiente chega, ele gera economia de tempo, saúde e novas oportunidades. O tempo é um ativo valioso para as pessoas. Em Varginha, por exemplo, a nova estação vai economizar até 35 minutos por viagem. Isso permite estudar, trabalhar mais longe ou simplesmente viver melhor.”

Costa acrescenta que os impactos vão além do indivíduo.

“O transporte sobre trilhos valoriza a região, ajuda no desenvolvimento imobiliário, gera empregos diretos e indiretos e atrai investimentos. A cada minuto economizado no deslocamento, abre-se uma janela para o crescimento econômico e social.”

Cidade de 15 minutos e o “não transporte”

Ao abordar conceitos de planejamento urbano, o diretor destacou a “cidade de 15 minutos”, que busca aproximar serviços da vida cotidiana.

“A lógica é simples: quanto menos deslocamentos desnecessários, maior a qualidade de vida. Se a pessoa pode resolver uma questão de saúde, previdência ou bancária em um hub de transporte perto de casa, ela poupa tempo e tarifa. Isso é inclusão social na prática.”

Essa visão, segundo ele, deve orientar o desenho das redes metropolitanas.

“É preciso pensar mobilidade junto com política pública de desenvolvimento urbano. A cidade que privilegia o carro corta caminhos e impede diálogos. Já a cidade que privilegia o transporte coletivo reconecta territórios e oportunidades.”

Estações como polos de convivência

Costa reforça que as estações devem ir além do embarque e desembarque.

“Quando a estação é limpa, segura, tecnológica e acolhedora, ela deixa de ser apenas um ponto de passagem e se transforma em espaço de convivência e cidadania.”

“Na Estação Mendes-Vila Natal, por exemplo, oferecemos cursos de economia criativa em parceria com o Instituto Motiva. Isso é transformar a estação em espaço vivo, conectado com o território.”

Além do serviço ferroviário, a Motiva Trilhos desenvolve uma série de ações sociais voltadas para educação, cultura e sustentabilidade. Costa enumera com orgulho:

  • Cidadão do Futuro, que leva às escolas temas sobre cidadania e bom uso do transporte público.
  • Economia criativa em Mendes-Vila Natal, com cursos voltados à comunidade.
  • Litro de Luz, no Grajaú, com iluminação sustentável feita por voluntários.
  • Voluntariado: mais de 3 mil colaboradores já participaram de ações, como o mutirão de limpeza em Presidente Altino no Dia Mundial da Limpeza.
  • Parcerias culturais, garantindo acesso gratuito a equipamentos como o Museu da Língua Portuguesa (SP), Museu do Amanhã (RJ) e Fundação Jorge Amado (BA).

“Acreditamos no trabalho a quatro mãos, junto com a comunidade. Cada projeto de voluntariado, cada parceria cultural, é parte do nosso propósito maior: transformar a vida das pessoas por meio da mobilidade.”

Debate no Smart Cities 2025

Essa visão também foi compartilhada publicamente no Smart Cities 2025, realizado nesta quinta-feira (25) no Expo Center Norte, em São Paulo. Costa participou do painel “Mobilidade e Justiça Social: como políticas públicas podem reduzir desigualdades e incluir todos nos deslocamentos urbanos”, ao lado de Lívia Suarez, CEO e coordenadora da Bicipr3ta, iniciativa de Salvador que une bicicleta, cultura negra e inclusão social.

“A mobilidade só será justa quando for para todos. É nesse ponto que a convergência entre trilhos, ônibus, bicicleta e micromobilidade se torna fundamental”, afirmou Costa durante o debate.

A Bicipr3ta atua como espaço cultural e projeto de impacto socioambiental, promovendo o uso da bicicleta como ferramenta de empoderamento e cidadania. Entre suas ações está o projeto “Preta, vem de bike!”, que leva formação, oficinas de mecânica, segurança viária e doação de bicicletas a mulheres de comunidades periféricas e quilombolas, além do desenvolvimento de soluções inovadoras como o capacete Fortheblack, pensado para pessoas com cabelos crespos e trançados.

O diálogo entre o operador de trilhos e a representante da mobilidade ativa mostrou como diferentes perspectivas podem convergir em um mesmo objetivo: reduzir desigualdades e garantir que todos tenham direito à cidade.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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