VÍDEO: Lei do motorista, biodiesel e juros altos são os principais desafios do fretamento atualmente
Publicado em: 25 de setembro de 2025
Empresário Emerson Imbronizio, vice-presidente da ANTTUR e proprietário da Rimatur, diz que segmento ainda não é visto como mobilidade pelas autoridades. Diário do Transporte cobre feira do setor em Foz do Iguaçu (PR)
ADAMO BAZANI/VINÍCIUS DE OLIVEIRA/YURI SENA
O setor de transportes de passageiros por fretamento tem três principais desafios que atualmente impedem novos investimentos, geração de mais empregos e até mesmo coloca em risco a sobrevivência de muitas empresas, algumas que atuam há décadas.
A obrigatoriedade da mistura de 15% de biodiesel ao diesel, que tem gerado custos altos de manutenção e operação; as altas taxas de juros, com a Selic num dos patamares mais altos da história nos últimos 20 anos, tornando financiamentos quase impossíveis, ainda mais que o fretamento não possui nenhum incentivo, sequer diferenciação do IPVA; a Lei do Motorista, que com as alterações determinadas pelo STF (Supremo Tribunal Federal), proibindo o fracionamento da jornada de trabalho e o descanso dentro do veículo, tornou as atividades mais difíceis.
Quem explicou ao Diário do Transporte foi o empresário Emerson Imbronizio, vice-presidente da ANTTUR, associação que representa as viações de fretamento de todo o País, e proprietário da Rimatur.
A reportagem está em Foz do Iguaçu (PR), cobrindo o evento Fretamento 2025, realizado pela ANTTUR e a FRESP, federação que reúne os sete sindicatos do setor no Estado de São Paulo. Até esta sexta-feira, 26 de setembro de 2025, painéis com especialistas discutem estes e outros temas relacionados à mobilidade por fretamento. Também é realizada uma feira que expõem modelos de ônibus, equipamentos e serviços voltados para o fretamento.
Confira entrevista na integra:
ADAMO BAZANI: O Diário do Transporte acompanha o evento Fretamento edição 2025, uma iniciativa da ANTTUR e da FRESP, que visa trazer de perto os operadores de fretamento, os clientes e também os fornecedores de veículos, serviços e toda a sociedade também envolvida na mobilidade das pessoas. Emerson, o vice-presidente da ANTTUR, também proprietário da RIMATUR, que vai contar para a gente primeiro sobre o evento, qual a estimativa deste ano?
EMERSON IMBRONIZIO: Olha, a gente está muito confiante que vai ser um belo evento, conseguimos ter grandes participantes, um número bom de patrocinadores, todos os grandes fabricantes estão conosco e foi recorde de inscrição, temos 470 inscritos para o nosso evento. A gente reúne aqui formadores de opiniões, empresários do Brasil inteiro no ramo de fretamento, fretamento tanto eventual como contínuo e aqui é um grande momento de fazer um network, conhecer as novas empresas, novos desafios e trocar ideias. Então, não tenho dúvida que será um grande evento para nós aqui.
ADAMO BAZANI: Falando de novidade, antes da gente começar a falar das áreas mais miúdas, mas que são necessárias e sempre cotadas, a RIMATUR vem com frota nova, né?
EMERSON IMBRONIZIO: Sim, a RIMATUR vai com frota nova, essa é uma unidade da Volare, que a gente acabou de adquirir mais 10 unidades, Volare Fly 9 com mecânica Agrale, aí também tem 10 Volkswagen Marcopolo que estão sendo entregues, infelizmente não deu para trazer os dois. E temos Renault Master, também um lote de 10 veículos que a gente adquiriu agora, também está sendo entregue neste evento para coroar a entrega dos veículos.
ADAMO BAZANI: São 30 novos?
EMERSON IMBRONIZIO: 10 vans, 10 micros e 10 ônibus.
ADAMO BAZANI: Certo, agora, é claro, todo setor enfrenta desafios e isso é bem cíclico, às vezes os desafios do passado voltam, às vezes desafios novos surgem. Hoje, quais são os principais deles em relação ao fretamento?
EMERSON IMBRONIZIO: Eu vou resumir três, assim, que eu acho que são os que mais nos incomodam. Primeiro, falando de biodiesel, o B15, é um grande problema para nós operadores, ele causa muita manutenção, eleva o nosso custo de manutenção, troca de filtro, de bicos injetores e, sem falar, nas estações de pós tratamento que a gente tem. Então, esse é um grande desafio que eu acho que atrapalha todos os operadores. Você vai falar com o fabricante, mas eu não tenho esse problema em carros que a gente entrega na Argentina, lá não tem o biodiesel B15, aqui tem, então esse é um desafio para nós e a gente tenta amenizar com aditivos, mesmo assim, cada vez o governo elevando o número, nos causa mais desconforto, mais manutenção, esse é um dos desafios. O segundo é essa taxa de juros, essa SELIC altíssima, que na renovação de frota o valor dos veículos são muito altos, a gente normalmente precisa de capital, precisa de financiamento e com essas taxas está impossível. Hoje estamos ajustando, muitas empresas estão indo para o consórcio, ou fazendo com recurso próprio, tentando algum parcelamento junto ao fabricante para poder sobreviver.
ADAMO BAZANI: E são raros os incentivos que existem para o fretamento, parece que as instituições financeiras ainda não entenderam que o fretamento também é mobilidade. A gente tem incentivo urbano e tem que ter mesmo, claro, carro elétrico, enfim, a gente tem incentivo até para o rodoviário mesmo, mas fretamento quase nenhum.
EMERSON IMBRONIZIO: É zero, não é que não tem nenhum incentivo, hoje nós não temos isenção da folha de pagamento, não fomos abolidos do PIS/Cofins, pagamos tudo, ICMS, combustível, ISS, ICM, a gente paga tudo. Então nós não temos isenção de nada, nós somos transporte privado, quando coloca a palavra privado eles entendem que nós não fazemos parte do coletivo, é luxo, paga quem pode, mas não é, hoje o fretamento é um complemento do serviço público, se tirar o fretamento da cidade, colapsa o sistema. Eu tenho indústria que recebe na entrada de turno 60 veículos, então esse volume num momento só, se fosse para o transporte público, colapsava já o transporte público no primeiro momento.
ADAMO BAZANI: Quando a gente fala de falta de incentivo, parece que as autoridades ainda não entenderam que o fretamento ele faz parte da mobilidade urbana, existem sistemas que a gente acompanha que o fretamento acaba aliviando, por exemplo, o custo do ônibus de uma linha noturna que não se sustentaria, urbano convencional.
EMERSON IMBRONIZIO: Sim, com certeza, eu acho que há muito tempo a gente foi vilão, sempre enxergado como bandido, que nós tirávamos o passageiro do transporte público, pelo contrário, hoje em dia a gente ajuda a sustentar o transporte coletivo público, porque as indústrias acabam tendo seus turnos exclusivos bem no horário de pico do transporte coletivo público, então hoje nós somos uma alternativa e acho que a gente soma-se ao transporte público para dar mais eficiência e eliminar um pouco de carro da cidade.
ADAMO BAZANI: Uma curiosidade para algumas pessoas que vêm do Diário do Transporte é a seguinte, eu sou um grande grupo, um médio grupo empresarial, eu tenho ônibus, eu tenho as linhas urbanas, eu opero rodoviário regular e eu opero fretamento. Para conseguir fazer o uso de algum incentivo, eu posso, por exemplo, comprar como se fosse uma empresa urbana e depois repassar esse veículo?
EMERSON IMBRONIZIO: Não, esse benefício não se transfere, o benefício que é das empresas urbanas só serve para a empresa urbana, o que é fretamento é fretamento e o rodoviário é rodoviário. O que mais tem incentivo hoje seria o transporte coletivo público urbano, o rodoviário o incentivo é bem menor, ele tem isenção, às vezes, do combustível, do ICM do combustível, mas nada se confunde, são tudo separados, e o fretamento não tem nenhum, então mesmo que tenha urbano, rodoviário e fretamento, o fretamento está desenquadrado em qualquer tipo de benefício.
ADAMO BAZANI: Eu comprei, por exemplo, um modelo que serve para os três, o seletivo metropolitano, um fretamento e também um rodoviário. Se eu for usar ele para fretamento, eu não posso ter nenhum benefício?
EMERSON IMBRONIZIO: Não, não tem nenhum benefício, desde o momento da compra, você não tem nem isenção de emplacamento, não tem IPVA, por exemplo, não tem nenhum benefício, então são distintos os departamentos, setores separados.
ADAMO BAZANI: E você falou da terceira dor, digamos assim. Primeiro então o biodiesel, depois a questão da taxa de juros que a gente também já emenda com a falta de incentivos públicos. E a outra?
EMERSON IMBRONIZIO: A outra nós estamos falando relacionada à lei do motorista, nós tínhamos uma lei de 2015, que foi criada a lei exclusiva do motorista e foi derrubada agora e nós tínhamos alguma flexibilidade nessa lei de motorista de fazer intrajornada de 11 horas, nós poderíamos fracionar 8 mais 3 ou 9 mais 2 horas e hoje isso não é possível e no fretamento isso dói demais para nós, porque as empresas usam picos e você tem que poder fracionar esse horário, isso é fundamental. Isso é uma coisa que está incomodando muito as empresas de fretamento e principalmente as empresas de turismo, que hoje não podem mais viajar com dois motoristas para fazer viagem de longa distância, então é capaz de inviabilizar o turismo de longa distância, porque o motorista que está de descanso está considerado em jornada de trabalho, ele não pode assumir o volante após o descanso, mesmo que ele esteja dormindo numa poltrona leito ou alguma coisa, ele não pode assumir o volante após o descanso do outro.
ADAMO BAZANI: Inviabiliza porque, por exemplo, uma rodoviária regular, a empresa normalmente tem uma malha de pontos de apoio, de parceria com outras empresas de fretamento, ele não opera uma malha porque ele não tem uma rota fixa.
EMERSON IMBRONIZIO: Não tem rota fixa, então você vai uma vez para Aparecida do Norte, outra vez Rio de Janeiro, outra vez Belo Horizonte e você não tem condição de deixar ponto de apoio para fazer troca de motorista, então hoje é uma grande dor no turismo, infelizmente, porque o turismo está em um bom momento, porque o preço da passagem aérea está muito caro, os ônibus de turismo estão tendo bastante demanda, mas nós estamos fragilizados nesse sentido. Então, resumindo, seriam essas três dores hoje, as principais que afetam, e as outras ainda a gente consegue driblar, mas essas três são bastante difíceis.
ADAMO BAZANI: Perfeito, a gente agradece bastante a sua participação aqui no Diário do Transporte.
EMERSON IMBRONIZIO: Eu que agradeço.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
Colaboraram Vinícius de Oliveira e Yuri Sena


