Eletromobilidade

ENTREVISTA: TEVX vai oferecer “hub” de carregamento para ônibus com opção de BESS – armazenadores de energia

Serão três opções de modelos de negócio. Promessa é de reduzir custos de infraestrutura com compartilhamento entre diferentes operadores de transportes e aproveitar melhor energia rede disponível

ADAMO BAZANI

Colaboraram Vinícius de Oliveira e Yuri Sena

Os operadores privados ou públicos e os gestores dos sistemas de transportes coletivos urbanos já deram o recado na prática: quando o assunto é eletrificação de frotas, não basta apenas oferecer modelos de ônibus. Há décadas à frente da prestação dos serviços, de veículos, eles entendem. O que precisam mesmo é alternativas que atendam a toda a cadeia desta nova realidade (não mais tendência) da mobilidade.

Uma das principais carências é em relação a infraestrutura das garagens e sistemas de melhor aproveitamento da infraestrutura existente e energia disponível.

E do outro lado do balcão, as empresas que fornecem os veículos e tecnologias começam a dar respostas.

Enquanto marcas nacionais, como a Eletra, de São Bernardo do Campo (SP), oferecem uma espécie de consultoria completa do início da aquisição dos veículos, passando pela infraestrutura, operação e escolha dos modelos de negócios mais adequados; ou marcas mundiais erradicadas há décadas no Brasil, como a Mercedes-Benz, que disponibilizam conceito modular de packs de baterias, com opções de acordo com a autonomia e previsão de consumo energético mais adequadas à operação e à redução do preço final do coletivo; representantes nacionais de marcas de outros países trazem pacotes de personalização e opções ainda pouco aplicadas quanto a infraestrutura que prometem não somente baixar os custos operacionais, como dinamizar todo o atendimento ao passageiro.

É o caso da TEVX ,que é representante da Higer, uma das maiores fabricantes de ônibus no mundo, com sede na China. A novidade, entretanto, não é em relação ao veículo ônibus em si, mas quanto a dar condições de operar.

O CEO da empresa, Carlos Eduardo Souza, conversou com o Diário do Transporte nesta terça-feira, 23 de setembro de 2025, durante um seminário de eletromobilidade, promovido pela Seclima (Secretaria Executiva de Mudanças Climáticas), Aliança ZEBRA, coliderada pela C40 Cities, o Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT) e a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).

O executivo revelou ao Diário do Transporte que a marca passará a oferecer aos gestores públicos e operadores de transportes uma alternativa até então pouco utilizada no Brasil: oferecer “hub” de carregamento para ônibus com opção de BESS (Battery Energy Storage System). – armazenadores de energia, em linhas gerais, são espécies de “no-brake” gigantes que, entre os diferenciais dos atuais sistemas de recarga, vão captando energia da rede, mesmo em baixa tensão, durante o dia, de forma gradual e lenta, para quando os ônibus chegarem à garagem, no final da noite, início da madrugada, carregarem como se estivessem conectados à rede de distribuição, mas a eletricidade já vai estar guardada na garagem.

Com experiência em ramos diferentes de prestações de serviços, inclusive participando em 2010 da criação da Enel X, que atua em modelos de infraestrutura e negócios de eletromobilidade, Carlos Eduardo Souza, sabe das dificuldades tanto de operar sem todo o preparo necessário quanto a equipamentos e redes, no caso das viações; mas também vivenciou de perto que adequar o fornecimento da energia, no caso da distribuidora, também, não é nada fácil.

Segundo Cadu, como é conhecido no mercado, já existe negociação para implantar este hub na capital paulista.

São basicamente três opções:

– Somente com carregadores, que vão ser quantificados de acordo com o limite que existe na infraestrutura da distribuidora e ao limite regulatório, que é o máximo de 2,5 MB nesse momento. Será possível obter a energia no mercado livre.

– A implantação em conjunto com os carregadores, de áreas de manutenção, lavagem e outros serviços da garagem. Assim, após o ônibus fazer uma recarga, já pode no mesmo espeço realizar pequenas manutenções logo na sequência.

– Tudo o que está nas duas primeiras opções ou apenas os carregadores sem as áreas de serviço, mas também com o sistema de carregadores e armazenadores BESS.

A promessa da TEVX, entretanto, é não simplesmente o BESS só como backup, mas como um incremento na quantidade de carregadores. Para isso, a empresa diz que com o compartilhamento das estruturas com BESS, seria possível ter o dimensionamento, por exemplo, de um container, e gerar 5 megas adicionais.

Como mostrou o Diário do Transporte, em 18 de setembro de 2025, a prefeitura de São Paulo autorizou duas empresas de ônibus a instalarem a tecnologia BESS.

Inicialmente, oferece este sistema em São Paulo a Huawei (outra empresa chinesa fornecedora do equipamento) com a representante brasileira do grupo Matrix Energia. A administração da capital paulista reforçou que a melhoria nas garagens de ônibus não terá custos para os cofres do município.

O Diário do Transporte mostrou que uma dessas viações já testava o equipamento e que o prefeito Ricardo Nunes foi à China para verificar de perto a fabricação e de lá conversou com Adamo Bazani.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2025/04/23/nunes-da-asia-para-o-diario-do-transporte-tecnologia-que-reduz-dependencia-da-enel-us-100-milhoes-serao-so-para-onibus-chineses-e-comenta-prejuizo-de-r-300-milhoes-da-mercedes-benz/

Na entrevista a Adamo Bazani, Carlos Eduardo falou que este “hub” pode funcionar em um pátio em comum entre dois ou mais operadores, podendo ser montado na garagem de um só deles, com os outros fazendo a utilização e posterior rateio de custos ou então, seria disponibilizado um espaço estrategicamente localizado em um ponto próximo de diversas garagens.

Leia abaixo:

Adamo Bazani: O Diário do Transporte está dentro de um ônibus modelo Fencer, produzido pela Higer, um modelo diferenciado. E a TEVX, que é a representante aqui no Brasil, e uma empresa que oferece soluções, vai trazer ao Diário do Transporte uma informação a partir de agora, praticamente, a marca TEVX vai oferecer: Hubs de eletromobilidade, como é isso, Carlos?

Carlos Eduardo Souza: Adamo, primeiro, obrigado por você estar aqui nos visitando, nesse evento aqui de São Paulo, que está sendo super rico, no qual a gente está podendo discutir, não simplesmente diferenças entre produtos, mas como expandir a eletromobilidade em São Paulo, que é um exemplo para todo o Brasil. Então, nesse conceito, a TEVX , hoje, pensa em trazer toda a expertise que a gente tem no nosso time, em mais de 20, 25 anos dependendo do time, na energia, na solução de infraestrutura, e desenhando um pouco do aprendizado que a gente viu no Chile, na Colômbia e fazendo acontecer no Brasil. Hoje são mais de 20 projetos que nós apresentamos no mercado em que eles funcionam como Hubs de recarga.

Eles funcionam da seguinte forma: a gente vai ter três variações. Uma primeira variação em que simplesmente você vai ter os carregadores, e os carregadores vão ser quantificados de acordo com o limite que a gente tem na infraestrutura da distribuidora e ao limite regulatório, que é o máximo de 2,5 MB nesse momento.

Adamo Bazani: Baixa tensão, média tensão?

Carlos Eduardo Souza: Em média tensão, em média tensão. E com isso, a gente vai conseguir fazer o atendimento mais rápido e, também, sem onerar tanto o sistema de distribuição como a participação financeira daquele operador. Esse Hub, vamos dar um exemplo: se eu tiver um Hub com 12 carregadores, significa que a cada momento a gente vai poder colocar dois ônibus sendo carregados em cada carregador, 24 por cada momento. E você pode carregar não simplesmente em determinados horários, por exemplo, noite e madrugada, que é o projeto original que as garagens têm feito hoje, mas você pode carregar agora durante praticamente todo o dia. E utilizando de artifício de contratar a energia no mercado livre.

E você passa a ter o quê? Simplesmente esse Hub deixa de ser para um único operador e passa a ser para multioperadores. E você consegue fazer o controle de acordo com o sistema. Você sabe que ônibus carregou, qual prefixo, quanto tempo ele carregou, qual a energia, quanto vai custar essa energia ou esse pacote de serviços. Essa é uma versão.

A segunda versão, a gente também está explorando o modelo de trazer a possibilidade de manutenção, lavagem, porque aí você aproveita que está fazendo uma recarga e, também, está fazendo pequenas manutenções logo na sequência. Enquanto está fazendo a recarga, terminou, já vai para um espaço de manutenção.

Adamo Bazani: É como se fosse uma, entre aspas, linha de produção, só que voltada para a operação?

Exatamente. Com isso, você evita que tenha que retirar aquele veículo, que às vezes é um procedimento muito simples. Ele não precisa ir para a garagem dele. Ele simplesmente está naquela quilometragem, aquele entre pico, faz o serviço, volta para a operação. Então você elimina uma quilometragem morta. Então começa a ter benefício também com redução de custo nessa quilometragem.

E a terceira variação é que, além disso tudo, você traz os famosos BESS, os bancos de bateria.

Adamo Bazani: É o sistema que o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, anunciou, né?

Carlos Eduardo Souza: Exatamente. Só que o que a gente está trazendo é no modelo em que você vai colocar esses BESS, não simplesmente só como backup, mas como um incremento na quantidade de carregadores. Então a gente consegue trazer uma equação e é bem interessante. Cada vez mais a gente evolui nessas parcerias em BESS. Você consegue ter o dimensionamento, por exemplo, de um container, você pode ter 5 megas adicionais.

Então, praticamente, o limite que você teria daquela garagem, você já está colocando a mais em BAS. E aí você tem que balancear o quê? Quanto tempo para carga e descarga desse BAS e balancear ao longo do dia. E aí, com essa inovação toda, você também tem alguns casos, a gente já está fazendo esses desenhos, em que você coloca plantas solares também. Elas vão contribuindo com a sustentabilidade, vão contribuindo com todo esse efeito.

Adamo Bazani: Quer dizer, vai ganhando, digamos assim, uma energia a mais.

Carlos Eduardo Souza: Exatamente, uma energia a mais, e você começa a ter a transibilização daquela energia verde renovável dentro de uma eletroterminal ou de um hub de recarga, como a gente chama nesse tipo de projeto.

Adamo Bazani: Só para a gente entender na prática, é um terreno que vai ficar esses equipamentos, é isso?

Carlos Eduardo Souza: Exatamente. Esse terreno são os operadores que vão alugar, vão comprar. E aí várias garagens poderão fazer, digamos assim, um compartilhamento, várias empresas poderão fazer o compartilhamento dessa estrutura.

Adamo Bazani: Por exemplo, a viação X e a viação Z, elas vão e se unem no mesmo ponto, é isso?

Carlos Eduardo Souza: Exatamente, você teria essa variação, mas você também vai ter a variação de simplesmente ter um investidor que vai ser o proprietário desse terreno e ele vai propiciar esse negócio. E quando você fizer essa equação, o operador vai fazer, sairia mais barato para ele utilizar esse hub de recarga a investir na sua própria garagem.

Adamo Bazani: Então, uma garagem próxima à outra. Eu sou dono da viação X e o meu vizinho que fica a 2, 3 quilômetros é dono da viação Y. Eu posso investir na minha garagem X e compartilhar. O frotista da viação Y vai até a minha garagem X.

Carlos Eduardo Souza: Exatamente. E você poderia fazer ainda, numa terceira opção, naquele trajeto em que você tem múltiplos operadores, para eliminar a quilometragem morta, a gente define um terreno que seja comum a esses múltiplos operadores e esse investimento vai ser feito ali. E hoje a gente tem investidores que estão conversando com a TEVX para que a gente possa desenvolver esse projeto.

E essas propostas, inclusive, já foram apresentadas. Em breve, espero a gente estar trazendo a boa notícia de primeira mão para você, e que vai ser assinado e vai ser o primeiro hub de recarga nesse conceito. E aí depois você traz várias outras aplicações.

Adamo Bazani: Capital Paulista?

Carlos Eduardo Souza: Capital Paulista. Mas essa mesma inovação a gente está trabalhando em vários outros municípios do Brasil também, porque é uma solução extremamente viável. E nesse conceito a gente consegue trazer o compartilhamento entre os próprios operadores. Então traz uma otimização para o sistema muito positiva.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

 Colaboraram Vinícius de Oliveira e Yuri Sena

Informe Publicitário
Assine

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

     
Comentários

Comentários

  1. Santiago disse:

    Boas ideias vão surgindo, e tornando a tecnologia cada vez mais viável no dia-a-dia.
    Só fica faltando mesmo acertar os preços dos ônibus, que já passou da hora de ficarem mais realistas.
    Com tanta produção em série, e constantes equacionamentos de custos, não cola mais que um elétrico custe 3 ou 4 vezes mais que um Euro-6.
    Fabricantes, colaborem…

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Diário do Transporte

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading